Meridiano, o circo que abalou Viana

Nonato Reis*

A chegada de um circo em cidades da zona rural é sempre um acontecimento e nem precisa fazer divulgação para que a notícia se propague como fogo em canavial. Nos anos 70 Viana era uma cidade espremida em seus contornos históricos, isolada do mundo e fechada em si mesma. Exceto alguns bailes de clube, carnaval e festas de radiola, diversão não havia. O futebol ocupava o tempo livre dos homens, cabendo às mulheres engrossarem as torcidas à beira dos gramados.

Eu estudava no Ginásio Bandeirante e vivia preocupado muito mais em tirar boas notas do que qualquer outra coisa. Ainda não tivera uma namorada, para o meu desencanto, que a essa altura acumulara algumas “recusas” da parte daquelas com quem me aventurei ultrapassar o círculo da amizade. Viana era uma terra de mulheres bonitas, mas as que eu desejava habitavam esfera inatingível, já que faziam parte de famílias tradicionais, e eu era um reles mortal.

Foi nesse ambiente de temperatura morna que desembarcou em Viana o Circo Meridiano, uma estrutura de aparência decadente, com lonas velhas e animais mal cuidados, porém com um elenco masculino de dar água na boca das moças e até de senhoras recatadas. Os artistas – se é que poderíamos chamar assim – ostentavam aparência exótica: altos, esguios, cabelos loiros compridos, olhos claros – e o que é pior, ou melhor: tocavam guitarras e faziam um barulho ensurdecedor.

Num piscar de olhos a cidade saiu daquela letargia habitual e passou a viver um clima frenético, de gente entrando e saindo a toda hora das lonas do circo, locutores trepados em velhas rurais e caminhões Chevrolet a rodar pelas ruas, anunciando os espetáculos. Para facilitar o contato com a cidade, os proprietários do circo contrataram Hamilton Garcia, que passou a ser uma espécie de Aspone (assessor de porra nenhuma, na gíria da imprensa) ou, na melhor das hipóteses, porta-voz do grupo. Hamilton, na verdade, um sujeito bem relacionado, fazia a ponte dos “artistas” com a alta sociedade vianense, onde transitava com desenvoltura.

A cidade passou a viver em função da pauta do Meridiano. Havia sessões à tarde e à noite, varando a madrugada, sempre acompanhadas de multidão. Não se falava mais em outra coisa em Viana. Até a vida alheia, antes tão comentada, foi deixada de lado. A elite, então confinada aos suntuosos casarões, deixou o “olimpo dos deuses” e foi para a plateia da Praia Grande, onde o circo fincou lona. Quando os palhaços e trapezistas adentravam o palco as arquibancadas viviam um verdadeiro frenesi, com as damas dando gritinhos de êxtase e os rapazes assobiando num ruído ensurdecedor.

Um dia, sem qualquer explicação, o circo cancelou a programação da noite, prometendo retomar os shows no dia seguinte. Foi uma comoção na cidade e todos – ou quase todos – tiveram que se conformar em dormir mais cedo, enfrentando uma noite de pesadelos, gritos abafados e burburinhos, que ninguém sabia a origem nem o porquê daquilo. No dia seguinte, a cidade acordava e se deparava com o estrago aberto no coração daquilo que tinha de mais precioso.

Um algodoal, que formava espessa cortina ao redor da Gurgueia, na entrada da cidade, parecia ter sido palco de lutas corporais. As árvores arrancadas ou retorcidas e sobre elas dezenas de calcinhas de mulher em tiras, marcadas com sangue. Todos procuravam explicação para aquele cenário de terra arrasada. Acorreram até o Meridiano e no lugar onde fora armado o circo só havia as marcas das estacas fincadas no chão.

O boato que depois varreu a cidade foi que os “artistas” do Meridiano haviam promovido uma pegação geral no matagal da Gurgueia, com mulheres virgens e casadas, separadas, viúvas e até “gatos” (que na gíria do lugar significa prostituta). Mais sinistro: do apetite sanguinário dos tais artistas a elite teria sido a maior vítima. Foi um deus-nos-acuda, um rebuliço dos diabos que manteve a temperatura da cidade em ebulição por meses e até anos.

Um loirinha, que foi o meu objeto de desejo por todo o ginásio, não podia ouvir a palavra “meridiano”, que seus olhos marejavam. Outra, morena clara, que foi minha professora, tinha crises de histeria do nada e se danava a esculhambar os meninos do circo. E teve até o caso de uma senhora casada, que largou o marido para, segundo as más línguas, ir morar com o dono do circo no Paraguai.

O certo é que o trauma da orgia foi terrível. Muito tempo depois, quando alguém dizia “Lá vem Meridiano!” era comum fazer o sinal da cruz, fechar portas e janelas e, caso mulheres se encontrassem na rua, saírem em desabalada carreria, à procura de abrigo. O Meridiano fez história em Viana. Com sangue na veia.

*Jornalista – Crônica escrita em 02/03/2017

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