Adeus, Seu Zé! Um tributo a J R Castro.

Quem vivenciou os últimos anos da efervescência comercial do centro histórico de Viana, no final da década de oitenta, com certeza conheceu e ou utilizou os serviços de três conhecidos fotógrafos ou retratistas: Zé Branco, Baianinho e Castro.

Quando o conheci, Zé Branco já era um sujeito franzino, pela idade, pele albina, com dificuldade para enxergar, mas, muito lúcido e prático com a profissão. Zé Branco, para quem não sabia, também gostava de compor músicas. Em certo momento da política vianense, Zé Branco se candidatou a vereador. Como dispunha de parcos recursos para a campanha, e sabendo do meu talento para produzir cartazes a mão livre, contratou-me para a tarefa de executar sua propaganda eleitoral. Nesse tempo o número do candidato era secundário, e o que interessava mesmo era o seu nome de guerra. E foi aí que cometera o mais grave erro de sua estratégia; ao invés de citar o seu conhecido epíteto, Zé Branco, por preciosismo ou vaidade, grafou José Fernandes Gomes, o seu nome de batismo nas peças de divulgação. Nem precisa dizer que foi um fracasso nas urnas.

Outro personagem conhecido em captar cenas do cotidiano vianense era Baianinho, filho do comerciante Zé Baiano (falecido) que atuava no bairro da Matriz. Baianinho tinha estilo documental; gostava de expor seus trabalhos nas paredes do seu “Foto Fortaleza” localizado na Rua Grande. Por questões de saúde, hoje Baianinho está recolhido ao lar e pouco é visto pela Cidade dos Lagos.

E, nessa semana de novembro, deste conturbado ano da pandemia da Covid 19, Viana perdeu um dos mais icônicos profissionais da fotografia, que ainda resistia com o seu pequeno estúdio na Rua 7 de Setembro: José de Ribamar Castro, ou somente Castro como era conhecido.

Castro era natural de Barreirinhas, portal dos Lençóis Maranhenses. Chegou a Viana no final da década de setenta. Carismático e muito trabalhador, logo conquistou uma boa clientela, para em seguida montar o seu estúdio.

O centro histórico de Viana ainda vivia sua plenitude, tendo como locomotivas, a Prefeitura Municipal, o Extinto Banco do Estado do Maranhão (BEM), e a “Fábrica”, como chamávamos o famoso Sobrado Amarelo, hoje entregue às ruinas.

Castro mostrava com orgulho uma foto feita por ele, de uma carcaça de navio, ancorado em um banco de areia, numa praia de Barreirinhas, que segundo ele, seria o navio que morrera afogado o famoso poeta maranhense Gonçalves Dias.  

Tradicionais comerciantes como o senhor Feliciano Gonçalves, João Trindade, Costinha, Zezico Costa, Senhor Penha, Casa Ribamar de Daniel Gomes, Farmácia Brasil, de Ozimo Carvalho, dentre outros estabelecimentos e autônomos que vendiam roupas e bugigangas, ditavam os rumos do entra e sai de clientes da sede, da zona rural e das cidades vizinhas, que recebiam aposentadorias no antigo BEM.

No meio desses grandes expoentes do comércio vianense, o Foto Castro era apenas uma “casquinha de coco”, porém, sua determinação e vontade de vencer logo o tornaram personagem indispensável em quase todos os eventos como casamentos, batizados, formaturas, aniversários, desfiles de 7 de setembro, velórios e outras atividades culturais vianenses.

Nesse período, o titulo de eleitor era um pequeno cartão branco, com dados pessoais e uma foto 3×4 em preto e branco. Um ano antes das eleições, a prefeituras eram obrigadas a fazer a “qualificação”, que consistia em habilitar pessoas aptas a votar no ano eleitoral seguinte.

Era nessa época que Castro “lavava a burra”, pois além da Cidade dos Lagos, todas as prefeituras vizinhas destinavam caminhões cheios de eleitores para se habilitarem a votar, serviço realizado pela Prefeitura de Viana.

Certo dia, precisando consertar um tripé dos seus equipamentos, Castro apareceu na oficina do meu pai, Amadeu Morais, na Praça da Matriz. Além do serviço contratado, o fotógrafo se interessou por algumas pinturas de placas com letreiros, que eu, no início da juventude praticava para descolar algum dinheiro. Castro logo me solicitou uma placa nova para a fachada o seu estúdio e, dali foi um pulo para virar seu assistente. O meu primeiro emprego!

Minhas funções era fazer foto para documento, tamanho 3×4, revelar o filme em uma câmera 100% escura e copiar as imagens para o papel fotográfico. Um ofício que aprendi rápido, cuja renda serviu para pagar o meu curso de contabilidade no antigo Ginásio Antonio Lopes.

Certa vez, a antiga praça da prefeitura fervilhava de eleitores. Castro estava feliz porque o estúdio estava cheio e era sinal de um bom faturamento. Entretanto, por esses deslizes administrativos, faltou material para revelar o filme dos eleitores. Castro logo tratou com o amigo Baianinho para utilizar o estúdio do parceiro. Foi um desastre!

Acostumado ao cenário e o mobiliário de uma câmera escura de outro estúdio, me enganei na hora de colocar o filme nas bacias que continham revelador, fixador e água, nessa ordem.

– O filme queimou! O recado se espalhou rapidamente, para que todos refizessem as fotos, antes da viagem de volta!

Outra lembrança é que nesses anos eu jogava futebol no lendário time Vera Cruz, do ex-bancário e bicampeão vianense Coquinho. Em partida de futebol, em uma manhã quente de domingo, no Estádio da Conceição, eu não estava rendendo nada em campo.

– Hoje tu está só água de retrato! Exclamou o técnico, para gargalhadas de todos.

Castro era um homem puro de alma, extremamente bem humorado. Quando não sabia o nome das pessoas, chamava-os carinhosamente de “Dona Maria” ou Seu Zé de Coca”. Nunca se acostumou com meu nome. Por isso, para ele, sempre fui “Seu Zé”, o que também era retribuído por mim à sua pessoa.

Ultimamente, sempre que ia a Viana, parava na porta do seu modesto estúdio, na Rua 7 de Setembro, para conversar, relembrar causos e dar gargalhadas sobre os bons tempos.

– Você é o único que passou por aqui e sempre volta para conversar comigo, dizia orgulhoso.

Nesta semana de novembro, de um ano atípico, lamentei muito ao tomar conhecimento da sua partida, pelas redes sociais, sem informações do local e da causa mortis. 

Foi embora um homem simples, amigo, pai e profissional, que deixa um grande exemplo de superação com um legado de honestidade, amor a Viana e ao seu trabalho!

Vá em paz, até mais, “Seu Zé”!

2 thoughts to “Adeus, Seu Zé! Um tributo a J R Castro.”

  1. Bela crônica, rebuscada de aspectos sentimentais. Retrata uma Viana paroquial, íntima, pacata, onde belas imagens foram captadas pelas lentes desses icônicos fotógrafos.
    Resgata-las, seria um registro formidável, um documentário.
    Dos três, conheci Baianinho e Źé Branco, quando “seu Zé”, chegou em Viana, já tinha concluído o Ginásio no Antônio Lopes, cursava o científico em São Luis.
    Seu Zé, com segurança, teve ter sido uma pessoa, uma personagem memorável.

    1. Grato pela participação, amigo. Tive o privilégio de conviver com esse grande ser humano e ótimo profissional. Que Deus o receba em paz. Abraço!

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