Quem quer pegar Niquita

Nonato Reis*

Trago fresquinha na memória a imagem plácida do velho Genésio, calafetando as canoas, empurrando a estopa para dentro das rachaduras abertas na madeira pela ação da água, derretendo o breu na fogueira improvisada à margem do rio Maracu para fixar os remendos nos cascos das embarcações.

Eu adorava sentir o cheiro forte do breu queimado, que me lembrava algo indefinível, porém sincronizado com o ambiente rústico do lugar.

Genésio se dizia carpinteiro, mas muito pouco sabia da arte. Seus trabalhos, consertando barcos ou preparando as cumeeiras das casas, deixavam a desejar, mesmo para os padrões singelos de comunidades ribeirinhas, praticamente perdidas na selva.

Era um homem alto, moreno, corpulento. Tinha uma dentadura que me causava arrepios, pela má formação dos dentes, enormes e pequenos, uns trepados sobre os outros, separados entre si por uma massa escura que parecia musgo

Porém o que me chamava mesmo a atenção nele, e creio que nos demais moradores do Ibacazinho, era o jeito calmo de ser. Ele parecia viver em outra dimensão, tal o estado de mansuetude e desligamento. Podia eclodir um terremoto a sua volta, nada o fazia sair do eixo rotatório. Até para falar Genésio era lento – e também econômico. Se alguém o perguntava alguma coisa, ele se limitava a um “nhô, sim” ou “nhô, não”. Levava uma, duas horas para comer. A colher, saindo do prato até à boca, projetava uma imagem em câmera lenta.

Eu desconfiava que Genésio não era deste mundo. Isso até o dia em que uma mulher, curandeira, promoveu uma sessão de cura na Palmela. O casebre onde aconteceu a pajelança estava apinhado. Genésio tinha duas filhas: Maria Joana e Maria Raimunda. A primeira já havia casado; a segunda se dizia virgem, tinha apenas 18 anos. Nunca namorara, ou pelo menos não se tinha notícia da existência de algum pretendente, e não era para menos. A menina era feia de doer, falava fanho e parecia ter herdado a lerdeza do pai.

Ocorre que, no meio da cura, sob o ritmo frenético dos atabaques, Neném Guariba, um caxeiro viajante de dotes físicos avantajados, cabelos aos ombros e fala mansa, aproximou-se de Maria Raimunda e começou a lhe fazer a corte, algo absolutamente incomum. Papo vai, papo vem, o caixeiro já chafurdava o cangote da menina, quando a curandeira, em transe, começou a gritar: “Quem quer pegar Niquita?” Niquita fora um velho morador do Taberneiro – localidade quilombola a 20 minutos a pé do Ibacazinho – que morrera de tosse braba, fazia menos de um ano.

E a curandeira, completamente transtornada, gritava, cada vez mais alto: “Quem quer pegar Niquita? Niquita tá bem ali, trepado na porteira do canavial”. A roça de cana de açúcar ficava a 200 metros do local da cura. Assustados e temerosos, os moradores faziam o sinal da cruz e sequer se dispunham a olhar na direção indicada. Menos Neném que, vendo a oportunidade de ouro, praticamente arrastou Maria Raimunda pela mão e com ela pulou a cerca para dentro da roça, sumindo por entre os pés de cana.

A irmã, Maria Joana, ao notar a fuga dos dois, correu até o canavial e, ouvindo os berros da menina no momento da cópula, bradou. “Maria Raimunda, pode sair daí”, ao que a irmã retrucou: “vaim tim imbora, sua peste, mim deixa de mão”.  Maria Joana ameaçou. “Ou você sai daí agora ou vou contar tudo pro papai”. A menina esbravejou. “Vaim, sua disgraça, que eu tô dando é o qui é meum”.

No dia seguinte, a notícia correu beirada, chegou até a delegacia de polícia. Um caixeiro viajante fora assassinado a pauladas no Ibacazinho, após bulir com uma donzela e o autor do crime era o próprio pai da menina desonrada. O delegado mandou prender Genésio em flagrante e, tendo-o diante de si, interrogou-o:

– Seu Genésio, o senhor matou esse homem?

– Nhô sim.

E por que o senhor fez isso?

– Dor de pai, nhô.

– Mas o senhor precisava matar o rapaz?

– Não era rapaz, nhô. Era bandido.

*Jornalista | Escritor

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Jornalista (MTB - 918). Pós-Graduado em Design Gráfico pela UFMA – Universidade Federal do Maranhão. Publicitário e Designer Gráfico. Membro da Academia Vianense de Letras (AVL) - Cadeira nº 20 - Patrono: Bispo Dom Hélio Campos. Edita o Blog Vianensidades desde 2007. CONTATOS: Email: [email protected] | Whatsap: 98 98461 2929

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