Levou o dedo na boca do peixe e gritou: “piranha!”

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Nonato Reis*

A língua é um dos elementos fundamentais da identidade cultural de um povo. Por meio dela se dá a construção da subjetividade, garantindo-se a transmissão de conhecimento entre as gerações, num processo contínuo e dinâmico. O modo de falar, a sonoridade, o sotaque indicam a procedência e as raízes ancestrais, mostram como as influências externas foram absorvidas ao longo do tempo.

A Baixada Ocidental, por exemplo, tem um padrão de linguagem que a distingue das demais regiões do Estado e de qualquer outra parte do Planeta. Existe até um livro intitulado “Dicionário do Baixadês”, lançado em 2014, pelo professor Flávio Braga, que apresenta uma compilação de termos, expressões e provérbios populares da região.

São centenas de verbetes sobre a forma de comunicação do caboclo baixadeiro, cuja origem remete às culturas europeia, africana e nativa, miscigenadas em razão do processo catequético e da escravatura.

Termos como arroz pache, que significa o arroz cozido com excesso de água; bazugar – arremessar, jogar, lançar; casêra – mulher que mantém relacionamento com homem casado; estalecido – dente inflamado; gatimonha – brincadeira espirituosa, que provoca gracejos, gaiatice; indêz – o ovo que se coloca no ninho para servir de chamariz às galinhas, e por aí vai.

No Ibacazinho, esses termos faziam parte do vocabulário da comunidade, e qualquer palavra usada fora do padrão soava estranha, para dizer o mínimo. Como explicar para o morador das brenhas que ele está com um problema no pâncreas e não na passarinha? É curto-circuito na certa na comunicação.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com um rapaz que, tendo passado um tempo estudando em São Luís, voltou para a comunidade, falando um português esquisito. Um dia a mãe adoeceu com um tumor no traseiro, e a família achou por bem procurar “recurso” na cidade.

O rapaz, então, chamou a irmã e o pai e os orientou a procurar o seu Ozimo, famoso farmacêutico da década de 70, em Viana. Disse: “vocês digam a ele que ela tem um tumor nas nádegas”. E soletrou com todo o cuidado, para que não houvesse erro: ‘ná-de-gas’”.

Estando diante do seu Ozimo, o pai, com a filha do lado, explicou que a esposa estava com um “carbunco” e precisava de um remédio.

Seu Ozimo quis saber a localização do tal carbunco. O homem coçou a cabeça e não conseguia lembrar o nome que o filho havia falado. Então, já agoniado, pediu ajuda à menina: “Minha filha, como é o apelido do cu da tua mãe?”.

Houve também o caso de uma garota que foi passar férias no Rio de Janeiro e voltou chiando que nem carioca. Esquecera os hábitos da comunidade, sequer conseguia identificar os peixes do rio Maracu.

Ela olhou uma piranha que o primo Tião Xoxota havia pescado e quis saber que peixe era aquele. Tião, tido como de pavio curto, achou aquilo um deboche. “Tu passou um mês na capital e não sabe mais que peixe é esse?”. A menina jurou que não sabia. “Pois deixa que eu te ajudo a lembrar”.

Então mandou-a fechar os olhos e, com a mão sobre o dedo direito indicador dela, levou-o até a boca da piranha, que o mordeu, retirando uma lasca de carne. A menina gemeu de dor e, o sangue jorrando do dedo, gritou: “piranha!”. E Tião, com ar de superioridade: “Eu não disse que você lembrava?”

Integra o livro “Os Sinos da Matriz”, com lançamento previsto para este ano.

*Nonato Reis – Jornalista | Escritor

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