Por que dobram os sinos da Matriz

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Por Nonato Reis*

Eu me lembro até hoje, quase meio século depois, daquele som grave, intermitente, anunciando a morte de Stanislau Muniz, um dos patriarcas da Família Muniz, em Viana. Stanislau, um sujeito de estatura mediana, cabelos e bigodes brancos e o olhar grave de quem parecia estar sempre chateado com alguma coisa, era proprietário da Quinta do Maracu, que em épocas remotas pertencera aos jesuítas da missão de Conceição do Maracu, marco inicial da colonização de Viana.

Os sinos da Matriz de Viana, que depois se tornariam parte do acervo histórico da cidade, vindos, ainda no século XIX, diretamente de Lisboa para a diocese local, constituíam elemento primordial do cotidiano da cidade. Além de anunciarem o falecimento de alguém importante, eram utilizados na comemoração de eventos festivos de cunho religioso, como as homenagens a Maria, mãe de Jesus, durante o mês de maio; para chamar os fiéis às celebrações eucarísticas, alertar sobre temporais e também marcar o tempo, a intervalos de três horas, contadas de acordo com as badaladas. Se meio-dia, hora do Angelus, por exemplo, 12 badaladas, e assim sucessivamente.

Caso o sineiro – aquele que opera o equipamento – errava o número de badaladas, isso poderia resultar em prejuízo para os moradores, que corriam o risco de perder algum compromisso importante, já que naquela época relógio de pulso era quase uma raridade.

Não havia como esquecer o som dos sinos da Matriz,  melodioso e penetrante. Por ocasião do falecimento de Stanislau, eu era ainda um menino recém-saído das fraldas, nada sabia sobre a linguagem dos sinos, mas, dentro de mim, aquele som ecoava como um lamento de dor e tristeza.

Pois é. Os sinos possuíam uma linguagem própria, cujos significados variavam conforme a quantidade de toques do badalo e a forma de badalar. Se o morto era do sexo masculino, três batidas prolongadas; se mulher, apenas uma. O chamamento para a missa era feito com batidas intermitentes, que lembravam o toque da harpa na execução de músicas de Natal.  De qualquer modo, para saber se um sinal de sino é alegre ou melancólico, basta prestar atenção no ritmo das badaladas. Se evento festivo, as batidas ocorrem uma após outra, em profusão; se triste, marcadas e prolongadas, como um lamento.

Do latim signum, que quer dizer “sinal”, “marca”, a história do sino se perde no tempo. Há relatos que a situam na China, ao redor do ano 3000 a.C, então concebido como objeto pagão. Assim o seu reconhecimento pela cristandade só ocorreria no decorrer do século II d.C, quando a Igreja Católica o adota com a finalidade de anunciar o Evangelho e chamar o povo para as assembleias.

O som de um bom sino é captado a quilômetros de distância. Os da Matriz de Viana eram ouvidos em povoados situados nos limites entre municípios, e bem mais no período das cheias, pela facilidade de propagação do som na água. Só para se ter uma ideia, na água a velocidade do som é quatro vezes maior do que no ar. Isso porque, comprimida, a água reage bem mais rápido que o ar, dada a sua elasticidade.

Os sinos da Matriz de Viana, pelo seu valor histórico e pela qualidade do som emitido, foi objeto de cobiça ao longo dos anos 70 e 80, tendo sido vendidos ao Estado, ilegalmente, numa operação comercial até hoje pouco esclarecida, o que motivou forte protesto da sociedade vianense e a deflagração de um movimento pelo seu resgate e retorno às origens.

Sebastião Furtado, ex-vaqueiro da Santa, em seu livro “História de um vaqueiro apaixonado” (título provisório), prestes a ser lançado, informa que, após grande repercussão e apelo da população, os sinos, enfim, voltaram para Viana e foram entregues à Justiça da cidade.  “Ficaram expostos no jardim da Prefeitura por certo tempo, e hoje encontram-se localizados no alto de um campanário de madeira, ao lado da  Igreja Matriz”. Para a felicidade e orgulho da população vianense.

*Jornalista/Escritor

Integra o livro de crônicas “Os sinos da Matriz”, previsto para 2021.

One thought to “Por que dobram os sinos da Matriz”

  1. Congratulações, meu caro escrevente.
    Eu ouvira, em superficiais retóricas, que há um linha histórica dos sinos vianenses, que teriam sido encomendados à Viena, em Áustria.
    A alusão é bonita, porém — uma vez que não citaste uma linha a respeito — estou inclinado a desistir de buscar mais informações de tal via na história dos referidos instrumentos obcônicos.

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