Memória: há 20 anos, José Reinaldo saiu de 3% em abril para se reeleger no 1º turno contra Jackson Lago

Repórter Tempo/Ribamar Correa

Pesquisas do momento apontam Weverton Rocha à frente de Carlos Brandão; em 2002, José Reinaldo virou o jogo e tomou a liderança do pedetista Jackson Lago

Sempre que aliados do senador Weverton Rocha (PDT) defendem a escolha dele como candidato do Grupo governista à sucessão estadual alegando sua posição como líder nas pesquisas, partidários do vice-governador Carlos Brandão (PSDB) rebatem com o argumento segundo o qual, se dez meses antes da eleição, pesquisa fosse critério para avaliar pré-candidatura, em 2002, há 20 anos, portanto, o então governador José Reinaldo Tavares (então no PFL) não teria se reelegido no 1º turno contra Jackson Lago (PDT), na época prestigiado ex-prefeito de São Luís. Naquela eleição, José Reinaldo saiu das urnas com 48% dos votos contra 40% de Jackson Lago e 11% de Ricardo Murad (PSB). Por causa da ilegalidade da candidatura dele – por ser cunhado da então ex-governadora Roseana Sarney (PFL) – Ricardo Murad teve seus votos (11%) anulados. Com isso, o percentual de José Reinaldo Tavares subiu para 51% e o de Jackson Lago para 42%, o que garantiu a reeleição do governador no 1º turno.

Esse desfecho ocorreu após longa sequência de abalos, marchas e contramarchas, que começou a ganhar forma e consistência exatamente no mês de Janeiro de 2002. Naquele momento, iniciando o último ano do seu segundo mandato, a governadora Roseana Sarney (PFL) encontrava-se na plenitude do seu poder político, integrando a lista de pré-candidatos à sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), tendo inclusive aparecido na liderança em pelo menos três pesquisas. Enquanto cuidava do seu projeto nacional, a governadora se dava o luxo de brincar com os aspirantes à sua sucessão, certa de que sem o seu apoio nenhum deles iria a lugar algum. A sua lista incluía o então senador Edison Lobão (PFL), o senador João Alberto (PMDB), o empresário João Abreu, então o influente secretário-chefe da Casa Civil, e o vice-governador José Reinaldo Tavares, que figurava como a última das suas opções, inclusive por causa das pesquisas, que lhe mostravam o panorama estadual e nacional a cada duas semanas.

Em meados de Janeiro, o vice-governador José Reinaldo Tavares, que vivia numa espécie de isolamento na residência oficial no Turu, convidou o colunista, então dirigente de jornal, para uma conversa aberta e sem pauta. Após longo tempo de avaliação, elogios e reclamações, José Reinaldo, visivelmente agastado pela pouca atenção da governadora ao seu projeto de candidatura à sucessão dela, mas exibindo ao mesmo tempo uma determinação de ferro, definiu o futuro dele com uma declaração em tom de sentença: “Em abril ela vai sair e eu vou assumir o Governo. Quero ver quem vai me dizer para eu não ser candidato”. A indefinição sobre as pré-candidaturas continuou, tendo o vice-governador se mantido em silêncio.

O jogo virou radicalmente na tarde de 15 de março, quando, munida de uma ordem emitida pelo então jovem juiz federal José Carlos Madeira, a pedido do Ministério Público Federal, a Polícia Federal invadiu os escritórios da Lunus, empresa de Jorge Murad e Roseana Sarney, em busca de provas de suposta e nunca comprovada corrupção da governadora no âmbito da Sudam. A operação culminou com a divulgação de uma imagem chocante: R$ 1,3 milhão em dinheiro vivo, turbinando um escândalo que destruiu a base do projeto nacional da então governadora do Maranhão, que depois de amargar uma impiedosa e cruel campanha de difamação política e pessoal, decidiu candidatar-se ao Senado. Em meio a esse turbilhão, José Reinaldo Tavares se manteve sereno e solidário, assumiu o Governo em abril, e não precisou fazer qualquer esforço para ser candidato a governador. Naquele momento, ele tinha o poder sob seu controle.

As primeiras pesquisas feitas em abril daquele ano, semanas após sua posse, para medir a corrida ao Palácio dos Leões, pareciam prenunciar uma tragédia eleitoral para o Grupo Sarney, uma vez que, saindo do comando da Prefeitura de São Luís, que passou ao vice Tadeu Palácio (PDT), o respeitado Jackson Lago despontava na liderança com mais da metade das intenções de votos, enquanto o agora governador José Reinaldo amargava humilhantes 3% de preferência. No comando do Estado, José Reinaldo foi buscar apoio dentro e fora do Grupo Sarney, construiu as alianças certas e colocou a máquina em ação. As pesquisas seguintes o colocaram numa curva firme de crescimento, levando-o a ultrapassar Jackson Lago entre Agosto e Setembro. E o resultado das urnas foi acachapante: o governador se reelegeu no 1º turno com quase dez pontos percentuais de vantagem sobre o ex-prefeito de São Luís, tendo ainda a ex-governadora eleita para o Senado com larga maioria de votos.

Ocorridos duas décadas atrás, os fatos que marcaram as eleições de 2002 guardam algumas similaridades com o que está em andamento no que diz respeito a pesquisas. E que, mesmo sendo muito claros os pontos que os diferem, se mantém válida a observação de que pesquisa muito antecipada não decide eleição e, mais do que isso, um vice pré-candidato é uma coisa, enquanto um governador pré-candidato em busca da reeleição é outra, completamente diferente.

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