Para lá do fundo do poço, o que nos espera?

Tempos atrás, quando a crise ainda não era tão dilacerante, questionei aqui se já tínhamos chegado ao fundo do poço ou se o poço não tinha fundo. A poucas horas da decisão sobre o impeachment, me pegunto o que nos espera para lá do fundo do poço, pois não há o menor risco de algo melhorar e nos levar de volta à tona tão cedo, qualquer que seja o resultado de domingo.

Chegamos a este momento crucial da vida brasileira como aquela atleta suiça, Gabrielle Anderson, que foi tropeçando e se arrastando exangue para cruzar a linha de chegada na maratona feminina da Olimpíada de Los Angeles, em 1984.

No mesmo ano, o Brasil enchia as ruas de festa e esperança na campanha das “Diretas Já” para reconquistar o direito de votar para presidente da República, ao final da longa noite da ditadura militar. Agora, assistimos ao movimento assanhado da “Direita Já”, que quer voltar ao poder a qualquer custo, nos remetendo de volta ao período traumático pré-golpe de 1964, como constatou Mino Carta em seu editorial desta semana.

Nestas últimas horas, atingimos o grau máximo de degradação dos usos e costumes políticos, com parlamentares e partidos inteiros mudando de lado, como quem troca de camisa, sem dar a menor satisfação à distinta platéia. Longe dos microfones e dos holofotes, a pátria mãe gentil é leiloada em tenebrosas transações, repetindo a velha canção.

Entre a continuidade do governo Dilma, que já não existe, e o advento de um possível governo Temer, que trás a marca do retrocesso, as pessoas com quem converso, exaustas e desalentadas, ficam em dúvida sobre o que pode ser pior para elas, diante da total falta de perspectivas de uma mudança para melhorar a nossa situação.

Até porque, com uma ou com outro, o Congresso Nacional, o mais medíocre e tacanho que já tivemos após a redemocratização do País, continuará o mesmo, com estas figuras patéticas, que desde ontem e até agora vão se revezando nos microfones da Câmara sem falar coisa com coisa, apenas disputando o espólio da Nação.

Por isso, para não perdermos as esperanças, só vejo um jeito de sairmos desse fundo de poço sem fundo: convocando novas eleições gerais, por iniciativa de quem ficar no Executivo, com a missão de promover uma profunda reforma política-partidária-eleitoral, no mais curto prazo possível. O Brasil não pode mais esperar.

Sei que é sonhar muito alto, mas se perdermos a capacidade de sonhar, a vida fica sem sentido.