Passa a mão na perereca e joga água!

Nonato Reis*

A transição da infância para a adolescência é o período das transformações: física, emocional e, principalmente, sexual. É quando o homem e a mulher rompem a fronteira da neutralidade e se assumem como tais. Até então eu me via como criança, a esmo tentando compreender o mundo dos grandes. Inocente, ainda acreditava no conto da Carochinha, que dizia que o bebê chegava trazido no bico da Cegonha. Até que um dia um primo mais velho me esfregou a verdade na cara, da forma mais rude possível: “Estão te enganando. A criança nasce é na base da trepada!”.

Aquilo jogou por terra a visão que eu tinha da vida e me fez ingressar em um novo ciclo. O mesmo primo que me escancarou o universo dos adultos me fez adentrar o mundo mágico do sexo. Primeiro, ensinando-me a prática da masturbação. “É assim… e as aulas se foram sucedendo até me sentir mestre no ofício. Treinado e viciado no exercício das mãos, organizávamos torneio de masturbação, para ver quem conseguia atingir o clímax mais vezes. Eram tantas as repetições que, já à beira da exaustão, ao invés de expelir sêmen, brotavam gotas de sangue.

Da descoberta do corpo para a iniciação com o sexo oposto foi um pulo. Só que, desajeitado, eu nunca chegava ao fim de uma relação. Não conseguia sequer ir além dos por menores, talvez porque esse também não fosse o objetivo das parceiras que, ainda virgem, queriam apenas se divertir, lateralmente, numa espécie de masturbação a dois.   

A puberdade tem essa primazia de despertar o conhecimento do corpo. E as coisas acontecem numa intensidade e rapidez de tal modo agudo que é quase impossível controlar seus impulsos.

De repente, a qualquer hora, eu era tomado de uma força descomunal que parecia provir das entranhas da alma. Havia uma prima que eu não podia ver. Ao menor sinal da sua presença eu sentia arrepios. O corpo parecia arder, como se queimasse de febre.

Por conta desse descontrole emocional, tive que enfrentar algumas situações constrangedoras. Uma delas foi ser flagrado por minha mãe em pleno ato com as mãos. Ela arregalou os olhos como se aquilo fosse algo sobrenatural. “Que isso!”. Então pegou um cabo de vassoura e só não me acertou as fuças porque eu fui mais rápido e fugi em disparada. Depois comentou com meu pai: “esse menino anda fazendo coisas estranhas, temos que ficar de olhos abertos; não quero mais minhas filhas sozinhas com ele”. Aquilo me feriu na alma. Jamais seria capaz de chegar a tanto, até porque as irmãs constituíam um terreno neutro ou sagrado pra mim.

Logo depois mudei-me para São Luís, onde passei a morar com meus avós, cuja parede lateral da casa era conjugada com a do vizinho e formava uma baliza comum entre os dois imóveis. Do lado do vizinho, havia um chuveiro no muro, utilizado para banhos. A dona da casa tinha uma filha que se chamava Rosa, entre 11 e 12 anos.  As duas costumavam tomar banho juntas. E ouvia a mãe dizer à filha: “passa a mão na perereca e joga água!”.

 Aquilo foi como atiçar o demônio que havia em mim. Então deitei-me no chão, rente à parede, onde havia um buraco, provavelmente aberto por rato, que dava acesso ao outro lado.

No exato momento que tentava bisbilhotar o que não devia, a mulher, percebendo algo estranho, encheu um caneco de água e atirou naquela direção, atingindo-me em cheio nos olhos.

A água misturada à lama provocou-me uma terrível irritação e eu amanheci no dia seguinte com a cara toda inchada, os olhos vermelhos feito pimentões. Vendo-me daquela jeito, a vizinha quis saber o que havia acontecido comigo. “Acho que foi espuma de sabão”, desconversei. E ela, os olhos faiscando: “não teria sido perereca?”.

*Jornalista | Escritor

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