O cafajeste e a panela de mocotó

Ilustrativa | Arquivo

Por Nonato Reis*

Nos anos dominados pela luz do querosene, a festa de Nossa Senhora de Nazaré, em Viana, reinou absoluta. Era o principal evento do calendário festivo da cidade e de toda redondeza.

Acontecia na primeira semana de dezembro, na Igreja do Nazaré, que ficava localizada em uma espécie de campina, a dois quilômetros da sede do município. Vinha gente de toda parte, especialmente das localidades mais próximas.

No Ibacazinho, a apenas dois quilômetros, a festa mobilizava o povoado desde o início do ano, quando as pessoas começavam a fazer economia para cobrir os gastos com indumentária e consumo.

Eu era criança ainda, mas me lembro de tudo com riqueza de detalhes. Dentro da igreja, pintada em azul e branco, havia a chamada ladainha, com cânticos e preces, conduzida por um pároco de Viana, que se estendia por toda a semana.

No lado externo pontificava um imenso largo, com barracas de pau a pique e palha, à semelhança dos arraiais juninos de hoje, onde se comercializava toda espécie de guloseimas, das quais a minha preferida eram as broas de milho que, de tão bem assadas, exalavam um cheirinho de bolo fresco. Tinha também um pequeno parque de diversões, em que se destacavam as barquinhas, sempre lotadas de crianças.

A grande atração da festa era um par de alto-falantes, instalado na copa de duas amendoeiras imensas. Por meio deles a direção da igreja organizava uma espécie de correio sentimental, em que as pessoas faziam declaração de amor e ofereciam músicas para seus entes queridos. O equipamento era também usado para mensagens de utilidade pública, com achados e perdidos.

Porém, o que mais me encantava era a orquestra, com seus instrumentos de sopro maravilhosos, tocando dobrados e hinos religiosos.

Meu avô, que foi um músico brilhante, passava horas comigo, na frente da orquestra, identificando os instrumentos e explicando a função de cada um dentro do conjunto. O que mais me fascinava era o Tuba, pelo seu tamanho e o som que emitia, grave, à semelhança de um surdo, fazendo a marcação das músicas.

Minha mãe tinha extremo cuidado para que eu não me perdesse dela, sempre me conduzindo agarrada em meu braço. Mas a minha curiosidade era tanta que um dia driblei a sua vigilância e desapareci em meio à multidão. Só fui resgatado muito tempo depois, após várias mensagens de apelo nos alto-falantes. “Atenção, quem encontrou um garoto loirinho, meio sarará, parecendo um grampo de alumínio, entre sete e oito anos, trajando camisa de listras, calça azul-marinho e sandálias brancas, favor trazê-lo aqui no estúdio. Seus pais o aguardam aflitos”.

O tempo passou e a festa foi perdendo o glamour de antes, até desaparecer por completo. Anos depois ressurgiu, porém, sem a mesma força da época inicial. Eu já havia me transferido para São Luís, onde cursava o primeiro ano do ensino médio. Certa vez, em férias no interior, fui ver a festa e dei de cara com uma menina que me encheu os olhos. Doralice tinha o corpo em linhas graciosas, os cabelos compridos, a pele morena e um gênio absurdo. Circulava pelo arraial na companhia dos pais, que possuíam uma barraca, onde vendiam cerveja, mingau e tira-gosto.

Durante toda a semana em que se realizaram os festejos de Nazaré eu tentei conquistar a garota, mas a concorrência era pesada. Todo mundo queria ficar com a menina, e ela esnobava a todos. Eu, sempre metido a poeta, até escrevi uns versos melosos e lhes dediquei, ao que ela reagiu com desprezo. “Não pense que você vai me conquistar com essas baboseiras. Conheço bem o teu tipo”.

Aquilo me doeu na alma. Enfurecido, fiquei maquinando um jeito de ir à forra.

Um dia, lá pelo meio-dia, o sol a pino, eu me encontrava na barraca dos pais da garota, junto com mais outros colegas. Dei uma volta por trás do barraco e deparei com uma enorme panela de mocotó, que fervia ao ar livre. Olhei ao redor e vi Maroto, parceiro de diabruras, que vinha logo atrás de mim. Fiz um leve gesto com a cabeça e ele entendeu a mensagem na hora. Maroto então pegou uma vara, que estava encostada na parede lateral da barraca, e a enfiou nas duas alças de alumínio da panela. Eu segurei numa extremidade, ele na outra, e assim carregamos a panela com mocotó para dentro do mato.

Depois chamamos os outros parceiros e fizemos o banquete, regado a meia dúzia de cervejas, compradas honestamente. Não demorou e ouvimos alguém gritar: “pega ladrão!”, seguido de latidos de cães que pareciam adentrar o matagal. A turma vazou!

Na pressa de fugir, meu pé tocou a alça da panela e ambos emborcamos no chão. Só deu tempo de subir em um pé de araribeira nova que, com o meu peso, balançava mais do que cuia de cego. Para a minha sorte, os cachorros não eram bons caçadores, pois que passaram batidos, sem se dar conta da panela e de mim.

Dois dias depois, vendo o desespero da mãe da garota, por perder uma panela que havia sido presente do seu falecido avô, retornei ao local do crime e resgatei o utensílio que, depois de lavado e areado com sabão, foi entregue brilhando à legítima dona.

A mãe da garota, que de nada desconfiou, ficou imensamente agradecida e passou a me tratar como filho. Daquele dia em diante passei a frequentar a casa deles no Vinagre. Era presença certa no almoço e no jantar, quando, em volta da mesa de pau d’arco, eu narrava a minha aventura na cidade grande, sempre tendo o cuidado de colocar um pouco de verniz nos relatos, para que o protagonista crescesse ainda mais aos olhos da plateia.

A menina, talvez farta da minha presença, e também por pressão da própria mãe, que passou a ver em mim o genro dos sonhos, decidiu me aceitar como namorado, não sem antes apontar o dedo no meu nariz. “Vou te dar uma chance, porque tu enfeitiçou minha mãe. Mas que tu tem cara de cafajeste, isso tem!”.

Para saber mais sobre a Festa de Nazaré leia o romance “A Saga de Amaralinda”.

*Jornalista | Escritor

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