“A fome não espera o peixe crescer”, diz pescador da Baixada

Surubins minúsculos, vendidos nos mercados de Viana.

A frase acima, extraída dos segundos finais de uma matéria televisiva sobre a estiagem na baixada maranhense ilustra bem o desespero das famílias ribeirinhas e, por tabela os apreciadores de peixes da água doce.

Em Viana, nos dois principais pontos de venda, na antiga “Praia”, às margens do lago ou no Centro de Abastecimento, na barra do Sol, dificilmente vão ser encontrados espécies como o Curimatá, Aracu, Pescada Branca, Piranha ou Surubim, em tamanhos ou pesos satisfatórios para consumo, como era até o final da década de oitenta.

Antiga “Praia”- Viana

De lá para cá, a população vianense praticamente triplicou e com ela o consumo nunca mais permitiu o crescimento do pescado. E, para piorar, as condições climáticas, a devastação, a poluição e todos os tipos de agressões à natureza, castigaram impiedosamente o Rosário de Lagos do Maracu e todo o ecossistema da Baixada Maranhense.

Diante de uma frágil e ineficiente fiscalização do Ibama, a nossa fauna também foi dizimada, praticamente extinguindo das nossas paisagens as costumeiras revoadas de japiaçocas, marrecas, garças, jaçanãs, entre outros.

E, se as famílias ribeirinhas sofrem com a fome e a estiagem, fica praticamente impossível respeitar o período de defeso (piracema) para os peixes se reproduzirem e crescerem.

Espécies misturadas (peixe de Piracema) sem tempo para crescerem

Nem as espécies mais adaptadas aos poções de água barrenta como a traíra, o jeju, acará, o cascudo (nomes popularmente conhecidos) escapam das armadilhas implacáveis de quem mais precisa, e sai de casa e precisa voltar com o sustento da prole.

Os governos, estadual e municipal, tentam correr contra o tempo. Tempo de abandono, de omissão e descaso com a Baixada. Está prometido uma construção de diques, que pretende evitar a invasão da água salgada em nossos campos, outro fator negativo que compromete a reprodução de peixes.

Em algumas cidades vizinhas, já é notório a criação de comercialização de peixes e camarão em cativeiro, prática que a prefeitura de Viana já está incentivando e colocando em prática, por meio de cursos e convênios. E haja tambaqui ou tambacu!

Embora os apreciadores nostálgicos reclamem um pouco do sabor, ou da falta deste, no sagrado peixe da água doce, ainda vamos continuar por um bom período aguardando na beira do tanque pelo crescimento desse alimento, pois, como afirmou o pescador acima, com toda humildade, se o dinheiro pode comprar onde for encontrado, para ele, o mais importante é alimentar a família, seja lá qual for o tamanho ou o dia de pescar. Reitero que isto é um alerta e uma constatação. Longe de desejarmos que a lei do defeso seja infringida, mas…

…o que importa é o peixe na mesa, pois como disseminou o sociólogo Betinho, idealizador do programa Fome Zero: – “quem tem fome tem pressa!”

Por Luiz Antonio Morais (republicação)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *