Comitê de crise da Covid orienta municípios reservarem 2ª dose

Trabalhadores da Fiocruz, de todo o Brasil, receberão vacina contra a Covid-19 pelo PNI | Reprodução

Por Lauro Jardim (OGLOBO)

Na contramão da orientação que Eduardo Pazuello deu aos prefeitos na sexta-feira passada, o Comitê de Crise, composto por técnicos do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e do Ministério da Saúde decidiu orientar que os municípios para que continuem a reservar as segundas doses da vacina contra a Covid-19.

Ao menos é essa a informação que já circula no grupo de WhatsApp da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP). Mas os prefeitos alertam que ainda será preciso um documento do Ministério da Saúde para que a mudança de rota se torne oficial — embora, eles já a considere como válida.

Pazuello dissera na sexta-feira a integrantes da FNP que os municípios não precisariam mais reter a metade dos lotes disponíveis até a aplicação da segunda dose do imunizante.

“Não consegui segurar as lágrimas”, diz o ex-prefeito Chico Gomes pela morte de Sebastião Furtado

O ex-deputado estadual e ex-prefeito de Viana, Chico Gomes, divulgou nota de pesar lamentando a perda do amigo, conterrâneo e contemporâneo, Sebastião Furtado.

Abaixo a integra da nota:

Com profundo pesar recebi a notícia do falecimento de Sebastião Furtado.

Tenho por Sebastião uma grande admiração.

Sua história de vida é um exemplo para todos nós vianenses.

Enfrentou ao lado de Dom Hélio Campos e ele vereador os velhos tempos da ditadura.

Ele era o único Vereador eleito pelo MDB.

Um inesquecível político da nossa querida Viana.

Perdemos um grande amigo. 

Não  consegui segurar as ĺágrimas.

Adeus meu amigo Sebastião Furtado. Saudades eternas.

Que Deus conforte seu filho Bazinho e suas filhas.

FRANCISCO DE ASSIS CASTRO GOMES

Amigos vianenses lamentam a morte de José Raimundo Perna

O mês de fevereiro não está sendo fácil para a memória afetiva dos vianenses.

Zé Raimundo (Gurgo) em um momento descontraído em sua residência

Hoje, 24, mais um conterrâneo partiu para o plano celestial e deixa uma lacuna de melancolia e saudades entre os amigos que conviveram com a sua presença.

O ex-Capitão da PM do Distrito Federal, José Raimundo Perna sofreu um infarto fulminante na madrugada desta quarta feira, na sua residência, em um sítio na Estrada de São José de Ribamar.

Apaixonado pela sua terra natal, Gurgo, como era chamado carinhosamente pelos amigos sempre sonhava em mudar-se para o Maranhão, assim que se aposentasse da farda. Um amplo e acolhedor sítio, na Estrada de São José de Ribamar foi o local escolhido para seus dias de descanso.

Sua maior alegria era receber os amigos de infância para longas e animadas conversas, regadas com cerveja, música e muitas gargalhadas. “Não é fácil perder a quem amamos, fica um vazio,  um adeus constante. Tantos porquês, tantas lembranças. Você que sempre reuniu seus amigos em sua casa com tanta hospitalidade, agora só fica lembranças, meu amigo. Que Deus o receba na sua próxima morada”, escreveu em um grupo de amigos o empresário Cláudio Rocha.

Gurgo também defendeu a Seleção Vianense de Futebol, nos anos 80, deixando o seu legado no meio esportivo vianense.

A prefeitura de Viana divulgou Nota de Pesar pelo falecimento do ilustre vianense.

O Blog Vianensidades se solidariza com a família enlutada, nesse momento de dor, em especial ao amigo Paulinho Perna, advogado radicado em Brasília, pela inestimável perda.

Prefeitura de Viana recebe visita de representantes do Sebrae

Representando o Prefeito Carrinho Cidreira, a secretária de Educação, Cleyce Nunes, recebeu a visita do gerente do Escritório Regional do SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas) de Santa Inês, Maurício Lima, que apresentou os serviços do SEBRAE e as parcerias para cursos, oficinas e ações que podem ser realizadas no município de Viana.

Superintendente Municipal de Turismo, Jarbas Braga, também participou da reunião

Na oportunidade, Cleyce Nunes falou da importância do encontro. “Considero essa conversa inicial um grande passo para o fortalecimento da parceria e promoção de um ambiente favorável ao Desenvolvimento das Micros e Pequenas Empresas de Viana”, ressaltou a secretária.

O gerente do SEBRAE disse ainda, os serviços oferecidos, como atuação nos setores de comércio, educação, serviços e agronegócios; ações de empreendedorismo e fomento ao empreendedorismo para candidato a empreendedor e novos negócios; capacitação de fornecedores para Prefeitura, capacitação de produtores rurais para fornecimento de merenda escolar, entre outros.

A secretária reconheceu a importância dos cursos e oficinas oferecidos pelo SEBRAE e afirmou que irá se reunir com o prefeito para estudar em conjunto com as outras secretarias a melhor forma para trazer os cursos para o município, de acordo com a demanda existente com objetivo de capacitar a população e proporcionar o desenvolvimento do comércio local.

Luto. Morre o ex-vereador e ex-presidente da Câmara de Viana, Sebastião Furtado

São Luís – Morreu na madrugada desta quarta-feira (24), o pecuarista, ex-vereador e ex-presidente da Câmara de Viana, Sebastião Furtado, por complicações causadas pela Covid-19.

Sebastião e a esposa Ceciliana lutavam por vários dias, entubados na UTI de um hospital de São Luís, para vencer a doença. Ceciliana faleceu no dia 17 deste, e agora foi o marido, deixando muita comoção e saudades entre os familiares, amigos e a sociedade vianense.

A prefeitura de Viana emitiu Nota de Pesar e decretou Luto Oficial de 3 dias pela morte Sebastião Furtado, tio do prefeito Carlos Augusto Furtado Cidreira.

O Blog transcreve abaixo uma crônica do jornalista e escritor vianense, Nonato Reis, afilhado de Sebastião Furtado, publicado no livro A Fazenda Bacazinho, que mostra a sua importância para o Ibacazinho e também para Viana.

SEBASTIÃO FURTADO, A ANDORINHA QUE FEZ VERÃO

Dizem, e isso vem da Grécia antiga, que uma andorinha só não faz verão. Sebastião da Silva Furtado, hoje com 85 anos, pegou esse postulado de Aristóteles e o refez. Agindo solitariamente, confiando apenas na força dos seus princípios, fez história em Viana. Numa época em que a voz que se ouvia era a dos quartéis e a lei que pairava sobre todos era a dos fuzis, ele deu as costas para o regime, elegeu-se vereador por dois mandatos, tornou-se presidente da Câmara Municipal e quase chegou lá, como prefeito da cidade.

Os anos 50 foram difíceis. Perplexo, o país assistiu ao suicídio de Getúlio Vargas. No Maranhão, São Luís foi palco de uma greve política sangrenta, que tentou impedir a posse do governador Eugênio Barros, eleito por força de um processo eleitoral viciado. A Baixada Maranhense padeceu com a pior estiagem de todos os tempos. Em Viana, o Igarapé do Engenho, então perene e abundante, secou e o seu leito virou estrada de carro de boi.

É nesse ambiente conturbado que o jovem Sebastião começa a escrever os capítulos mais importantes de sua vida. Conhece Ceciliana, então menina de 16 anos, e com ela decide trocar alianças. ‘Raptou’ a garota e a levou para a casa de um parente. À noite, o dono da casa tentou colocar o casal em quartos separados. Sebastião reagiu. “Eu não roubei mulher para dormir sozinho”. Pegou a moça e a levou para a casa dos pais dele que, a contragosto, tiveram que “engolir” a decisão do filho.

Trabalhou duro com o pai na roça e na pequena criação de gado. Um dia o padre Manoel Arouche, vigário de Viana, chamou Antoninho Furtado, pai de Sebastião, e fez-lhe o convite. Queria que ele cuidasse do gado da Santa (sim, nessa época, Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Viana, era uma das maiores fazendeiras da região).

Antoninho chamou o filho e disse que só aceitaria a proposta, se ele o ajudasse. Sebastião coçou a cabeça, não tinha nada a perder. “Pai, se outros toparam, por que a gente vai desistir? A gente encara e mostra que sabe fazer”. Vaqueiro da Santa, ganhou visibilidade. Em pouco tempo tornou-se presidente da Associação dos Criadores do Município.

Ele tinha um açougue no mercado municipal. O lugar era uma bagunça. O tráfico de influência predominava. Quase nunca sobrava carne para os pobres. O prefeito Lino Lopes baixou portaria regulamentando a venda do produto. Todos teriam que obedecer à ordem de chegada. Um emissário do prefeito foi direto ao balcão. Queria quatro postas de carne. “O senhor vá para a fila”, advertiu Sebastião com sua voz grave e decidida. O emissário resistiu. Estava ali a mando do prefeito, não podia ir para a fila. “Por representar o prefeito o senhor devia ser o primeiro a obedecer à ordem dele. Ou o senhor entra na fila ou não lhe atendo”.

Dom Hélio de Campos chegara a Viana para chefiar a diocese local, substituindo a Dom Hamleto de Angelis. De visão política progressista, líder por vocação, Dom Hélio percebeu o isolamento da cidade do resto do Estado. A única ligação com São Luís era feita por via marítima, em lanchas que transportavam desde manufaturas a animais e gente. As viagens eram longas e perigosas.

Dom Hélio entendeu que era preciso construir uma estrada de rodagem ligando Viana a Arari. Deu início então a uma luta inglória, que o levaria diversas vezes a São Luís e Brasília, tentando convencer as autoridades a mandar construir a estrada. Mobilizou as entidades de classe e o povo. Foi como atear fogo em canavial.

De pronto recebeu o apoio de Sebastião Furtado, então líder classista rural, e também do padre Eider Furtado, tio de Sebastião e adepto da Teoria da Libertação. “A gente começou a entupir a mesa do ministro Mário Andreazza (Transportes) de telegramas, cobrando a licitação da estrada”. Ele deve ter ficado zonzo com tanta aporrinhação”.

Dom Hélio foi a Brasília. Na Base Aérea encontrou com José Sarney e pediu-lhe apoio, que o negou. “Sarney disse que o projeto não era viável, que a Baixada era uma região pobre”. Dom Hélio não desistiu, percorreu a esplanada dos ministérios, solicitou audiências. Em São Luís pediu o apoio do governador da época, que também o negou. A luta prosseguiu até que o Estado, vencido, decidiu abrir licitação e assinar a ordem de serviço.

À frente de uma comissão, Sebastião Furtado veio a São Luís assistir ao desfecho do processo licitatório no DER/MA. O grupo se alojou no Seminário Santo Antônio, onde confeccionou faixas e cartazes. Na volta a Viana, encontraram a cidade em festa. Uma multidão retirou Sebastião do ônibus e o carregou nos braços, agradecida. “Foi uma emoção enorme. Jamais esqueci”.

A conquista da rodovia deu-lhe visibilidade. Em 1972 Dom Hélio o chamou para comunicar que ele seria o candidato da Igreja e dos trabalhadores rurais à Câmara Municipal. “Mas como? Eu não entendo nada desse negócio de política!”. A decisão estava tomada. A igreja jamais se envolveu abertamente na campanha, mas ele recebeu o apoio em massa do sindicato de trabalhadores rurais e, concorrendo pelo MDB, elegeu-se único vereador de oposição.

Começava a jornada solitária da água contra o rochedo. Combateu a gestão de Walber Duailibe do começo ao fim. Na Câmara, que tinha 9 vereadores, o placar a favor do prefeito era vergonhoso: 8 a 1. Mesmo assim, articulou e conseguiu o cargo de secretário geral da Mesa, que na hierarquia do parlamento é o segundo em importância.

Seu primeiro projeto restabeleceu a dignidade da Câmara, ao transferir a sede do Parlamento, alojada no prédio da prefeitura, para outro imóvel. “Era um absurdo a Câmara funcionar ao lado do gabinete do prefeito, como um biombo”. O prefeito não queria o projeto, mas Sebastião, mesmo sozinho, articulou com os colegas de ofício e sua proposição foi aprovada por unanimidade.

Também apresentou projetos para a construção de escolas em duas localidades. O prefeito, dessa vez, agiu rápido e a Câmara rejeitou as matérias. Sebastião não se deu por vencido. Fez reuniões com as comunidades beneficiadas pelos projetos e, em sistema de mutirão, ergueu as duas escolas em barro e palhas de babaçu. Os salários dos professores pagava com recursos próprios, isso numa época em que os vereadores não possuíam remuneração.

Em 1976 concorreu à reeleição e ganhou. Na hora de montar a chapa da Mesa Diretora, aplicou um golpe de mestre. Havia dois grupos com igual número de vereadores disputando a presidência, um ligado ao prefeito eleito e o outro, ao candidato derrotado. Era o fiel da balança. Para qualquer lado que pendesse, levaria a eleição. Foi assediado pelos dois grupos e para todos repetiu a mesma história: seria candidato de si mesmo. Na última hora o prefeito o procurou e aceitou que figurasse na cabeça da chapa. Tornou-se assim presidente da Câmara, sem pertencer a grupo algum.

Era o tempo das baionetas e o verde-oliva metia medo. Um dia recebeu a visita de um coronal do Exército, que veio de Fortaleza com a missão de fazer aprovar um projeto de interesse do bispo Dom Adalberto. Sem meias palavras ordenou que Sebastião aprovasse a matéria. “Quem aprova ou rejeita são os vereadores, não o presidente”. O militar não quis saber, queria o projeto aprovado por ele e ponto. “Então o senhor faça aprovar um projeto que dê essa prerrogativa ao presidente”, rebateu.

Em 1982, lançou-se candidato a prefeito, enfrentando duas forças exponenciais. Teve quase 3.000 votos. O eleito recebeu pouco mais de 4.000. “Perdi porque não tinha apoio político nem material, mas o povo me apoiou”. Deixou a política e foi cuidar da vida. No dia em que completou 80 anos, comemorou a data ao lado da família e dos amigos. Eu quis saber o que passa pela cabeça de quem chega a essa idade, lúcido e admirado. “Dá vontade de ser eterno, de gozar a vida e jamais morrer”. A história tem a capacidade de imortalizar seus personagens.

Foto capturada do livro “Histórias da minha vida” de Sebastião Furtado, em processo de edição.

Concurso do IBGE oferece mais de 5 mil vagas para o Censo 2021 no Maranhão

São 691 vagas para agentes censitários supervisor e 5.133 vagas para agente recenseado.

IBGE abre concursos para mais de 200 mil vagas para o Censo 2021 — Foto: Divulgação

Foram abertas 691 vagas para agentes censitários supervisor e 5.133 vagas para agente recenseado do concurso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para a realização do Censo Demográfico 2021 no Maranhão, com salários de até R$ 2.100.

De acordo com o IBGE, as provas objetivas serão aplicadas presencialmente em 18 de abril para agente censitário municipal e agente censitário supervisor. Para recenseadores, as provas serão também presenciais, em 25 de abril, “seguindo os protocolos sanitários de prevenção da Covid-19”.

Inscrições

Para as vagas de recenseador, as inscrições começam no dia 23 de fevereiro e vão até 19 de março, pelo site http://www.cebraspe.org.br/concursos/ibge_20_ recenseador. A taxa de inscrição é de R$ 25,77.

Para as vagas de agente censitário municipal e agente censitário supervisor, as inscrições começam nesta sexta-feira (19) e vão até 15 de março pelo site http://www.cebraspe.org.br/concursos/ibge_20_agente. A taxa de inscrição é de R$ 39,49.

Provas para agente censitário municipal e agente censitário supervisor:

  • prova objetiva de caráter eliminatório e classificatório
  • 4 horas de duração, aplicada no turno da tarde
  • 10 questões de Língua Portuguesa
  • 10 questões de Raciocínio Lógico Quantitativo
  • 5 questões de Ética no Serviço Público
  • 15 questões de Noções de Administração/Situações Gerenciais
  • 20 questões de Conhecimentos Técnicos.

Prova para recenseador:

  • prova objetiva, de caráter eliminatório e classificatório
  • 4 horas de duração, aplicada no turno da tarde
  • 10 questões de Língua Portuguesa
  • 10 questões de Matemática
  • 5 questões sobre Ética no Serviço Público
  • 25 questões de Conhecimentos Técnicos

Os gabaritos preliminares serão divulgados no dia seguinte à aplicação das provas, a partir das 19h, no site do Cebraspe. O resultado final dos aprovados será divulgado em 27 de maio.

A previsão para contratação é dia 31 de maio no caso dos agentes censitários, e em julho, para os recenseadores.

Por G1 MA — São Luís

O Ibacazinho perde Dona Cici, sua Grande Mãe

Ela foi a mãezona do Ibacazinho. Qualquer dificuldade, seja problema de saúde ou mesmo questão de família, era a ela que todos recorriam. Ceciliana Furtado, ou simplesmente dona Cici, foi uma espécie de farol para a comunidade, luz redentora, numa época marcada pela falta de conhecimento e de tecnologia. Poucas pessoas conheci tão cheias de amor, e sei que fui um agraciado por tê-la como madrinha. Se me via, seus olhos se enchiam de felicidade. “Meu filho, que bom te ver. Quanta saudade!”. Ter-me à mesa era motivo de júbilo. “Senta, meu filho, nos dá a honra de tomar café conosco”. Sua partida abrupta para o plano celeste me deixou sem chão, e também sem palavras. Assim, reproduzo aqui a crônica que lhe fiz, anos atrás, para o livro A Fazenda Bacazinho, como última homenagem, e que dá uma ideia da sua dimensão para todos que tiveram o privilégio de conviver com ela.

Vai, madrinha, encher o céu de amor e ternura.

A MADRINHA CICI, UMA LENDA

Eu a conheci antes de me entender como gente. É até mais correto dizer que Ceciliana Furtado descobriu-me no ventre materno. Por decisão dos meus pais, que chancelei anos mais tarde, levou-me à pia batismal e me fez ingressar na vida cristã. Fazia parte de uma comunidade ainda tribal, marcada pelo querosene e hábitos primitivos. Parecia estar situada muito além do seu tempo. E isso a tornava especial, espécie de luz condutora.

No entanto, o que mais nela me chamava a atenção era a voz suave, um tanto sonora, em ritmo compassado, quase soprada. Aquilo era música para os ouvidos, herança que ela passou às filhas, todas exibindo a mesma tonalidade e o mesmo tempo marcado na fala. Era bonita. Da alma brotava um carisma que a destacava onde estivesse. Tinha o dom da clarividência, que lhe permitia antever situações, muito além do olhar comum.

Situava-se, assim, no vértice da comunidade, aquele ponto para onde convergiam as queixas, as dúvidas e as aflições coletivas. Certo dia meu pai caiu gravemente enfermo. A mão ficou vermelha. Inchou rápido. Febre de doer. Corremos a ela, que nos atendeu solícita. Acercou-se da rede, inspecionou o doente. Depois chamou a família, fez um relato sombrio.

Em Viana, sede do município, distante 4 Km do Ibacazinho, havia nessa época um grupo de missionárias canadenses, que prestavam serviços de saúde para a igreja católica. Não perdeu tempo. A bordo de um velho jipe, ela e o marido, Sebastião, foram até a cidade e trouxeram a missão para ver o meu pai. O diagnóstico foi aterrador: gangrena.

Nessa época ninguém sabia o que era isso. Mas pelo ar circunspecto das missionárias e as orientações passadas à família, o caso era gravíssimo, e o desenlace se daria em questão de dias ou de horas. Contra todos os prognósticos meu pai enfrentou a doença e a venceu, mesmo sob a luz de lamparina, e tendo que amputar um braço. Ficaria grato à comadre pelo resto da vida.

Às vezes, mesmo tendo o respeito quase religioso do vilarejo, entrava em conflito com os moradores, que não entendiam o alcance de sua visão e de suas atitudes. A miséria grassava no povoado. Muita gente morria à míngua, vitimada por doenças hoje consideradas simples como verminose, sarampo, diarreia. A madrinha sabia que parte daquelas enfermidades era levada para o organismo humano pela água.

Esperou a data consagrada às mães, organizou uma campanha de doação, escolheu a mãe mais necessitada do lugar e a ela decidiu entregar um filtro. No lar escolhido, as crianças padeciam com um tipo de verme que provocava inchaço no corpo e fazia crescer a barriga. O Ibacazinho era uma comunidade quase que de sangre único, em que primos se casavam com primas, numa espécie de regra tácita.

Ao saberem da ideia da madrinha de entregar um filtro à mãe mais carente, os moradores tomaram aquilo como afronta. Achavam que, longe de beneficiar, a iniciativa feria todas as famílias naquilo que consideravam uma questão de honra: a dignidade. No dia da entrega do apetrecho, o tempo fechou, e foi um escarcéu do diabo.

Uma tia, após ouvir o belo discurso da madrinha sobre solidariedade humana e saúde pública, levantou-se de uma cadeira na fila da frente e, dedo em riste, a baba do fumo de rolo escorrendo pelos cantos da boca, advertiu: “Minha família é pobre, mas é gente honesta. Não pense que a senhora vai nos humilhar com esmolas. Isto nós não vamos aceitar de jeito nenhum”.

Entre perplexa e indignada, ouviu aquele rosário de reclamações e ameaças. Depois se armou de coragem, enfrentou o protesto com altivez, rechaçou todos os argumentos e no final, vitoriosa, entregou o filtro à mãe escolhida, que o recebeu com um misto de alívio e agradecimento.

Era também a professora do lugar. Graças a ela o Projeto João de Barros se assentou no Ibacazinho, abrindo oportunidade a muitos de ingressarem no universo das letras. Aluno seu, me envolvi numa briga com colega de aula. O sujeito a quem enfrentei tinha o dobro da minha idade. Como era previsível, apanhei impiedosamente. Depois, sangrando, com as vestes rasgadas, fui levado à presença da temida palmatória. Tomei meia dúzia de bolos, que me deixaram as mãos em brasa. Em casa meu pai, já sabendo da arruaça, me esperava de talo de tamarindo em punho para mais uma sessão de corretivo. A sova ficaria gravada para sempre.

Outra vez, aproveitando a ausência dos padrinhos, eu e primos fomos a casa deles, para jogar conversa fora com suas filhas e outras meninas da redondeza. O papo corria divertido, quando, de surpresa, os donos da casa irromperam na cozinha, onde nos encontrávamos. Bazinho, único filho homem e ainda menino, que não tinha papas na língua, foi logo anunciando: “papai, mamãe, eles estão conversando só indecências”. O tempo parou. Como que petrificado, saí à francesa, sem dizer palavra.

No dia seguinte, me acolheu e absorveu do seu jeito mais carinhoso. Antes que inventasse qualquer coisa para sair daquele nó, tomou a palavra e disse: “Meu filho, eu acredito em ti. És um menino bom, ajuizado e bem criado. Sei que jamais faria qualquer coisa que me decepcionasse”. Foi como ascender do inferno ao paraíso. Voltei para casa com cara de anjo, mesmo sabendo que no íntimo eu estava muito mais para demônio.

Os anos se passaram. Tornei-me homem. Nunca mais a vi. Jornalista feito, um dia folheava uma publicação numa banca de revistas da praça Benedito Leite, em São Luís. Distraído, nem percebi a aproximação de um casal de senhores. Quando, porém, uma mão macia tocou-me os ombros e ouvi aquela voz suave, me chamando de “meu filho”, reconheci-a sem precisar encará-la. Trazia no semblante as marcas do tempo. Nos olhos, a mesma doçura. No sorriso, a beleza de sempre. Na voz, o encanto com que sempre me acolheu.

Depois partiram. Ela e o padrinho. De mãos dadas. E fiquei ali, parado, vendo-os se afastando, até sumirem na esquina. A lembrança da lei de atração entre os espíritos tomou-me de assalto. E fiquei ali a pensar, em como os dois se fundem e se completam. Se a tese da pluralidade de existência da alma estiver correta, nem a morte os separará. Porque de fato foram marcados para viver juntos. Minha mãe, que os viu adolescentes, diz, em linguagem figurada, que eles se conheceram num dia, namoraram no outro e no dia seguinte casaram-se. Era pra ser. Estava escrito.

Por Nonato Reis