Luto. Morre o ex-vereador e ex-presidente da Câmara de Viana, Sebastião Furtado

São Luís – Morreu na madrugada desta quarta-feira (24), o pecuarista, ex-vereador e ex-presidente da Câmara de Viana, Sebastião Furtado, por complicações causadas pela Covid-19.

Sebastião e a esposa Ceciliana lutavam por vários dias, entubados na UTI de um hospital de São Luís, para vencer a doença. Ceciliana faleceu no dia 17 deste, e agora foi o marido, deixando muita comoção e saudades entre os familiares, amigos e a sociedade vianense.

A prefeitura de Viana emitiu Nota de Pesar e decretou Luto Oficial de 3 dias pela morte Sebastião Furtado, tio do prefeito Carlos Augusto Furtado Cidreira.

O Blog transcreve abaixo uma crônica do jornalista e escritor vianense, Nonato Reis, afilhado de Sebastião Furtado, publicado no livro A Fazenda Bacazinho, que mostra a sua importância para o Ibacazinho e também para Viana.

SEBASTIÃO FURTADO, A ANDORINHA QUE FEZ VERÃO

Dizem, e isso vem da Grécia antiga, que uma andorinha só não faz verão. Sebastião da Silva Furtado, hoje com 85 anos, pegou esse postulado de Aristóteles e o refez. Agindo solitariamente, confiando apenas na força dos seus princípios, fez história em Viana. Numa época em que a voz que se ouvia era a dos quartéis e a lei que pairava sobre todos era a dos fuzis, ele deu as costas para o regime, elegeu-se vereador por dois mandatos, tornou-se presidente da Câmara Municipal e quase chegou lá, como prefeito da cidade.

Os anos 50 foram difíceis. Perplexo, o país assistiu ao suicídio de Getúlio Vargas. No Maranhão, São Luís foi palco de uma greve política sangrenta, que tentou impedir a posse do governador Eugênio Barros, eleito por força de um processo eleitoral viciado. A Baixada Maranhense padeceu com a pior estiagem de todos os tempos. Em Viana, o Igarapé do Engenho, então perene e abundante, secou e o seu leito virou estrada de carro de boi.

É nesse ambiente conturbado que o jovem Sebastião começa a escrever os capítulos mais importantes de sua vida. Conhece Ceciliana, então menina de 16 anos, e com ela decide trocar alianças. ‘Raptou’ a garota e a levou para a casa de um parente. À noite, o dono da casa tentou colocar o casal em quartos separados. Sebastião reagiu. “Eu não roubei mulher para dormir sozinho”. Pegou a moça e a levou para a casa dos pais dele que, a contragosto, tiveram que “engolir” a decisão do filho.

Trabalhou duro com o pai na roça e na pequena criação de gado. Um dia o padre Manoel Arouche, vigário de Viana, chamou Antoninho Furtado, pai de Sebastião, e fez-lhe o convite. Queria que ele cuidasse do gado da Santa (sim, nessa época, Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Viana, era uma das maiores fazendeiras da região).

Antoninho chamou o filho e disse que só aceitaria a proposta, se ele o ajudasse. Sebastião coçou a cabeça, não tinha nada a perder. “Pai, se outros toparam, por que a gente vai desistir? A gente encara e mostra que sabe fazer”. Vaqueiro da Santa, ganhou visibilidade. Em pouco tempo tornou-se presidente da Associação dos Criadores do Município.

Ele tinha um açougue no mercado municipal. O lugar era uma bagunça. O tráfico de influência predominava. Quase nunca sobrava carne para os pobres. O prefeito Lino Lopes baixou portaria regulamentando a venda do produto. Todos teriam que obedecer à ordem de chegada. Um emissário do prefeito foi direto ao balcão. Queria quatro postas de carne. “O senhor vá para a fila”, advertiu Sebastião com sua voz grave e decidida. O emissário resistiu. Estava ali a mando do prefeito, não podia ir para a fila. “Por representar o prefeito o senhor devia ser o primeiro a obedecer à ordem dele. Ou o senhor entra na fila ou não lhe atendo”.

Dom Hélio de Campos chegara a Viana para chefiar a diocese local, substituindo a Dom Hamleto de Angelis. De visão política progressista, líder por vocação, Dom Hélio percebeu o isolamento da cidade do resto do Estado. A única ligação com São Luís era feita por via marítima, em lanchas que transportavam desde manufaturas a animais e gente. As viagens eram longas e perigosas.

Dom Hélio entendeu que era preciso construir uma estrada de rodagem ligando Viana a Arari. Deu início então a uma luta inglória, que o levaria diversas vezes a São Luís e Brasília, tentando convencer as autoridades a mandar construir a estrada. Mobilizou as entidades de classe e o povo. Foi como atear fogo em canavial.

De pronto recebeu o apoio de Sebastião Furtado, então líder classista rural, e também do padre Eider Furtado, tio de Sebastião e adepto da Teoria da Libertação. “A gente começou a entupir a mesa do ministro Mário Andreazza (Transportes) de telegramas, cobrando a licitação da estrada”. Ele deve ter ficado zonzo com tanta aporrinhação”.

Dom Hélio foi a Brasília. Na Base Aérea encontrou com José Sarney e pediu-lhe apoio, que o negou. “Sarney disse que o projeto não era viável, que a Baixada era uma região pobre”. Dom Hélio não desistiu, percorreu a esplanada dos ministérios, solicitou audiências. Em São Luís pediu o apoio do governador da época, que também o negou. A luta prosseguiu até que o Estado, vencido, decidiu abrir licitação e assinar a ordem de serviço.

À frente de uma comissão, Sebastião Furtado veio a São Luís assistir ao desfecho do processo licitatório no DER/MA. O grupo se alojou no Seminário Santo Antônio, onde confeccionou faixas e cartazes. Na volta a Viana, encontraram a cidade em festa. Uma multidão retirou Sebastião do ônibus e o carregou nos braços, agradecida. “Foi uma emoção enorme. Jamais esqueci”.

A conquista da rodovia deu-lhe visibilidade. Em 1972 Dom Hélio o chamou para comunicar que ele seria o candidato da Igreja e dos trabalhadores rurais à Câmara Municipal. “Mas como? Eu não entendo nada desse negócio de política!”. A decisão estava tomada. A igreja jamais se envolveu abertamente na campanha, mas ele recebeu o apoio em massa do sindicato de trabalhadores rurais e, concorrendo pelo MDB, elegeu-se único vereador de oposição.

Começava a jornada solitária da água contra o rochedo. Combateu a gestão de Walber Duailibe do começo ao fim. Na Câmara, que tinha 9 vereadores, o placar a favor do prefeito era vergonhoso: 8 a 1. Mesmo assim, articulou e conseguiu o cargo de secretário geral da Mesa, que na hierarquia do parlamento é o segundo em importância.

Seu primeiro projeto restabeleceu a dignidade da Câmara, ao transferir a sede do Parlamento, alojada no prédio da prefeitura, para outro imóvel. “Era um absurdo a Câmara funcionar ao lado do gabinete do prefeito, como um biombo”. O prefeito não queria o projeto, mas Sebastião, mesmo sozinho, articulou com os colegas de ofício e sua proposição foi aprovada por unanimidade.

Também apresentou projetos para a construção de escolas em duas localidades. O prefeito, dessa vez, agiu rápido e a Câmara rejeitou as matérias. Sebastião não se deu por vencido. Fez reuniões com as comunidades beneficiadas pelos projetos e, em sistema de mutirão, ergueu as duas escolas em barro e palhas de babaçu. Os salários dos professores pagava com recursos próprios, isso numa época em que os vereadores não possuíam remuneração.

Em 1976 concorreu à reeleição e ganhou. Na hora de montar a chapa da Mesa Diretora, aplicou um golpe de mestre. Havia dois grupos com igual número de vereadores disputando a presidência, um ligado ao prefeito eleito e o outro, ao candidato derrotado. Era o fiel da balança. Para qualquer lado que pendesse, levaria a eleição. Foi assediado pelos dois grupos e para todos repetiu a mesma história: seria candidato de si mesmo. Na última hora o prefeito o procurou e aceitou que figurasse na cabeça da chapa. Tornou-se assim presidente da Câmara, sem pertencer a grupo algum.

Era o tempo das baionetas e o verde-oliva metia medo. Um dia recebeu a visita de um coronal do Exército, que veio de Fortaleza com a missão de fazer aprovar um projeto de interesse do bispo Dom Adalberto. Sem meias palavras ordenou que Sebastião aprovasse a matéria. “Quem aprova ou rejeita são os vereadores, não o presidente”. O militar não quis saber, queria o projeto aprovado por ele e ponto. “Então o senhor faça aprovar um projeto que dê essa prerrogativa ao presidente”, rebateu.

Em 1982, lançou-se candidato a prefeito, enfrentando duas forças exponenciais. Teve quase 3.000 votos. O eleito recebeu pouco mais de 4.000. “Perdi porque não tinha apoio político nem material, mas o povo me apoiou”. Deixou a política e foi cuidar da vida. No dia em que completou 80 anos, comemorou a data ao lado da família e dos amigos. Eu quis saber o que passa pela cabeça de quem chega a essa idade, lúcido e admirado. “Dá vontade de ser eterno, de gozar a vida e jamais morrer”. A história tem a capacidade de imortalizar seus personagens.

Foto capturada do livro “Histórias da minha vida” de Sebastião Furtado, em processo de edição.

Levou o dedo na boca do peixe e gritou: “piranha!”

Arquivo Google

Nonato Reis*

A língua é um dos elementos fundamentais da identidade cultural de um povo. Por meio dela se dá a construção da subjetividade, garantindo-se a transmissão de conhecimento entre as gerações, num processo contínuo e dinâmico. O modo de falar, a sonoridade, o sotaque indicam a procedência e as raízes ancestrais, mostram como as influências externas foram absorvidas ao longo do tempo.

A Baixada Ocidental, por exemplo, tem um padrão de linguagem que a distingue das demais regiões do Estado e de qualquer outra parte do Planeta. Existe até um livro intitulado “Dicionário do Baixadês”, lançado em 2014, pelo professor Flávio Braga, que apresenta uma compilação de termos, expressões e provérbios populares da região.

São centenas de verbetes sobre a forma de comunicação do caboclo baixadeiro, cuja origem remete às culturas europeia, africana e nativa, miscigenadas em razão do processo catequético e da escravatura.

Termos como arroz pache, que significa o arroz cozido com excesso de água; bazugar – arremessar, jogar, lançar; casêra – mulher que mantém relacionamento com homem casado; estalecido – dente inflamado; gatimonha – brincadeira espirituosa, que provoca gracejos, gaiatice; indêz – o ovo que se coloca no ninho para servir de chamariz às galinhas, e por aí vai.

No Ibacazinho, esses termos faziam parte do vocabulário da comunidade, e qualquer palavra usada fora do padrão soava estranha, para dizer o mínimo. Como explicar para o morador das brenhas que ele está com um problema no pâncreas e não na passarinha? É curto-circuito na certa na comunicação.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com um rapaz que, tendo passado um tempo estudando em São Luís, voltou para a comunidade, falando um português esquisito. Um dia a mãe adoeceu com um tumor no traseiro, e a família achou por bem procurar “recurso” na cidade.

O rapaz, então, chamou a irmã e o pai e os orientou a procurar o seu Ozimo, famoso farmacêutico da década de 70, em Viana. Disse: “vocês digam a ele que ela tem um tumor nas nádegas”. E soletrou com todo o cuidado, para que não houvesse erro: ‘ná-de-gas’”.

Estando diante do seu Ozimo, o pai, com a filha do lado, explicou que a esposa estava com um “carbunco” e precisava de um remédio.

Seu Ozimo quis saber a localização do tal carbunco. O homem coçou a cabeça e não conseguia lembrar o nome que o filho havia falado. Então, já agoniado, pediu ajuda à menina: “Minha filha, como é o apelido do cu da tua mãe?”.

Houve também o caso de uma garota que foi passar férias no Rio de Janeiro e voltou chiando que nem carioca. Esquecera os hábitos da comunidade, sequer conseguia identificar os peixes do rio Maracu.

Ela olhou uma piranha que o primo Tião Xoxota havia pescado e quis saber que peixe era aquele. Tião, tido como de pavio curto, achou aquilo um deboche. “Tu passou um mês na capital e não sabe mais que peixe é esse?”. A menina jurou que não sabia. “Pois deixa que eu te ajudo a lembrar”.

Então mandou-a fechar os olhos e, com a mão sobre o dedo direito indicador dela, levou-o até a boca da piranha, que o mordeu, retirando uma lasca de carne. A menina gemeu de dor e, o sangue jorrando do dedo, gritou: “piranha!”. E Tião, com ar de superioridade: “Eu não disse que você lembrava?”

Integra o livro “Os Sinos da Matriz”, com lançamento previsto para este ano.

*Nonato Reis – Jornalista | Escritor

A água na Baixada Maranhense

Arquivo Google

Expedito Moraes*

O Maranhão possui, segundo o Núcleo Geo ambiental da UEMA, 12 (doze) bacias hidrográficas, Gurupi, Tocantins, Parnaíba, Turiaçu, Maracaçumé, Litoral Ocidental (incluindo Pericumã e outros da região),  Mearim (a maior de todas), Itapecuru, Munim, Preguiças, Periá, que é a menor de todas, da ilha de São Luís;  que drenam todo o território maranhense, embora, uns mais outros menos. Entretanto, a Região da Baixada drenada pelos rios Pindaré (afluente do Mearim), Pericumã, Aurá, Turiaçu e outros é a que mais sofre a influência dos invernos e verões. Entenda que chamamos de inverno o período chuvoso e verão o contrário.

Na BAIXADA durante quatro meses do ano, como agora, não se constrói nada porque tem água de mais; depois tem quatro meses para se fazer muita coisa, inclusive recuperar o que a água levou ou estragou; em seguida mais quatro meses que não se produz nada porque não tem água nem pra beber.

O Rio Maracú é um pequeno afluente entre o Rio Pindaré e o Lago de Viana e este tem conexão com outro lagos como Itans, Aquirí, Formoso, Penalva, etc. essa é a Região dos Lagos. Neste período não há como distinguir uma coisa da outra, é um imenso pantanal, somente os tesos não submergem.

De agosto a dezembro estará tudo diferente, muita poeira, pasto seco, animais morrendo de sede e fome, os humanos sem comida e sem água potável é a miséria onde podia ser um celeiro de produção de alimentos.

Nos últimos anos outra ameaça: a invasão das águas salgadas da Baia de São Marcos nos campos da Baixada, que além da salinização dos campos está mudando a paisagem e costumes dos baixadeiros.

Um grande Projeto chamado DIQUES DA BAIXADA, um sonho antigo, encontra-se a cargo da CODEVASF, existe a possibilidade de transforma-se em realidade nestes próximos anos. Por outro lado o Governo do Estado implantou o projeto DIQUES DE PRODUÇÃO em vários trechos dos 31 municípios da região que servirá para o transporte, contenção de água de chuva e produção de alimentos.

O objetivo de um e de outro é a manutenção de água doce nos campos baixos e conter a entrada de água salgada na região.

Um terceiro projeto seria a construção da BARRAGEM NO RIO MARACU, em CAJARI, com objetivo de perenizar os lagos dessa região. Caso contrário continuará assim como no verão de 2016, onde pescadores encontraram filhote de tubarão nas rasas águas do Lago de Viana.

Os governos municipais, estadual e federal devem tomar a iniciativa de intervir planejadamente neste território. Isto permitirá tirar esta Região com mais de 750 mil habitantes do estado de pobreza, onde tudo está por fazer e o IDH é um dos mais baixos país do país.

*Expedito Nunes Moraes é natural do povoado Cachoeira em Cajari (MA). Graduado em Administração (UEMA). Foi deputado estadual entre 1995 a 1997 e empresário da construção civil. Exerceu vários cargos na administração pública do Maranhão. Presidente de Honra do Fórum da Baixada (gestão 2016/2017); 1º Vice Presidente (gestão 2019/2021).

Prefeituras têm até julho para instituir taxas de lixo

Prefeituras de todo o país têm até julho para implementar tarifas ou taxas de serviço de lixo. Esta normatização está estabelecida pelo novo Marco Legal do Saneamento Básico, que foi sancionado pelo Governo Federal em julho de 2020.

No entanto, de acordo com o último levantamento do Diagnóstico do Manejo de Resíduos Urbanos, realizado a respeito do tema, somente 47% dos municípios brasileiros já fazem a cobrança. Além disso, segundo o documento, o valor arrecadado pelas prefeituras cobre apenas 54,3% dos custos do manejo de resíduos sólidos.

A nova taxa tem por finalidade garantir a eficiência econômica na prestação do serviço de coleta e manejo dos resíduos sólidos urbanos. A responsabilidade em fixar os critérios de cobrança da tarifa esta a cargo da Agência Nacional da Águas (ANA).

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, foi criada pelo Governo Federal, em 2010, o plano tem várias metas, sendo que a principal era o fim dos lixões até 2014, porém este prazo foi adiado com a sanção do marco legal do saneamento básico que fixou como novo prazo para os fim dos lixões nas capitais e regiões metropolitanas a data de 2 de agosto de 2021; os municípios com mais de 100 mil habitantes têm até agosto de 2022. Cidades com população entre 50 e 100 mil habitantes têm até 2023 para acabar com os lixões e municípios com menos de 50 mil habitantes têm até 2024.

AVL abre diálogo com Prefeitura de Viana para futuras parcerias culturais

Em reunião realizada na manhã desta quarta-feira (26), a Academia Vianense de Letras (AVL) e a Prefeitura de Viana deram início a uma série de agendas que devem originar convênios e parcerias para resgatar a agenda cultural do município.

Nélio Júnior, Chefe de Gabinete da Prefeitura de Viana, Acadêmico Costa Júnior, Fátima Travassos, Presidente da AVL, Acadêmico Luiz Antonio Morais, e Acadêmico Joaquim Gomes

Ciceroneada pela presidente da AVL, Fátima Travassos – reeleita para o segundo mandato no biênio 2021/2023 -, a reunião contou ainda com as presenças do Chefe de Gabinete da Prefeitura de Viana, Nélio Júnior, representando o prefeito Carrinho Cidreira, e dos Acadêmicos Costa Júnior, Joaquim Gomes e Luiz Antonio Morais.

Na oportunidade, a presidente entregou cópias de documentos oficiais, entre eles o Regimento Interno da Academia, aprovado em 14 de dezembro de 2020, o Plano de Gestão da AVL, e do Diário Oficial do Município, edição de 9 de julho de 2019, no qual foi publicada a Lei Municipal de n 446, de 06 de julho de 2019, que institui  o Dia da Bandeira de Viana, além do Decreto que consta o Termo de Cooperação Técnica entre a Prefeitura de Viana e a AVL.

Segundo Fátima Travassos, “nós queremos reabrir e manter essa cooperação porque é muito benéfica para os dois lados, pois com a inauguração da nova sede da AVL, as políticas públicas e os eventos da academia podem se utilizar e caminhar juntas. Nossa instituição é apartidária e deseja formalizar parcerias duradouras e amigáveis para contribuir com o desenvolvimento cultural e educacional de Viana,” afirmou.

O Chefe de Gabinete, Nélio Júnior, reiterou que o prefeito Carrinho Cidreira (PL), deseja fomentar a cultura vianense. Nélio destacou que é preciso manter a aproximação da AVL com a sociedade vianense, com as escolas e redefinir uma agenda cultural que resgate as nossas tradições. “A Secretaria de Cultura não pode se comportar como nos últimos 4 anos, sendo uma mera contratante de bandas de forró. Nosso município, com 263 anos, precisa dignificar sua história, sua importância na Baixada, sua cultura e estender o seu leque de alcance cultural com as instituições”, declarou.

Entre os assuntos tratados, também foram debatidos abertura de parceria do AVL com o Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM), e o resgate do Acordo de Geminação com a cidade de Viana do Castelo – Portugal, que pode reacender os laços amigáveis e de trocas culturais entre as duas cidades.

O próximo passo será uma visita oficial dos Acadêmicos da AVL à Prefeitura, no início de fevereiro, de forma a oficializar um novo Termo de Cooperação Técnica, dentre outros assuntos do interesse de Viana.

Eliane Brum: A vagina que interrompeu a farra bolsonarista e salvou o Réveillon do Brasil

Ao cobrir a terra arrasada pelo canavial com uma buceta de 33 metros, a obra da artista Juliana Notari interrompeu a farra bolsonarista

A obra da artista Juliana Notari. Foto: Divulgação

Por  Eliane Brum,* em EL PAÍS, sugestão de Fernanda Giannasi

Jair Bolsonaro planejou e executou uma coreografia de “macho” para abrir 2021.

A bordo de uma lancha, aproximou-se da Praia Grande, no litoral paulista, onde centenas de banhistas se amontoavam apesar de o país já estar chegando aos 200.000 mortos por covid-19.

Depois de acenar para adultos e crianças, atirou-se no mar e nadou até a multidão.

Atravessou a massa de gente como se fosse ungido por ela, ovacionado por gritos de “mito! mito!”.

Funcionou tanto que ele até repetiu o batismo dias mais tarde, na segunda vez caminhando pela areia como o Messias do seu nome do meio. A cena calculada tem grande potencial simbólico.

Horrorizou o mundo em transe pandêmico, mas não envergonhou uma parte significativa do Brasil. Se a eleição fosse hoje, Bolsonaro teria chances consideráveis de se reeleger.

E então, outro gesto aconteceu. Outra imagem ganhou o mundo. A vagina de 33 metros de altura por 16 metros de largura e 6 metros de profundidade da artista Juliana Notari, abrindo em vermelho a terra arrasada pelos canaviais de Pernambuco, se impôs.

No noticiário internacional, havia a imagem do presidente com sinais de sociopatia desafiando o vírus e a racionalidade com seu “histórico de atleta”.

E, ofuscando esse espetáculo falocêntrico, a vagina vermelha se expandiu, multiplicou-se como imagem e ocupou muito além da terra em que foi esculpida e recoberta por concreto armado e resina. Se não fosse por ela, Bolsonaro mais uma vez abriria o ano controlando a narrativa do Brasil.

Nada poderia ser mais transgressor no país dominado pelo bolsonarismo, o que diz o seu nome e o que não diz, do que essa buceta gigante.

Não há maior ato de resistência, no Brasil onde os corpos humanos foram convertidos em obscenidade pela moral dos imorais e, portando, têm sido violados continuamente, do que abrir a terra esgotada, a terra pisoteada, a terra ferida como o corpo de tantas mulheres, com a escultura de uma vagina.

A arte, que a obscenidade de Bolsonaro e das milícias digitais de extrema direita tentaram tornar obscena, salvou o início de um ano que quase certamente será ainda mais difícil do que o de 2020. Há disputa. E sabemos onde ela está.

Uma obra de arte não é em si nem para si. Há a intenção do artista e há o que ela se torna no encontro e no confronto com o olhar de cada um, um encontro e um confronto que podem atravessar as épocas, transmutando-se a cada contexto. A arte é aquela que, antes de ser, se torna. E só se torna se for aberta aos mundos.

A pernambucana Juliana Notari há pelo menos duas décadas faz um trabalho muito consistente na intersecção entre o feminino e a violência.

Dessa vez, chamou a vagina gigante de “Diva” e definiu-a como uma “vulva/ferida”.

Ao divulgar em 31 de dezembro a obra que passou 11 meses esculpindo para a Usina de Arte, um parque artístico-botânico na cidade de Água Preta, em Pernambuco, sofreu um ataque brutal nas redes sociais. Só no Facebook o post já recebeu 27 mil comentários, parte deles reduzidos a agressões. Por romper o cotidiano e atravessá-lo, a artista foi atacada violentamente.

A reação já faz parte da obra. Até um “Punhetaço” foi marcado pelas redes sociais pelos machos com medo de buceta. A sua, a nossa Diva, já entrou para a história das vaginas que perturbam o mundo com sua potência.

Escolho me encontrar com a vulva ferida a partir do confronto do ato de Bolsonaro e da obra de arte de Notari. Talvez porque a obscenidade de Bolsonaro, num momento em que a pandemia volta a se agravar também no Brasil, nos feriu logo no irromper de 2021.

Calculadamente, ele fez sua demonstração de força para mostrar quem manda e enterrar todas as ilusões de que a virada de um ano possa interromper o exercício do mal. Bolsonaro é o presidente. E, por ser o presidente, não há ninguém no país mais responsável do que ele para conduzir o Brasil na maior crise sanitária em um século. E ele tem nos conduzido para a morte com a cumplicidade de milhões de brasileiros.

Os cúmplices não são apenas os que votaram em Bolsonaro, nem são apenas os que declaram nas pesquisas que seu governo é ótimo ou bom ou mesmo regular, no momento em que mais de 50 países já começaram a vacinar suas populações e o Brasil ainda não conseguiu sequer comprar seringas.

Ser bolsonarista é mais do que ter votado ou pretender votar em Bolsonaro. O bolsonarismo virou um modo de agir no mundo que se baseia na produção calculada de mentiras e na imposição da vontade do indivíduo sobre as necessidades do coletivo, portanto pela imposição do mais forte pela violência.

É por isso que o bolsonarismo é ainda mais perigoso do que Bolsonaro —e persistirá muito além dele. Tenho me surpreendido com a quantidade de pessoas que aderiram ao bolsonarismo nessa pandemia, ao acreditar que sua pretensa liberdade os autoriza a ameaçar todos os outros. Não existe a liberdade de matar.

Bolsonaro não trabalha com eleitores, mas com seguidores que votam. E é para eles que produz imagens.

Desde o início da pandemia, ele atua para fazer uma associação perversa: a de que só os fracos morrem de covid-19.

Os fortes, grupo que ele acredita representar, quando contaminados têm apenas uma “gripezinha”.

Bolsonaro e o bolsonarismo já deixaram mais do que explícito quem consideram fracos: as mulheres, os LGBTQ+, os negros, os indígenas.

Também já tornaram explícito quem são os fortes, os do topo da cadeia alimentar: os homens, “machos” porque héteros, os brancos.

Ao nadar para ser ungido pelo povo, numa demonstração de força, como fez no primeiro dia do ano, ele é o macho que desafia as ondas, o vírus, as instituições internacionais, a ciência, a ética, a racionalidade e a própria verdade.

É o homem sem amarras, livre porque a única vida que importa é a dele.

Quando na segunda cena, essa caminhando sobre a areia, ele carrega crianças no colo, a mensagem é a de que só os fortes merecem viver.

Se os bebês forem contaminados, os “melhores” sobreviverão. É também por isso que ele pode dizer “e daí?” diante dos mortos ou, mais recentemente, “não dou bola”, referindo-se ao fato de seu governo ainda não ter garantido a vacina à população e estar atrás de tantos países, incluindo a Argentina, que já começaram a imunizar seus habitantes.

Quando ele abraça pessoas sem máscara, espalhando perdigotos em seus rostos, ele está dizendo: se você é forte, merece viver; se for fraco, dane-se.

Também não é por acaso que, em suas declarações, ele costuma forjar uma associação pejorativa com raça e gênero.

Como ao defender que aqueles que quiserem ser vacinados deveriam assinar um termo de compromisso responsabilizando-se pelos supostos efeitos colaterais.

A mensagem é explícita: “Se você virar um chimpanz… se você virar um jacaré, é problema de você [sic]. Não vou falar outro bicho aqui para não falar besteira. Se você virar o super-homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou um homem começar a falar fino, eles [os laboratórios] não têm nada a ver com isso”.

Bolsonaro já declarou que não tomará a vacina. É o “macho” que nada para abraçar o povo exatamente porque o povo não importa.

Toda a sua campanha foi alicerçada no ataque aos corpos que ele considera “errados” ou “fracos” porque não são o seu.

Já vamos para o quarto ano, contando o da eleição, sendo violentados pelas declarações de Bolsonaro, que fala obsessivamente de orifícios, de pênis e de ânus, convertendo os corpos em objetos e dividindo o mundo entre aqueles que portam buracos e aqueles que têm o poder de enfiar coisas nos buracos.

Para homens como ele, a única relação possível entre um corpo e outro corpo é a da violência. Tanto o pênis quanto as armas são falos empunhados para fazer buracos nos corpos dos que considera mais fracos ou inferiores.

Antes do batismo do macho protagonizado no litoral paulista, sua última declaração midiática foi ironizar a tortura sofrida por Dilma Rousseff pelas mãos de agentes do Estado durante a ditadura civil-militar (1964-1985).

Logo depois do Natal, ele disse a apoiadores: “Dizem que a Dilma foi torturada e fraturaram a mandíbula dela. Traz o raio-X para a gente ver o calo ósseo. Olha que eu não sou médico, mas até hoje estou aguardando o raio-X”.

Não é uma escolha aleatória. A única mulher presidenta do Brasil foi destituída por um impeachment em cuja votação Bolsonaro, então deputado federal, homenageou o mais notável torturador e assassino da ditadura, associado a dezenas de mortes e a centenas de sessões de tortura de opositores políticos.

Bolsonaro fez questão de adicionar uma perversão a mais: “Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”.

Enaltecer o torturador, demonstrar prazer com a tortura da mulher que está empenhado em destituir do cargo e depois duvidar de seus ferimentos é o gozo do perverso. É assim que se comportam os torturadores e também os assassinos.

Bolsonaro torturou Dilma durante o impeachment e, dias atrás, a torturou mais uma vez. Para mostrar que pode.

Porque pôde, no passado, e por isso se elegeu —e porque pode no presente, porque faz tudo isso e segue sem ser perturbado por um processo de impeachment.

Essa é a mensagem que pretende vender e, como faz parte da estupidez de tantos comprar gato por lebre se achando o maior esperto do mundo, milhões de brasileiros acreditam.

Como tudo em Bolsonaro, a imagem de força e de potência é só mais uma fake news ou, em bom português, uma mentira.

Basta ir ao youtube ver Bolsonaro fingindo fazer flexões de braço para ver que ele é tão atleta quanto é cristão.

Na terça-feira (5), afirmou publicamente sua impotência: “O Brasil está quebrado e não consigo fazer nada”.

Os mais de 60 pedidos de impeachment que poderiam tirá-lo do governo que corrompe para botar quem consegue fazer alguma coisa estão dormindo na gaveta de Rodrigo Maia (DEM).

A força de Bolsonaro é a dos fracos: a violência, seguidamente armada.

Violentar, corromper e mentir é só o que esse arremedo de homem consegue fazer.

Bolsonaro fracassou como militar, sua carreira como deputado é uma vergonha e um desperdício de dinheiro público, ao tornar-se presidente, tornou-se o pária do mundo, como afirma seu próprio chanceler, motivo de piada de um lado a outro da Terra que ele acha que é plana.

Como descobrimos, porém, há milhões de brasileiros dispostos a acreditar em qualquer mentira e a chamar de “mito” um mentiroso.

Assim, a virada do ano é tempo de balanço e de estabelecer metas de Ano-Novo também para Bolsonaro.

Em seus atos, ele garantiu ao seus iguais que poderão seguir abusando de mulheres como Mari Ferrer, vítima de estupro que foi violentada mais uma vez durante o julgamento ao ser tratada como culpada.

Em seus atos, o presidente do Brasil está reafirmando que os homens poderão seguir dizendo que o acusado de estupro não tinha condições de perceber que a vítima estava inconsciente e seguir julgando o comportamento da vítima em vez do ato do estuprador. Essa é a mensagem sempre que ele publicamente humilha uma mulher com palavras ou gestos ou decisões.

Na concepção de mundo do bolsonarismo não há relação que não termine com um outro subjugado e desumanizado.

Bolsonaro tornou o Brasil um grande experimento pornográfico. O homem no cargo máximo do país brinca de nos matar.

Ao mergulhar nas águas do mar, para muitos um ritual de purificação, ele renasce para mais um ano como senhor da morte. Tenho convicção de que as gerações futuras vão nos perguntar por que não fomos capazes de impedi-lo de seguir matando. Essa acusação assombrará os que hoje estão vivos para muito além da vida.

A vagina gigante atravessou a farra bolsonarista. De concreto armado e resina, ela é mais real do que o corpo de Bolsonaro nadando de braçada no Brasil.

Enquanto o corpo de Bolsonaro se converte em objeto, arma, instrumento de morte, a obra de arte desobjetifica os corpos das mulheres ao denunciar suas feridas e revelar sua potência.

Não se encarnasse na terra arrebentada do canavial pernambucano, a vagina não teria efeito algum. Pela potência transgressora da arte, já não era mais uma vulva de concreto e resina, mas as bucetas de todas nós, mulheres brasileiras, mulheres do mundo, pulsando naquele chão.

Vermelhas do sangue de nossas companheiras mortas no Natal do feminicídio de 2020, quando o nascimento de Cristo foi homenageado por seis homens com a destruição dos corpos das companheiras. Porque podem.

Bolsonaro chegou ao poder e se mantém no poder porque representa a visão de mundo de milhões de brasileiros.

E chegou depois de um processo em que, mesmo antes de ser arrancada da presidência, Dilma Rousseff foi objetificada em adesivos nos quais era exposta de pernas abertas sobre os tanques de gasolina e as mangueiras eram ali enfiadas para estuprar a presidenta.

Chegou ao poder por um processo em que milícias digitais como o MBL criminalizaram obras de arte, fecharam exposições, chamaram artistas de pedófilos e foram responsáveis por alguns deles terem sido ameaçados de morte e até hoje estarem sob trauma. O que os brasileiros vivem hoje não aconteceu de repente nem começou com Bolsonaro.

Ele nos governa porque a sociedade brasileira está mentalmente adoecida. Bolsonaro é ao mesmo tempo produto e produtor dessa doença.

Sempre tentei compreender como pessoas aparentemente comuns permitiram, algumas vezes na história humana, que o horror de Estado fosse consumado contra outros, às vezes seus vizinhos.

Que tipo de loucura as possuiu que fez tantos se calarem, colaborando com o extermínio por ação ou omissão. Estamos vendo isso acontecer há anos bem diante dos nossos olhos, em todas as telas. Responderemos por isso.

A vagina que denuncia essa sociedade adoecida não está em qualquer terra.

É esculpida no Brasil violado diariamente por Bolsonaro e pelo bolsonarismo. É escavada na terra arrasada pela monocultura da cana de açúcar, marca histórica do patriarcado e do coronelismo que moldaram violentamente o Brasil e fincaram raízes tão profundas que até hoje ainda persistem e se renovam.

Naquela terra há sangue escravo, há memórias do estupro das mulheres negras, há marcas das botas dos machos e dos joelhos das fêmeas.

Antes das mulheres, a natureza foi ali estuprada. Que hoje uma vagina gigante e vermelha como o sangue menstrual habite e ceve essa terra que também é mulher me parece extraordinariamente potente.

Antes dessa Diva, Juliana Notari havia feito, em 2018, a obra que chamou de “Amuamas”.

A curadora e professora de arte Clarissa Diniz explica lindamente como foi essa intervenção num ensaio na revista Continente:

“Foi num grande e ancestral corpo de uma Sumaúma (árvore sagrada para muitos dos povos da floresta, com a capacidade de absorver água de grandes profundidades e distribuí-la para plantas da vizinhança) que Juliana inscreveu outra de suas feridas. Desta vez, não numa parede, mas num corpo vivo; nas gigantes raízes aéreas da árvore. Por isso, para a artista, Amuamas foi essencialmente um rito. Após entalhar a Samaúma, revelando sua madeira avermelhada, Juliana pintou a ferida aberta com seu próprio sangue menstrual, coletado ao longo de nove meses. Do encontro entre os rubros da árvore e os da artista, forjou-se uma ferida em comum, comungando dores e identificando, no corpo uma da outra, traumas compartilhados”.

Vale lembrar que Bolsonaro declarou em seu primeiro ano de governo que a floresta amazônica é “a virgem que todo tarado de fora quer”, mostrando que tanto a floresta quanto as mulheres são femininos que devem ser violados e esvaziados de sentidos.

Árvores como a Sumaúma escolhida pela artista Juliana Notari podem lançar até mil litros de água por dia na atmosfera apenas pela transpiração, num processo de uma beleza extraordinária que faz com que a floresta seja a grande reguladora do clima ao sul do mundo.

Bolsonaro, porém, é o homem que inspirou o “dia do fogo” e fez a floresta queimar nas telas do planeta.

Ele encarna o personagem do bandeirante e do colonizador, que violenta o corpo da natureza e todos os outros corpos que encontra na natureza, como o dos indígenas. É também aquele que, em plena emergência climática, acha que os recursos naturais são infinitos e que seus amigos podem seguir explorando, arrebentando e matando a natureza.

Bolsonaro é fraco justamente porque não aceita limites.

Ao comentar sua mais recente intervenção artística nas redes sociais, a artista Juliana Notari escreveu:

“Em ‘Diva’, utilizo a arte para dialogar com questões que remetem a problematização de gênero a partir de uma perspectiva feminina aliada a uma cosmovisão que questiona a relação entre natureza e cultura na nossa sociedade ocidental falocêntrica e antropocêntrica. Atualmente, essas questões têm se tornado cada vez mais urgentes. Afinal, será a mudança de perspectiva da nossa relação entre humanos e entre humano e não-humano que permitirá com que vivamos mais tempo nesse planeta e numa sociedade menos desigual e catastrófica”.

Em uma das fotos, ela posa junto à obra de arte com alguns dos 20 homens que a ajudaram a esculpir a vagina na terra.

É uma imagem eloquente: a de uma mulher branca comandando homens negros com uma enxada na mão. Várias pessoas apontaram essa contradição, o que torna a obra ainda mais interessante.

A expressão imagética do racismo estrutural do Brasil que pode ter sido reproduzida pela artista que a denuncia em sua obra acrescenta novas camadas e novas questões à Diva.

Sobre essa imagem, o compositor e produtor cultural Afonso Oliveira escreveu:

“É simbólico ela colocar trabalhadores negros para fazer essa obra. Mas não é apenas simbólico do ponto da perpetuação da escravidão. É simbólico também do ponto de vista da subversão do macho. Sem eles essa buceta não existiria, nem a obra, nem o símbolo”.

Já o cineasta Kleber Mendonça Filho, diretor do excelente Bacurau, comemorou no Twitter:

“Viva Juliana Notari, por botar homens pra fazer um bucetão de 30 metros na Zona da Mata pernambucana, em plenos anos Bolsonaro. As reações à obra são espelho, um sucesso”.

A artista Juliana Notari e os trabalhadores que colaboraram com a obra. Foto: Reprodução

Houve quem desejasse a Juliana Notari que fosse punida com “uma ferida na vulva” por colocar concreto e resina na terra.

Toda a crítica é possível, mas é impossível ignorar que aquela terra já havia sido violada pela monocultura mais emblemática do patriarcado escravocrata e colonialista, a da cana de açúcar.

A ferida que a vagina nela abre denuncia essa outra ferida, muito mais antiga e persistente e, ao mesmo tempo, a cura, ao devolver-lhe sentido e portanto vida.

Alguém escreveu lindamente na página de Juliana Notari, no Facebook, que havia mostrado a obra a seu filho de 7 anos. O menino ainda não assombrado pela violência viu ali uma “tulipa, uma piscina, uma rede” onde se jogar.

“Não sendo ele (sexo feminino representado na obra) um em si para si, pude vê-lo bem melhor pelos olhos da criança de 7 anos: tulipa, piscina, rede. Flor, água, descanso, pensei. Se não fosse nossa incapacidade crônica de criar lentes (modos de socialização) mais límpidas talvez tivéssemos menos que lidar com as distorções da beleza de uma vagina (lugar de onde todo o ser humano saiu, diga-se de passagem com o perdão do trocadilho) esculpida na terra, num terreno do interior de um estado do Nordeste, que simboliza o tipo de poder e propriedade que engendrou nosso patriarcado em seu modelo mais aviltante das qualidades humanas das mulheres”.

A vagina, também como imagem e como palavra, tem sido violada através dos séculos. Atacada, escondida, censurada, deletada. Essa que é nossa origem de tantas maneiras conta o mundo de ruínas, em ruínas, construído por homens.

Em 2013, escrevi nesse espaço uma coluna chamada “Vagina”, sobre os mais recentes escândalos provocados pelos que nela não suportam se ver.

“Não é tremendamente instigante que, neste ponto da aventura humana, a vagina das mulheres ainda assombre tanto que a violência contra ela parece ter recrudescido?”, eu perguntava.

Um ano antes, a loja virtual da Apple havia censurado a vagina como palavra, ao silenciá-la com asteriscos no título do livro de Naomi Wolf: V****: uma biografia (Geração Editorial).

Também o crítico de arte Jorge Coli teve interrompida a transmissão pela Internet de sua palestra pela Academia Brasileira de Letras. Foi censurado no momento em que pronunciou a palavra “buceta” e mostrou A origem do mundo, o famoso quadro do francês Gustave Courbet, que retrata uma vagina entre coxas abertas.

Esse quadro, talvez a vagina mais atacada da história da arte, tem uma trajetória que conta os problemas dos homens com a buceta. Ao longo de sua vida, o quadro esteve coberto por um véu, às vezes uma cortina, em outras uma outra pintura.

Só foi exposto sem nada ocultando-o depois que a família de seu último dono, o psicanalista francês Jacques Lacan, o doou ao Museu D’Orsay, em Paris.

É possível que Naomi Wolf tenha razão ao dizer que “a revolução ocidental sexual falhou”. Ou, pelo menos, “não funcionou bem o suficiente para as mulheres”.

Em sua biografia da vagina, Naomi Wolf a compreende como “o órgão sexual feminino como um todo, dos lábios ao clitóris, do introito ao colo do útero”.

Esse todo forma uma complexa rede neural, na qual há pelo menos três centros sexuais —o clitóris, a vagina, o colo do útero, e possivelmente um quarto, os mamilos. Naomi defende que a vagina não é apenas carne, mas um componente vital do cérebro feminino, ligando o prazer sexual amoroso à criatividade, à autoconfiança e à inteligência da mulher.

A conclusão é óbvia e não é nova, nem por isso menos importante: massacrar a vagina —ignorando-a ou tornando-a algo sujo, proibido e chulo, seja pelas palavras ou pelas ações— massacra as mulheres na inteireza do que são.

Ao aniquilar a vagina, aniquila-se a mulher inteira, sequestra-se a sua potência.

“Ao contrário do que somos levados a crer, a vagina está longe de ser livre no Ocidente nos dias de hoje”, diz Naomi. “Tanto pela falta de respeito como pela falta de entendimento do papel que ela exerce.”

A vagina esculpida por Juliana Notari tornou-se parte dessa história.

No Brasil dominado pelo bolsonarismo, os sentidos dos ataques à buceta alcançam camadas ainda mais profundas. Muitos apostam que, com o fim da renda emergencial que contemplou dezenas de milhões de brasileiros, a popularidade de Bolsonaro cairá. É provável. Mas apenas em parte.

Como já escrevi num artigo anterior, uma parcela significativa o elegeu para garantir um outro salário: o psicológico.

Em 1935, o pensador negro W.E.B Du Bois, um dos maiores intelectuais do século 20 nos Estados Unidos, criou essa expressão para explicar a função do racismo, ao dar ao branco ferrado a sensação de superioridade por ter alguém em situação pior do que a dele, no caso o negro.

O fenômeno dos déspotas eleitos —como Bolsonaro, Donald Trump e outros— pode ser explicado por esse conceito ampliado para as mulheres e para os LGBTQ+.

Para que o salário psicológico tenha efeito, é preciso seguir subjugando um outro, em especial num momento em que os subjugados habituais passaram a protestar com mais veemência.

Também por isso Bolsonaro se disciplina para manter constantes os ataques racistas, homofóbicos e misóginos. Bolsonaro calcula e cria notícias para manter o valor de compra e venda do salário psicológico.

Assim como os Estados Unidos vão lidar com o que Trump representa para muito além do governo de Joe Biden, o adoecimento mental da sociedade brasileira, do qual Bolsonaro ao mesmo tempo é produto e produtor, ainda poderá lhe dar um segundo mandato.

Tanto Trump quanto Bolsonaro não são apenas um, mas muitos.

Não basta tirá-los do poder pelo impeachment, pela responsabilização de seus crimes ou pelo voto. É necessário mudar a cultura que deforma as mentes, fazendo com que vejam monstruosidades em vaginas e passem a destruir mulheres de várias maneiras e também literalmente, como aconteceu com Marielle Franco.

O mais importante é educar pessoas para que não sejam dependentes de salário psicológico, dependentes a ponto de aderir àquele que as destrói. As subjetividades não são efeitos colaterais. Ao contrário: elas movem o mundo.

Sim, a obra criada por Juliana Notari é uma ferida de 33 metros que denuncia uma ferida imensamente maior.

Pela potência da arte, essa ferida feita de concreto armado e resina se converte em carne, vagina. E gera vida nesse Brasil esmagado pela banalização da morte de quase 200 mil pessoas.

A gigantesca vagina vermelho-sangue salvou nosso Réveillon do Nado do Macho que Mata depois do Natal do Feminicídio. Apontou onde está a cura do Brasil.

VIOMUNDO

*Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de Brasil, Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago).

IFMA – Campus Viana abre Processo Seletivo com 80 vagas

O Instituto Federal do Maranhão (IFMA) publicou edital referente à realização do processo seletivo público unificado de acesso aos cursos oferecidos pelos campi da instituição no ano letivo de 2021. O IFMA, CAMPUS VIANA ofertará 80 vagas, 40 para o curso de administração e 40 para o curso de agricultura. Ambos, serão na modalidade integrada ao ensino médio, ou seja, o aluno faz o curso técnico e médio ao mesmo tempo.

Em cada curso, cinquenta por cento (50%) das vagas serão destinadas a candidatos egressos de escola pública, em atendimento à Lei Nº 12.711/2012, que dispõe sobre o ingresso de alunos tanto nas universidades federais quanto nas instituições federais de ensino técnico de nível médio.

Segundo o Edital, o período de inscrição inicia às 9h do dia 18 de janeiro (segunda-feira) e segue até 5 de fevereiro (sexta-feira). O procedimento será realizado pela internet, no Portal do IFMA.

Devido a pandemia, este ano não teremos provas e o meio de seleção será por sorteio eletrônico.

A fim de facilitar o acesso de candidatos que necessitarem dos recursos da internet para efetuarem a inscrição online, o IFMA disponibilizará terminais de computadores com acesso à rede nos seus campi.