Senhor Penha, os bons morrem antes

Por Nonato Reis*

Minha convivência com Manoel de Jesus Travassos, o Sr. Penha, foi quase nula. Até me arrisco a dizer que entre ele e mim prevaleceu o signo do desconhecido. Ele não sabia nada a meu respeito. Eu dele sabia o indispensável: um homem de personalidade forte, de atitudes corretas e de hábitos simples. Inteiramente devotado à família. Nunca ouvi falar ou tomei conhecimento por qualquer meio de algo que colocasse em xeque essa minha visão sobre ele.

Era um homem de opiniões formadas e delas não se arredava jamais. Se confrontado, defendia os seus pontos de vista com argumento e determinação. Seu ambiente preferencial era o familiar. Nunca quis se envolver com política partidária. Mesmo com o espaço que conquistou no setor produtivo, jamais concorreu a cargo eletivo. Mas os políticos o tinham como referência obrigatória para alçar voos maiores na vida pública.

Fazia suas escolhas conforme ditava a sua consciência, porém sem alarde, movido por um senso agudo de discrição e reserva. Meu pai, que mantinha no Ibacazinho, uma bodega de secos e molhados, era um assíduo frequentador da sua loja de gêneros alimentícios, à Rua Dr. Castro Maia, que comprava matéria prima, como coco babaçu, milho e feijão, e oferecia produtos manufaturados como açúcar, leite em pó, querosene e manteiga. Os dois se falavam pouco, mas eram sempre amáveis entre si.

A maior aproximação que tive com ele aconteceu por um ato de que me envergonho. Eu era ainda um moleque de 13 anos. Um dos seus caminhões carregados de coco babaçu, ao fazer a travessia do rio Maracu, no Ibacazinho, com destino a São Luís, inclinou-se sobre uma das rampas de madeira que possibilitavam a entrada e saída de veículos do pontão e ficou com uma das extremidades da carroceria rente à água, o que obrigou a contratação de estiva para retirar parte da carga.

O descarregamento entrou pela noite e eu tive a “brilhante” ideia de subtrair parte do coco de um dos sacos, fazendo um buraco no tecido de fios de embira. Na companhia de outro comparsa, consegui drenar pelos menos uns cinco quilos de amêndoas, que guardamos no mato, para no dia seguinte revender no mesmo local de origem. De cara séria, como de costume, Sr. Penha registrou a pesagem do material e fez o pagamento, sem que de nada desconfiasse.

O dinheiro do furto foi empregado na compra de cachaça e coca-cola, que eu e o parceiro entornamos no percurso de volta para o Ibacazinho. Como toda causa gera um efeito, a consequência foi uma embriaguez dos diabos, que forjou no meu pai a decisão de me mandar para São Luís. “Aqui o teu futuro já tá traçado, mas eu não quero filho viciado no que não presta”. Foi a minha salvação.

Os anos se passaram, nunca mais avistei Sr. Penha. Certo dia, eu aguardava no Hospital UDI a minha vez para ser atendido pelo cardiologista. Ao meu lado, numa poltrona, dei com aquele senhor, de cabelos ralos e grisalhos e o olhar grave a me fitar como se tentasse reconhecer em mim algum conterrâneo de outras datas. Ele se chegou mais próximo e perguntou: “você é de Viana?”, ao que respondei afirmativamente. E ele, como todo bom vianense: “filho de quem?”. Eu disse: de Renato, lá do Ibacazinho. E ele, o rosto iluminado num meio sorriso: “ah, sim, o Renato! Ele ainda vive?” Respondi que não; havia falecido em 2004. Nem deu tempo de me apresentar, porque logo a voz da atendente o chamou, indicando o consultório.

Mais recentemente o vi em uma pizzaria em Viana, na presença de alguns familiares, entre eles a filha Fátima. Me parecia bem de saúde, apesar do ar circunspecto de sempre. Hoje, porém, fui surpreendido com a notícia do seu falecimento, e na mesma hora me lembrei dos versos de uma música de Renato Russo: “É tão estranho/os bons morrem jovens”. Mesmo com mais de 80 anos, Sr. Penha nos deixa essa sensação, de que se foi cedo demais.

*Jornalista | Escritor

admin

Jornalista (MTB - 918). Pós-Graduado em Design Gráfico pela UFMA – Universidade Federal do Maranhão. Publicitário e Designer Gráfico. Membro da Academia Vianense de Letras (AVL) - Cadeira nº 20 - Patrono: Bispo Dom Hélio Campos. Edita o Blog Vianensidades desde 2007. CONTATOS: Email: [email protected] | Whatsap: 98 98461 2929

4 thoughts to “Senhor Penha, os bons morrem antes”

  1. Fico muito triste também com aperca desse grande homem que foi um grande exemplo para essa cidade de Viana e diquino do seu trabalho meu pai sempre falou bem desse grande homem para mim e ontem foi sua grande partida mais tenho certeza que ele estar au lado do pai eterno Aki deixo os meus citimento au familiares

  2. Emocionei-me ao ler este Belo relato de vida! A construção da história da vida da gente, faz parte da história da vida dos outros! Numa grande teia tecida pela vida que se faz! Obrigada pela história contada e pela homenagem a este homem digno e muito amado, Sr. Penha!

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