No tempo do Tetrex e da Penicilina

Por Nonato Reis*

Eu sou do tempo da penicilina e seus derivados. Tempo em que o homem perdia a virgindade em ambientes lúgubres, sob a luz tosca das alcovas e ao som de Amado Batista e Raul Seixas, entre goles de cerveja e de rum, camas de pau duro (com o perdão do trocadilho), bacias e litros de água.

Era um cenário insalubre, miserável mesmo, porém de um apelo irresistível, mesmo diante da ameaça de pegar uma doença venérea, como a gonorreia, nessa época conhecida pelo codinome de esquentamento.

Poucos homens saíram dessa fase ilesos, sem precisar recorrer a doses cavalares de antibiótico, e eu não seria exceção. Logo na estreia pelo circuito dos puteiros fui premiado com uma colônia de gonococos. O debut ocorreu na Base da Ziloca, localizada próximo ao retorno da Cohab/Turu, então um dos cabarés mais conhecidos da cidade. Ziloca era uma negra corpulenta, baixa, atarracada, já beirando os 60 anos. Não sei por quê, foi com a minha cara e depois se tornou uma aliada na escolha das parceiras de cama.

Com passos firmes e ensaiados, adentrei o puteiro como se fosse um velho frequentador da casa. O salão, espaçoso e mal iluminado, estava praticamente vazio naquelas primeiras horas da noite. Olhei em volta. Ziloca ocupava uma mesa retangular em madeira velha, encardida, na parte central; e próximo a ela, numa outra mesa, dessas de plástico que se encontram em bares e botecos, quatro meninas tomavam assento com evidente desinteresse, talvez pela ausência de pretendentes. Eu me fixei numa loirinha de cabelos curtos e olhos alaranjados, achei que ela valia a pena. Bastou um aceno de dedo e a menina caminhou em minha direção.

No começo quis gastar palavras, com apresentações e perguntas idiotas, mas ela, num pragmatismo agudo, disse que não tinha tempo a perder com isso, e exortou-me logo a pedir um quarto. Peguei a chave que Ziloca me ofereceu e, coração aos pinotes, encaminhei-me àqueles cubículos imundos, como quem entra no corredor da morte. No quarto, havia uma cama de ferro oxidado, uma mesinha em pior estado e sobre ela dois litros de água e uma bacia de alumínio, para a higiene pessoal.

Com mãos trêmulas, despi-me. De cueca deitei-me na cama, onde a garota, muita mais hábil que eu, já me esperava como nascera. Num instante de hesitação, a voz de Benito Di Paula, vinda do salão, chegou-me em socorro. “Agora chegou a vez vou cantar/mulher brasileira em primeiro lugar”. Eu gostava da música, sabia a letra de cor, e comecei a acompanhar Benito.

A menina reagiu com fúria. “Olha aqui, garoto, tu veio trepar ou fazer graça?”. Eu sorri amarelo, e ela completou. “Diz logo porque eu não vou perder tempo contigo”. Realizado o serviço, muito mal por sinal, voltei para casa achando que havia tirado um peso das costas.

Três dias depois, a fatura do desatino me foi apresentada na forma de um leve ardor ao expelir a urina, que evoluiu para dor e queimação de subir nas paredes.

Ao invés de preocupação, vi-me tomado por um súbito contentamento. Na minha cabeça, aquilo representava a prova da emancipação masculina. “Agora sim, era um homem de verdade!”. Corri na farmácia; ao vendedor que me atendeu, proclamei alto e bom som, como quem alardeia um feito de que muito se orgulha. “Quero um remédio para esquentamento!”.

O cara sorriu, naquele estilo “pegaram mais um trouxa”, foi até uma prateleira, pegou dois tubos, um deles com um pó cinzento até a metade, o outro com água destilada. “Você despeja o líquido aqui dentro, agita até ficar cremoso e toma de um fôlego só, sem respirar, porque isso fede a peido, tem gosto de coisa apodrecida”. O estômago embrulhou e deu um nó ao engolir a beberagem, mas foi tiro e queda”.

Uma semana depois, eu já era cliente vip da Ziloca, com direito a “aprovar” as meninas que chegavam na casa. Um dia, um primo egresso do interior e ainda virgem, pediu que o ajudasse a tirar o selo. Levei-o ao cabaré, escolhi uma morena baixa com a bunda a la Gretchen, que fazia as vezes de dama de companhia dos clientes baludos, e pedi que ajudasse a livrar o primo do aperreio. Solícita, pegou o rapaz pelas mãos e o arrastou para o cubículo.

Menos de dez minutos depois, os dois já haviam retornado, ela com cara de poucos amigos, ele cabisbaixo, como quem fora flagrado em algum delito. Quis saber o que ocorrera e ela naquele seu jeito despachado foi logo entregando: “Meu filho, eu fiz o que pude, mas com esse garoto não dá”. Como assim? “O cara só tem ovo, parece um chibarro com aquele par de abacates imensos”.

A custo, tentando conter o riso, questionei no que isso poderia influir no principal. E ela: “influi que o principal é pequeno demais, parece uma cápsula de tetrex, e pra fazer cócegas eu não preciso de comprimidos”.++Batalhões das regionais de Pinheiro e Viana, Grupo de Operações Especiais, Força Tática e de um grupamento treinado para contenção deste tipo de crime.

Jornalista | Escritor

admin

Jornalista (MTB - 918). Pós-Graduado em Design Gráfico pela UFMA – Universidade Federal do Maranhão. Publicitário e Designer Gráfico. Membro da Academia Vianense de Letras (AVL) - Cadeira nº 20 - Patrono: Bispo Dom Hélio Campos. Edita o Blog Vianensidades desde 2007. CONTATOS: Email: [email protected] | Whatsap: 98 98461 2929

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.