Pra frente, Brasil? Pra onde?

Flávia Regina Melo
Jornalista

Com raras exceções, a minha geração passou a infância sendo manipulada pelo ideário militar brasileiro, com seu acervo de comunicação ideológica e um cancioneiro formado por músicas como “Eu te amo, meu Brasil”; Pra Frente, Brasil”, “Este é um país que vai pra frente” e outras. A maioria sequer desconfiava do banho de sangue, “no verde-louro desta flâmula”, ocorrido nos porões da Ditadura Militar e da enorme fake news que foi o chamado “Milagre Econômico Brasileiro”. Somente na universidade, quem cursou Comunicação Social no Maranhão teve acesso ao outro lado das engrenagens políticas, sociais e econômicas que moviam o país no regime militar. Devo a alguns professores da UFMA os devidos reparos históricos feitos com a sugestão da leitura de obras essenciais como: “Brasil, nunca mais”, organizado por Dom Paulo Evaristo Arns, “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, entre outras. O filme de Roberto Farias, “Pra frente, Brasil”, de 1982, foi também outra aula de História.

Sob o cabresto do bolsonarismo em vigência, mais de cinquenta anos depois, brasileiros tomados por um sentimento, que dizem ser de ufanismo pela “amada pátria idolatrada”, pretendem tomar as ruas no próximo 7 de setembro, atendendo a uma convocação do presidente da nação, com popularidade e aprovação descendo ladeira abaixo. A distorção do patriotismo é historicamente verificada em diversos capítulos da historiografia mundial. No livro raríssimo “A Mistificação das Massas pela Propaganda Política”, com prefácio de Miguel Arraes na edição brasileira de 1967, há uma espécie de desvendar do “segredo do sucesso de Hitler” e daquilo que o autor Serge Tchakhortine, ativista político russo e teórico da psicologia de massas, chama de “violência psíquica na política mundial”.

Com queda de 0,1% no PIB do segundo trimestre, em comparação ao primeiro período do ano, o pior desempenho da economia desde a chamada década perdida, com gasolina a R$ 6,90, a pior avaliação mundial de combate à pandemia, crise hídrica e energética, crise humanitária, pibinho, rachadinhas, mansões milionárias, inflação nas alturas e outros fiascos, ir às ruas em manifestações com a chancela do “eu autorizo presidente” é um espetáculo semelhante a um enterro de celebridades, sem choro ou ranger de dentes. Inevitável lembrar de Policarpo Quaresma, da obra de Lima Barreto: um patriota, que lutou pela valorização da cultura nacional, mas que foi condenado à morte pelo governo de Floriano Peixoto, acusado de traição. Triste Fim de Policarpo Quaresma!

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