Chucho – “O Pelé da Baixada Maranhense”

Um breve relato do maior craque de futebol da Baixada Maranhense de todos os tempos

Por Luiz Antonio Morais – Jornalista e integrante da AVL

Antonio Matos Gaspar, o Chucho, nasceu em 28 de julho de 1936, na pacata Rua do Sol, viela que corta a Praça da Matriz, em Viana, e termina na comunidade Gruguéa – antigo atracadouro de canoas de pescadores –, que alertavam os fregueses por meio de um rústico berrante, confeccionado por um dos lados de chifres bovinos.

Filho do casal Coaraci Neres Gaspar e Laura Rosa dos Santos Gaspar, esse ilustre e talentoso vianense teve, ainda, nove irmãos, seis deles já falecidos: José de Laura, Zuleide, Conceição, Balbino, Emídio, Tarcísio, Maria Rita e Elisabete.

Nossa reportagem encontrou Chucho em uma manhã de domingo, 9 de setembro de 2018, em sua modesta residência, na Rua do Sol, local onde sempre morou desde que nasceu. Olhar fixo na TV, assistindo a uma corrida de Fórmula 1, era o arquétipo do melhor jogador de futebol nascido em solo vianense.

Enquanto muitos jogadores, hoje, de qualidade técnica duvidosa, ou os grandes craques de fama mundial, entre eles Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar – ainda jovens ou na plenitude da forma física –, acumulam verdadeiras fortunas, carros de luxo, viajam em jatos particulares, namoram mulheres belas e famosas e residem em mansões cinematográficas, quis o destino que o nosso maior craque encerrasse a carreira muito cedo, pobre e vivendo os seus dias de velhice sustentando-se apenas com uma humilde renda da aposentadoria; solitário e sem esperança por dias melhores.

Mas o nosso craque já teve os seus dias de glória!

Quis a graça divina que esse menino pobre, nascido em Viana, ostentasse um assombroso talento com a bola nos pés. E, ali nas várzeas e campinhos dos arredores da cidade, verdejantes após a baixa das águas, que Chucho e seus coleguinhas da época: Zé Pedro Morais, Tomás Morais, Raimundão, Lupercínio, Fefeu, ente outros, já mostravam uma incrível habilidade, mesmo que a diversão se desse com humildes bolas de meia, recheadas com papel ou sobras de tecido.

Logo, Chucho despertou os olhares e a cobiça dos desportistas da região e, aos 15 anos, era a maior atração do lendário Dragão, um dos clubes mais vencedores da época, em Viana e vizinhas.

Mesmo com as dificuldades da memória que a idade avançada impõe, Chucho lembrou, com nostalgia, alguns nomes dos velhos companheiros de campo da época, quando, ao lado de Futuca (goleiro), Vavá, Tarcísio de Lima, Fefeu, Marreco, Dico de Catarina, Esquerdinha, Machadinho e outros, o Dragão enfrentava as equipes rivais. Entre elas: o Ipiranga, que mudou de nome para Babaçu, e o Democrata, que virou Cruzeiro.

“Esses jogos, além de muito disputados, sempre terminavam em sopapos, chutes, correria e agressões devido à juventude e à rivalidade dos bairros”, afirmou Chucho.

Anos depois, segundo relatou, o time do Dragão também mudou de nome e passou a se chamar América, tendo como principal cartola e mecenas, um gerente do extinto Banco do Estado do Maranhão (BEM), lembrado apenas pelo nome de Pavão.

“Nós não tínhamos um esquema tático definido nem posições fixas. O nosso principal objetivo era dominar o adversário com raça, toque de bola e chegar ao gol, inevitável”, relembrou.

Aos 22 anos, já na idade adulta, Chucho se apaixonou e se casou com a jovem Maria do Rosário Neves Gaspar, união que gerou oito filhos: Antonio Carlos, José Etevaldo (in memorian), Laura Rosa, Francisco Carlos, Sebastião, Raimundo Nonato, Rosirene e Roberto.

Vice-campeão; campeão e bicampeão intermunicipal de futebol

Em 1965, quando o Brasil ostentava o titulo de bicampeão, conquistado nas Copas do Mundo (Suécia/1958, e Chile/1962), e o futebol gozava de enorme prestígio nacional, Chucho, então no auge da forma física, aos 25 anos, já reinava e desfilava o seu indefectível talento nos campos de todas as cidades da Baixada Maranhense, encantando dirigentes e torcedores da época.

Seleção campeã (1966) – De pé: Macial (goleiro reserva), o presidente da Liga Vianense Raimundo Nonato Mendonça (Papa-banha), os irmãos Cabeça e Picirica (goleiro titular), os também irmãos Coquinho e Zé Melo, Lupercínio, Louro, o técnico Jurandir, o médico Dr. Osmir, Zé Viana, Nilson e um desconhecido. Agachados: o massagista Nego Luís, Pedro de Constantino, Bacabal, Marreco, Darío, Chucho, Lanchão, Walmir, Fefeu, Carmelito e Vavá.

Segundo relatos de moradores mais velhos, Chucho chutava forte com as duas pernas, era um exímio cabeceador e driblava seus adversários com igual ou superior habilidade de Pelé, (ele mesmo, o Rei do Futebol).

Mantida as aparências, Chucho não demorou a conquistar, com a camisa da Seleção Vianense, os títulos de vice-campeã, campeã e bicampeã dos acirrados torneios intermunicipais de futebol, em 1965/1966 e 1967 – anos dourados do futebol vianense.

Fome e falta de reconhecimento

Embora as delegações que disputaram três títulos intermunicipais, inclusive sobrevivendo a um naufrágio da lancha Marília em 1965, quando retornavam para casa, essas conquistas tiveram muitos momentos tensos, tristes e delicados. Segundo Chucho, o Brasil vivia uma crise econômica e, também, institucional naquela época, isto é, já vivia sob a Ditadura Militar.

O prefeito de Viana, nesse momento, era Acrísio Mendonça, que tinha enormes dificuldade em manter o custeio da prefeitura, pagar os funcionários e/ou realizar obras. Portanto, como era quase sua obrigação dar apoio ao selecionado vianense – que tinha grande admiração da população, em razão dos talentos escolhidos para defender nossas cores –, a gestão também passou por apertos financeiros para honrar compromissos com as despesas de hotel e refeições, sempre que o selecionado se deslocava à capital para disputar as finais do Intermunicipal.

“Muitas vezes, passamos fome em São Luís. A dona do hotel afirmava que não iria fazer refeição enquanto não recebesse o dinheiro devido. Então, o prefeito Acrísio, que, às vezes, acompanhava o nosso time, voltava pra Viana e fazia uma ‘vaquinha’ entre os comerciantes locais e retornava para pagar as despesas”, relatou.

Chucho também relembra com tristeza que a prefeitura dessa época nunca reconheceu como deveria, ou premiou os jogadores com o conhecido “bicho” (premiação em dinheiro, prática comum nas equipes de futebol do Brasil, até os dias de hoje, quando estas alcançam grandes conquistas).

“Nem os troféus que conquistamos, não sabemos onde foram parar”, afirmou com tristeza.

Portas da esperança

Com a divulgação das conquistas do selecionado vianense pelos jornais “O Imparcial”, “Jornal Pequeno” e o “O Dia” (extinto), a fama de craque de Chucho logo chegou a outras plagas. O político João Alberto de Sousa, já bastante conhecido e influente, esportista e apaixonado por futebol, mandou um emissário para contratar o craque vianense para defender o América de Bacabal, que, em seguida, se profissionalizou e virou Americano e veio a disputar vários campeonatos estaduais.

Chucho também jogou pelo Flamengo de Santa Inês, que tinha como rival, é claro, o Vasco, da mesma cidade.

“Logo na minha estreia, era dia de clássico. Cheguei até a fazer um gol e ganhamos de 2 x 0, mas o jogo acabou com muitas brigas e teve até tiroteio na torcida”, diverte-se!

A oportunidade mais próxima de uma profissionalização de Chucho, no futebol maranhense, deu-se por meio de um convite para treinar no Maranhão Atlético Clube (MAC), de São Luís. No entanto, as dificuldades financeiras, a saudade da família e a falta de estrutura para morar em São Luís o impediram de mostrar o seu talento para públicos além-mares.

 “Morei em um casarão caindo aos pedaços, não tinha como me sustentar. Lembrava que não tinha deixado um tostão para minha mulher e meus filhos. Um dia, meu irmão Emídio, que, na época, já era capitão do Exército, foi me visitar, ficou triste com minha situação e me levou para casa dele, ali na Rua 28 de Julho, no Centro da cidade. Então, voltei para Viana, sem nunca jogar no MAC”, resigna-se.

Sapatos, chuteiras e contusão

Quando retornou a Viana, filhos em fase de crescimento e muitas despesas, Chucho buscou o sustento da família em uma nova profissão, na qual também mostrou grande talento: a de sapateiro, ofício que desenvolvia em iguais condições com o também companheiro de seleção, João Batista Melo, o Coquinho.

“Quando ia treinar, eu já levava minha suvela (instrumento pontiagudo para perfurar couro) e agulha. Se a bola murchasse ou as chuteiras rasgassem ou perdessem as traves, estávamos prontos para recuperar, ali mesmo, na hora,” contou.

“Certa vez, meu ‘compadre’ Aluísio pediu minha chuteira emprestada; joguei contra ele descalço e levei um forte ‘pisão’ no pé, e ele ainda tirou sarro comigo, que era pra eu comprar chuteira pra mim”, relatou sorrindo.

Para alimentar a prole, também se aventurou no Lago de Viana, com tarrafa e anzol, em busca do pão de cada dia.

Aos 35 anos, o destino tratou de pôr fim a carreira desse “Pelé da Baixada Maranhense”.

Em uma partida de futebol disputada em um bairro vianense, Chucho sentiu um forte estalo no joelho direito. Os meniscos sentiram o desgaste do tempo, a falta de condicionamento físico para um atleta e, foram ceifados das condições para a prática do futebol. Em um município isolado territorialmente, sem médicos, sem clínicas ou qualquer possibilidade de tratamento, o atleta sucumbiu ao peso do desgaste.

Era o fim da carreira de Chucho.

 “Hoje, com a minha idade avançada, estou sofrendo muito com essa contusão no Joelho. É um preço muito alto que estou pagando por ter jogado futebol” relatou.


... e time do tempo ganhou…

“Sua ilusão entra em campo no estádio vazio

Uma torcida de sonhos aplaude talvez

O velho atleta recorda as jogadas felizes

Mata a saudade no peito driblando a emoção”

Na canção “Balada nº 7 – Mané Garrincha”, na qual o compositor Moacyr Franco homenageia o lendário craque da Seleção Brasileira, podemos imaginar o apogeu e a derrocada de um craque com o calibre e o talento de Chucho.

Não ao talento

Na última gestão do ex-prefeito Rilva Luís, o desportista, ex-jogador e ex-vereador Zé Carlos Costa, que gozava de prestígio na administração pública, chegou a convencer o gestor a enviar à Câmara de Vereadores um projeto de lei que garantisse uma renda mensal a todos os jogadores e comissão técnica das seleções que trouxeram tamanho orgulho para os vianenses no futebol, inacreditavelmente NÃO aprovado pelos edis da época.

A Mangueira chegou!

Se as pernas já não serviam para o futebol e as mãos continuavam tratando bem o couro, fazendo sapatos, para a nossa alegria, Chucho também demonstrou talento e afinidade com outra paixão: o samba. Era na sua porta, na Rua do Sol, que um grupo de vianenses, da Matriz e outros bairros, se reuniam para ensaiar os sambas do seu irmão, exímio compositor, Balbino, para serem cantados nos aguardados desfiles, em frente ao palanque oficial da prefeitura, na Rua Antonio Lopes.

E, como resultado dessa abnegação pelo samba, a Mangueira fez um desfile inesquecível no início da década de oitenta, em homenagem à lendária professora vianense, Edith Nair Furtado da Silva. Com uma apresentação, enredo, fantasias e adereços impecáveis, a escola ganhou o título de campeã e marcou uma geração no Carnaval de rua vianense.

Olhar e lembranças

Chucho, hoje, depois que realiza suas tarefas e refeições matinais, servidas pela neta e vizinha Francinete, descansa um pouco e, logo em seguida, quando o Sol arrefece, dirige-se, com um caminhar lento, ao Parque Dilu Melo (Areal) onde possui um modesto barzinho.

Chucho, no Parque Dilú Melo, em Viana-MA

Ali, sentado em uma cadeira de macarrão, de plástico, contempla o horizonte do nosso lago e os meninos descalços, suados, alegres e barulhentos que disputam, alegremente, uma pelada no campinho de areia, logo à frente.

Observando a cena, este jornalista não resistiu à pergunta:

– Seu Antonio, o senhor já foi bom disso, não foi?

Soam gargalhadas…

O jogo da vida continua!

• Bibliografia consultada: RAPOSO, Luiz Alexandre – Anos Dourados em Viana: artigos e crônicas. São Luís: Gráfica e Editora Sete Cores, 2018.

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