O meu pé de manga burra

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Nonato Reis*

Foi a primeira coisa verdadeiramente minha, sobre a qual tinha o pleno exercício da posse, como o criador diante da criatura. Eu a planejei meticulosamente. Escolhi a semente e também o local que a receberia. Preparei o solo, cavei o buraco, ali depositei o caroço.

Mal posso descrever a emoção de que me vi possuído, ao notar o broto verdinho rompendo a terra, anunciando a vida, igual à felicidade do pai ao ver o filho no instante do nascimento.

Como toda criação que se preza, àquele pé de manga burra dei o nome de “Maria Celeste”. Ali, no limite do quintal de casa, quase rente à cerca fronteiriça às terras do tio Zeca, fazia-lhe inspeções diárias, às 7 da manhã e ao cair da noite. Nessas visitas, derramava-lhe água no pé e acompanhava o seu crescimento. Eventualmente, capinava ao redor da raiz, para evitar a proliferação de ervas daninhas.

À custa de zelo e carinho paternal, “Maria Celeste” cresceu rápido, tornou-se uma árvore vistosa.

Na verdade, de burra tinha apenas o nome genérico que, injustamente, herdara da espécie. Era inteligente, alegre, sábia. Eu a fiz confidente de todas as horas, e com ela partilhava a alegria e a tristeza, a saúde e também a doença.

Parecia conhecer-me como ninguém e, mesmo no seu aparente mutismo, jamais me deixava sem o necessário conforto. Sempre dava um jeito de apontar a melhor saída.

Se tirava uma nota baixa na escola, corria até ela e externava a frustração. “Celestinha, que tristeza! Tirei 5 em Matemática. Estou envergonhhado”. De repente suas folhas tremulavam e uma rajada de vendo tocava-me a face, como a dizer: “não chore, porque depois da chuva o sol brilha e dissipa as nuvens negras”.

Se uma menina eu queria conquistar, sondava-lhe a opinião. “Você acha que tenho chance com aquela magricela de espinhas no rosto?” Então o verde de suas folhas assumiam um tom abacate, que sugeria dizer: “vai em frente que há esperança”.

Eu acompanhava todas as mutação nas diversas fases da vida de Maria Celeste e chegava a comemorar as datas e fatos mais importantes. Como quando completou um ano de existência, que lhe cantei os parabéns e depositei no pé uma coroa de flores com um bilhetinho, que dizia mais ou menos assim: “Que bela mocinha você está se tornando! Não tarda e me dará netos!”. Dito e feito. Meses depois surgiam as florzinhas, anunciando frutos doces e incontáveis.

A primeira manga de Maria Celeste eu dei de presente à natureza, como retribuição à vida que ela me oferecera de presente, na forma daquela árvore tão especial. Deixei que amadurecesse e, chegada ao ponto, caísse sobre o chão e ali se decompusesse, misturada à terra.

De tristeza chorei quando dela tive que me separar, ao vir morar em São Luís, para dar sequência aos estudos. Porém, sempre que escrevia à família, após os cumprimentos de praxe, era de Maria Celeste que eu queria saber. “Como estava, sentia minha falta? Cuidavam dela direitinho? E seus frutos, continuavam adocicados?”.

Na primeira viagem de volta ao Ibacazinho, em face das férias, doeu-me ver a promiscuidade ao redor de Maria Celeste, com fezes humanas e sabugos de milho amontoados sobre suas raízes expostas.

Fiquei possesso e montei guarda para saber quem seria o autor daquela proeza. Depois de dias de cerrada vigilância, qual não foi a minha decepção, ao flagrar o meu próprio pai a faltar-lhe com o respeito. “Poxa, pai! Logo o senhor!” Ele sequer respondeu e continuou o seu ritual de todas as madrugadas.

A quebra de convivência com Maria Celeste distanciou-me do carinho que eu tinha por ela. Nossos contatos se tornaram esparsos a ponto de, algumas vezes, sequer me lembrar de visitá-la, quando das viagens mais curtas ao Ibacazinho. Porém jamais deixei de trocar confidências com ela e quando do meu primeiro casamento, “Celestinha” foi a única a saber por antecipação, além do casal de testemunhas.

Tempos atrás estive no Ibacazinho e a curiosidade tomou-me de assalto. “Como estaria, teria crescido ainda mais, o que fora feito dela?” Para a minha surpresa e desilusão, de Maria Celeste no local restavam apenas folhas secas e saudades.

*Jornalista | Escritor

Integra o livro “A Fazenda Bacazinho”, lançado em 2019. Com edição esgotada.

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