Trancoso, o homem que salvava vidas

Nonato Reis*

Viana tem uma dívida impagável com Marcelino José Trancoso, o médico e farmacêutico que, mesmo sem diploma acadêmico, cuidou da saúde de meio mundo naquelas redondezas e livrou da morte outros tantos, praticamente à beira da sepultura. Isso num tempo em que não serviço de saúde pública na cidade e os remédios eram manipulados em farmácias improvisadas com baldes de zinco, tigelas de cerâmica e depósitos de vidro.

Corria a primeira década do século XX. Natural de Rosário, Marcelino Trancoso chegou em Viana ainda jovem, para se estabeler em uma quinta às margens do Igarapé do Engenho, no lugar onde, quase dois séculos antes, os jesuítas da Missão de Conceição do Maracu ergueram a fazenda São Bonifácio, maior empreendimento agropecuário da região, com 20 mil cabeças de gado, engenhos de açúcar e áreas próprias para o cultivo de cana, milho, arroz, mandioca e feijão.

Para quem não sabe, a fazenda São Bonifácio do Maracu é considerada marco inicial da colonização de Viana. Além da casa grande, havia uma igreja, erguida na margem oposta do Igarapé do Engenho, onde os inacianos faziam as suas orações e prestavam louvores ao Senhor. 

Nos fundos e ao lado da igreja, construíram dois cemitérios, um para crianças e outro para adultos (este denominado de Cemitério dos Tamarindeiros, guarnecido por dois grandes exemplares da espécie).

Trancoso era atlético, “de voz rouca e velada”, na definição de Sálvio Mendonça, em seu livro “História de um menino pobre”. Visitava os pacientes a domicílio todos os dias pela manhã, montado a cavalo, como se fosse um coronel das antigas, calçado com botas altas, usando esporas e rebenque.
Diagnosticava as doenças apenas pelo tato e mediante o exame físico dos olhos. Dificilmente errava o diagnóstico e seus remédios pareciam revestidos de poderes mágicos.

Mas não apenas clinicava, como também fazia intervenções cirúrgicas. Às vezes, apenas de posse de um canivete ou de uma serra, lancetava tumores, abria incisões, amputava dedos e até membros.

Do horto cultivado em sua quinta, preparava fórmulas diversas, às quais dava nomes engraçados e até inusitados, como “o peitoral de urucu”, para úlceras; o “lambedor de jurubeba”, para prisão de ventre, o “sumo de são caetano”, para hemorroidas; e até as “pílulas arrebenta pregas”, cuja finalidade dispensa explicações.

Para as populações ribeirinhas ao longo do Igarapé do Engenho e até da cidade, Trancoso era quase uma divindade, reverenciada e temida (por suas previsões fúnebres). Se despachava o enfermo, os familiares podiam preparar o óbito. Mas era capaz de dar vida ao moribundo, e em pelo menos três situações fez o doente levantar praticamente à beira da sepultura.

Como o caso do homem que perdeu peso e cor de repente. Ficou branco feito uma vela, a barriga cresceu, não comia mais nem bebia. O desenlace parecia iminente. Chamado às pressas, Trancoso olhou o doente nos olhos e decretou: “você não vai morrer, pelo menos agora”.
Depois mandou providenciar uma bacia com leite morno ao meio, ordenou a todos que se retirassem do quarto e instou o sujeito a ficar nu de cócoras sobre a bacia, sem olhar para baixo. “Só levante quando eu mandar!”. Meia hora depois, jazia na bacia uma cobra imensa, medindo sete metros de comprimento. “Era isso o que te matava!”.

De outra feita, Trancoso participava de uma vaquejada na Palmela. Uma adolescente negra brincava de pular sobre mesas com garrafas de bebidas. O pé dela bateu em uma garrafa, o corpo desequilibrou e ela caiu em cambalhotas. No choque com o chão, a garrafa de vidro quebrou e uma parte dela, feito lança, atingiu a barriga da menina, rasgando-a de cima a baixo, deixando à mostra as vísceras que se misturaram a fezes de animais sobre o chão.

Trancoso mandou que providenciassem agulha e fio, e ali mesmo, com a mesa improvisada de centro cirúrgico, limpou as vísceras, recoloco-as na cavidade abdominal e costurou a barriga da menina, que sobreviveu por milagre, livre de infecções.
Ao comentar o caso, Sálvio, então médico formado, atribuiu o feito à forte estiagem da região, que expunha o solo à ação direta dos raios solares. Naquela condição, segundo ele, os riscos de infecção se reduziam drasticamente.

Porém o caso mais rumoroso que deu à figura de Trancoso ares de mito foi a de um vaqueiro que, após um mal estar súbito, veio a óbito. Chamado para a sentinela, Trancoso, como sempre o fazia, aproximou-se do defunto e tentou abrir suas pálpebras, para o exame visual dos olhos. Depois, de posse de um espelho virgem, pressionou-o sobre o nariz do falecido.

Ao retirá-lo, após alguns minutos, Trancoso notou gotículas sobre o vidro. Então, pegou um tijolo e o colocou no fogo até ficar vermelho em brasa. Enrolou-o a um pano e o colocou sob a planta dos pés do morto, que na mesma hora deu um berro medonho e pulou fora do caixão, deixando a plateia em polvorosa. Perplexo, o povo tratou de fugir para o mato.

Trancoso, na maior calma, o olhar grave, explicou depois que aquilo nada tinha de sobrenatural. “É uma doença pouco conhecida, que paralisa os órgãos do paciente e dá a impressão de que ele está morto. O risco é que, por ignorância, acabem por enterrá-lo vivo”.
Nos anos 70, quando o ator Sérgio Cardoso, após um ataque de catalepsia, foi dado como morto e assim sepultado, o Ibacazinho evocou a memória do velho farmacêutico. Tivesse o galã da TV um Trancoso por perto, dificilmente teria morrido em condições bizarras.

*Jornalista

AVL presente no aniversário de 260 anos de fundação de Viana

Praça da Matriz – Catedral de Nossa Senhora da Conceição

Viana é a quarta cidade mais antiga do Estado do Maranhão e teve sua origem na aldeia Guajajara de Maracu. Seu povoamento se inciou em 1683, às margens do Lago Maracu, quando os jesuítas fundaram a Missão Nossa Senhora da Conceição do Maracu. Posteriormente, em 8 de julho de 1757, elevada à categoria de Vila, a “Vila de Viana”, em homenagem à cidade portuguesa de Viana do Castelo.

A Vila de Viana foi instalada em 8 de julho de 1757, sob o reinado de D. José I, Rei de Portugal, e sob o governo de Gonçalo Pereira Lobato e Sousa, governador da Capitania do Maranhão. Ao ser fundada, a Vila de Viana possuía 300 habitantes. A organização política era regida pelo direito português, com direção da Câmara, que acumulava as funções administrativa, judicial, fazendária e polícia.

A Vila alcançou o status de cidade na data de 1855, através da Lei Provincial nº 377, datada de 30 de junho, atingindo, cinco anos depois, a população de mais de oito mil habitantes. A cidade alcançou o apogeu comercial em meados do século 19, principalmente em decorrência da lavoura do algodão, arroz, milho e mandioca. Todavia, a partir do início do século 20, Viana enfrentou um gradativo declínio econômico, notadamente em face da queda da exportação do algodão, da abolição da escravatura e do crescimento dos transportes ferroviário e rodoviário.

Pôr do sol no Lago de Viana – Foto Geraldo Costa

Na cultura, o município possui uma tradição rica e marcante na história do Maranhão, com destaque para inúmeras personalidades ilustres, a exemplo dos patronos da Academia Vianense de Letras: Antônio Lopes (Cadeira nº 1); Edith Nair Furtado da Silva (Cadeira nº 2); Astolfo Serra (Cadeira nº 3); Sálvio Mendonça (Cadeira nº 4); Padre Manoel Arouche (Cadeira nº 5); Temístocles Lima (Cadeira nº 6); Frei Antônio Bernardo da Encarnação e Silva (Cadeira nº 7); Padre João Mohana (Cadeira nº 8); Dilú Mello (Cadeira nº 9); Estêvão Carvalho (Cadeira nº 10); Raimundo Lopes (Cadeira nº 11); Celso Magalhães (Cadeira nº 12); Nilton Aquino (Cadeira nº 13); Travassos Furtado (Cadeira nº 14); Anica Ramos (Cadeira nº 15); Miguel Dias (Cadeira nº 16); Onofre Fernandes (Cadeira nº 17); Manuel Lopes da Cunha (Cadeira nº 18); Ozimo de Carvalho (Cadeira nº 19); Dom Francisco Hélio Campos (Cadeira nº 20); Faraíldes Campelo da Silva (Cadeira nº 21); Egídio Rocha (Cadeira nº 22); João de Parma (Cadeira nº 23); Enedina Brenha Raposo (Cadeira nº 24); Raimundo Nogueira (Cadeira nº 25); Padre Constantino Vieira (Cadeira n° 26); Josefina Cordeiro Cutrim (Cadeira n° 27); Raimundo de Castro Maya (Cadeira n° 28); Padre Eider Silva (Cadeira n° 29); Zeíla Lauleta (Cadeira n° 30); Dom Hamleto di Angelis (Cadeira n° 31); Benedita Balby (Cadeira n° 32).

A bandeira de Viana, símbolo maior do município, é de autoria do patrono da Academia Vianense de Letras João de Parma Montezuma da Silva, sendo criada através da Lei Municipal nº 112, de 7 de fevereiro de 1919, possuindo as cores branca, azul e verde, representando, assim: “a branca, a limpidez das águas do nosso formoso lago; a verde, a cor dos nossos belíssimos campos; e azul, a cor do céu”.

O escudo do Município também foi idealizado por um patrono da AVL, o pintor Nilton Aquino, sob encomenda do então presidente da Câmara Municipal de Viana, Ozimo de Carvalho, sendo oficializado por decreto do então prefeito Luís de Almeida Couto, conforme o artigo 284 da Lei nº 19 de 7 de setembro de 1949. O desenho original recebeu uma nova roupagem colorida pelo pintor vianense Moisés Pereira.

A parte superior do escudo possui moldura de paisagens de Viana. No centro, um índio Guajajara. Do lado direito, a antiga Missão Nossa Senhora da Conceição do Maracu. Na parte inferior, do lado esquerdo, encontra-se um engenho de açúcar. Do lado direito, a representação da agricultura moderna e produtiva, simbolizada pelo trator arando a terra. Na base do escudo, o babaçu e o arroz, riquezas da região.

Viana, assim como São Luís, Alcântara, Carolina e Caxias, possui patrimônio histórico tombado pelo Estado, através do Decreto Estadual nº 10.899, de 17 de outubro de 1988, porém, com o passar dos anos, Viana vem sofrendo intensa dilapidação do seu patrimônio arquitetônico, com alguns prédios em ruínas e até demolidos, como a casa de Ozimo de Carvalho, hoje existente apenas o terreno que é objeto de doação pela Prefeitura Municipal à AVL, para construção preservando os moldes arquitetônicos originários.

Em 2015, Viana foi eleita a 4ª melhor cidade de pequeno porte para viver no país, segundo a edição especial da revista “ISTO É” que traz o ranking “As melhores cidades do Brasil 2015”, que analisa um conjunto de indicadores nas áreas fiscal, econômica, social e digital. Viana se destacou no item “mercado de trabalho”.

O turismo também é um atrativo da cidade, uma vez que Viana possui uma paisagem única que contempla planície de campos, espelhos de água cristalinas de lagos, enseadas, rios, igarapés, além de morros, ilhas e ilhotas.

Segundo dados do IBGE, em 2016, Viana possuía a população estimada em 51.503 habitantes, porém esse crescimento populacional ocorreu sem o devido planejamento urbano, merecendo, por isso, a Cidade de Viana uma atenção especial da sociedade.

Nesse viés, a Academia Vianense de Letras consolidou o desenvolvimento de atividades básicas e primordiais de defesa da cultura e de valorização de nossa Cidade, inclusive desenvolvendo ações em defesa do meio ambiente (incluindo questões relevantes à sociedade vianense, como, entre outras, a perenidade dos lagos e a pesca na região) e do patrimônio histórico, dando sua contribuição para a recuperação de obras religiosas e da Igreja da Matriz.

E, assim, a Academia Vianense de Letras tem se feito presente na cidade, aproximando-se cada vez mais da população e contribuindo, especialmente, nas áreas da Educação e Cultura, a exemplo do Convênio de Cooperação Técnica firmado com o Executivo Municipal, Prefeito Magrado Barros, na Sessão Solene Comemorativa dos 15 anos da Academia, bem como tantas outras ações que serão realizadas no biênio, em cooperação técnica.

A AVL participará, apoiando o Município de Viana, da Marcha Cultural, a realizar-se na próxima sexta-feira, dia 7 do corrente mês, a partir das 16 horas, quando, no Parque Dilú Melo, serão desenvolvidas várias apresentações culturais envolvendo os estudantes da rede pública municipal de Viana, abrangendo também as escolas públicas da zona rural. Finalizando, assim, o Projeto da Semana da Arte Moderna, da Secretaria Municipal de Educação/Cultura.

Temos muito a comemorar no próximo dia 8 de julho, data em que serão celebrados os 260 anos de fundação de Viana.

Nessa data esperamos receber a sanção pelo Executivo Municipal do Projeto de Lei nº 013/2017, aprovado pela Câmara Municipal por unanimidade, autorizando a doação à Academia Vianense de Letras do terreno localizado na Rua Professor Antônio Lopes, local em que morou o patrono Ozimo de Carvalho. Onde, em breve, será construída e instalada a sede da AVL.

São muitos os desafios a serem vencidos. E acreditamos que com a parceria firmada com o Executivo Municipal, somaremos forças para impulsionar a cada dia o desenvolvimento da cultura no Município de Viana.

Maria de Fátima Rodrigues Travassos Cordeiro

(Presidente da Academia Vianense de Letras).

Baixada Maranhense e o Instituto Histórico

Sobrado Amarelo, em Viana-MA – descaso e abandono

Nonato Reis*

A Baixada Maranhense é uma região historicamente esquecida das instâncias de decisão. Hoje bem menos do que no passado, é verdade, porque agora existe a malha rodoviária que permite a integração física entre as cidades e os vilarejos com a capital e os demais centros urbanos do País. Antes tudo eram trevas. Ao descaso dos gestores públicos somava-se o isolamento geográfico. As ligações com São Luís só se davam por meio de lanchas e vapores, navegando rios e mares em viagens que duravam até oito dias.

Viramos algumas páginas desse livro sombrio, mas o cerne da questão permanece: a marginalização política -, como um garrote a condenar ao atraso aquela vasta região de rios, lagos, campos e florestas, repositório de uma história belíssima, até hoje contada apenas por esparsos capítulos, frutos da iniciativa isolada de alguns de seus filhos mais brilhantes.

Antes se dizia que a Baixada precisava eleger representantes nos parlamentos em São Luís e Brasília, para que assim pudesse ser inscrita no mapa das políticas públicas do Estado e da União. Nas últimas décadas elegeram-se dezenas de deputados estaduais e federais egressos da Baixada. Criou-se uma frente política na Assembleia Estadual em defesa da região. Tivemos até um Presidente da República, filho de Pinheiro ou São Bento (Sarney afirma ser de Pinheiro, mas sua biografia conta que ele nasceu num lugarejo pertencente a São Bento). E em que isso serviu para mudar o horizonte da Baixada?

De concreto, nada. Existe um projeto denominado “Diques da Baixada”, criado no âmbito do governo federal que, se executado tal como no papel, pode ser a redenção da região. Um dos maiores gargalos do desenvolvimento regional é o fenômeno da salinização, que significa o avanço das águas salgadas sobre os estoques de água doce, que no verão se reduzem drasticamente, permitindo a contaminação dos lagos, rios e lençóis freáticos, pela água que vem do Golfão Maranhense, o que gera um rastro de destruição sobre a fauna e a flora lacustres.

Há também, no âmbito do Estado, uma versão tupiniquim desse projeto, denominado “Diques de Produção”, que possui objetivos menos ousados, e compreende a construção de barragens entre tesos próximos um do outro, para controlar a entrada de água salgada nos rios e lagos. Some-se a isso a elaboração, pelo governo estadual, de projetos nas áreas de psicultura, pecuária, agrícola e até de beneficiamento de alguns produtos típicos da região.

De um modo geral, os diques são importantes porque tratam essa questão de forma científica, fazendo com que a água doce, por meio de um sistema de comportas, permaneça o ano todo em bom nível nos cursos naturais, em benefício das populações que residem às margens dos rios e dos lagos e vivem da pesca, da caça e da agricultura de subsistência. Em que pese os esforços políticos para alavancar o conjunto de ações previstas, o projeto ainda é visto com desconfiança.

E por que isso ocorre? Porque falta uma ação conjugada entre poder público e sociedade – sociedade aqui entendida em sua forma organizada. Não adianta criar bons projetos se não houver a força intermediadora dos organismos sociais, que têm o papel de ouvir a população, discutir com ela, encaminhar propostas e fazer pressão nas diversas instâncias de poder, para que sejam efetivadas. É assim que as coisas funcionam no regime democrático.

Muitos municípios da Baixada já dispõem de academias de letras, que vejo como fóruns importantes do conhecimento acadêmico. Mas até aqui elas funcionam naquele formato anacrônico de reuniões fechadas e improdutivas. É importante que as academias se reformulem na sua concepção original, e de organismo estático e ausente passem a atuar como uma força viva da sociedade, criando ideias, cobrando soluções, fazendo a interlocução com as prefeituras e os demais poderes.

Também há que se destacar a criação do Fórum em Defesa da Baixada, formado por luminares de diversas áreas de atuação, todos amantes da região e dispostos a criar mecanismos que ajudem a melhorar a vida das populações. Atualmente o Fórum se dedica a desenvolver o projeto de um livro de crônicas, com temáticas e personagens da Baixada.

A Baixada Maranhense já foi uma região importante nos seus primórdios, tendo sido alvo da ação de padres jesuítas e aventureiros espanhóis que para cá vieram – alguns antes mesmo do Descobrimento – atraídos pelos relatos da existência de minas de ouro ao longo da bacia do Turiaçu. Não por acaso a missão de Conceição do Maracu, que deu origem à cidade de Viana, instalou-se em terras do Ibacazinho, como estratégia para explorar o território sob influência do rio Turiaçu e granjear riquezas.

Assim vejo a Baixada sustentada em dois pilares fundamentais: um de natureza histórica, importantíssimo; e outro que aponta para o desenvolvimento de uma região, que por séculos ficou imersa no esquecimento. Como contribuição, proponho a criação de um Instituto Histórico e Geográfico da Baixada, com a missão de resgatar esse vasto patrimônio cultural e elaborar políticas que valorizem e estimulem ações voltadas para o contexto da Baixada Maranhense.

Um exemplo prático seria contatar autores e estudos sobre ícones e personagens da região, sistematizar esse conhecimento por meio de publicações, viabilizar a edição de livros, articular com as prefeituras a inclusão de disciplinas sobre história da Baixada nos conteúdos curriculares das escolas municipais. Por enquanto o IHGB é uma ideia embrionária, mas que pode criar formas e ajudar a resgatar esse rico patrimônio para as gerações futuras. Fecho com “Prelúdio”, a bela música de Raul Seixas. “Um sonho que se sonha só/é só um sonho só/ mas sonho que se sonha junto é realidade”.

*Jornalista

Viana e mais 11 municípios são contemplados com o Mais Asfalto

 

Programa Mais Asfalto foi lançado em 12 municípios nesta segunda-feira. Foto: Divulgação

Foi dada a largada a mais uma etapa do Programa Mais Asfalto em várias cidades do Maranhão nesta segunda-feira (3).  Enquanto o secretário de Estado de Comunicação e Assuntos Políticos, Márcio Jerry, esteve nos municípios de Presidente Dutra e Graça Aranha, outros secretários se distribuíram por 10 cidades de diversas regiões do Maranhão iniciando, simultaneamente, a pavimentação de ruas e avenidas. Nesta segunda edição do Programa, executado pela Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra), 100 municípios serão beneficiados, alcançando o volume total de investimento de R$ 170 milhões.

Os 12 Municípios que iniciaram o programa simultaneamente nesta segunda-feita foram: VIANA, Paulo Ramos, Presidente Dutra, Graça Aranha, Matões do Norte, Urbano Santos, Santa Luzia do Tide, Tufilândia, Alto Alegre do Pindaré, Vitória do Mearim,  Balsas e Codó. Nos municípios de São João do Sóter, Esperantinopólis, Imperatriz, Açailândia e Arame já tem obras em andamento.

Todo o Governo está envolvido, com presença de gestores de pastas e titulares de órgão no municípios para acompanhar o início dos serviços e ainda visitar as comunidades, conversar com as Prefeituras e ouvir a população. “Estamos passando e superando a grave crise econômica que o país atravessa e, apesar disso, o governador Flávio Dino vem conseguindo fazer obras importantes e estruturantes em todas as áreas. Hoje, estamos no início de mais uma grande importante ação do Governo do Estado, que é o Mais Asfalto, já chegando, neste mesmo momento, à 12 municípios e chegarão a outros, progressivamente, para que a gente consiga melhorar ainda mais as condições de vida da população maranhenses”, destacou Márcio Jerry, que esteve acompanhado, nas cidades por onde passou, dos secretários de Estado da Educação, Felipe Camarão, e de Trabalho e Economia Solidária, Julião Amim.

O Mais Asfalto é um programa permanente do Governo Flávio Dino, embora não seja uma responsabilidade fundamental do Governo do Estado cuidar do asfaltamento, manutenção , conservação e melhorias de ruas e avenidas, tem sido uma colaboração às gestões municipais com a intenção de garantir, assim, melhorias aos maranhenses.

Programa Mais Asfalto foi lançado em 12 municípios nesta segunda-feira. Foto: Divulgação

“A nossa responsabilidade é cuidar das rodovias, como temos feito, aliás, com mil quilômetros de novas rodovias e dando conservação em 2 mil km, desde 2015. Mas nós sabemos da importância e necessidade de ajudar na urbanização das cidades e o Asfalto é um item importante porque retira poeira e lama da porta da casa das pessoas, propicia o acesso a serviços públicos, garante o direito de ir e vir das pessoas e ainda gera emprego e renda durante a execução das obras”, destacou o secretário de Estado de Infraestrutura, Clayton Noleto.

Na primeira fase do Programa foram realizados 1300 km de asfaltamento de ruas e avenidas em todas as regiões do Maranhão. Desta vez, segundo o secretário Clayton, foram priorizadas as cidades que ainda não receberam anteriormente e os maiores municípios, porque há uma maior demanda da população.

Os prefeitos tem agradecido a parceria do Governo do Estado para melhorar as vias urbanas. Em Presidente Dutra, por exemplo, o prefeito Jurandyr Carvalho, comemorou o apoio dado. “Só temos a agradecer ao Governo por estar contemplando com 7km de asfaltamento nossa cidade. Vão recapear várias ruas de Presidente Dutra e isso nos dá uma satisfação imensa, porque nós, presidutenses, sentimos que há realmente essa parceria com o Governo do Estado”, afirmou o gestor municipal.

Quem realmente é beneficiado com este investimento é a população, o comerciante Jocy Barbosa, tem 68 anos, nasceu em Graça Aranha e ficou contente com com a pavimentação chegando na porta do seu estabelecimento. “Este asfalto nos traz progresso e muitas melhorias. Aqui na minha rua, que hoje é de barro, vai ficar excelente”, vibrou o morador.

 

A Camboa encantada do Rio Maracu

Ilustrativa – google

Por Nonato Reis*

De todas as modalidades de pesca, a Camboa era a que mais me atraía, não porque fosse, necessariamente, eficiente, mas por ser feita de forma coletiva, o que propiciava brincadeiras e vadiagens. Consistia em percorrer a bordo de canoas uma extensão delimitada do rio Maracu, com as embarcações em fila de uma margem e de outra, até formar um círculo, sobre o qual eram lançadas as redes a um só tempo, de tal modo que todos os espaços da água fossem ocupados pelas armadilhas.

Na Camboa existem os ponteiros, em número de dois – um para cada lado – que servem de guias, determinando a direção a ser percorrida e também a velocidade do comboio. Cabe ainda aos guias manobrarem as canoas no tempo certo, para a formação do círculo, onde se presume haver a maior concentração de peixes.

Eu adorava servir de guia, porque era a função mais importante na pescaria, e também por me permitir fazer demonstrações de habilidade com a vara ou com o remo, instrumentos utilizados para impulsionar as canoas.

A propósito, em Viana na época da Ascensão de Cristo, no mês de maio, havia torneios de remo e vara e aos ganhadores eram concedidas medalhas de primeiro, segundo, e terceiro lugares, e também de troféus de honra ao mérito para os participantes.

À época em que vivi no Ibacazinho, dois canoeiros eram considerados imbatíveis: Zé Brito e Raimundo da Palmela. Ambos ganhavam a vida como vaqueiros, mas também transportando gente e mercadoria em canoas do Ibacazinho para Viana e vice-versa. Não raro, sem concorrentes à altura, eles próprios disputavam entre si corridas do povoado e à cidade, num percurso de quatro quilômetros sobre as águas, para o deleite dos expectadores.

A Camboa dava a oportunidade de conviver com todos e partilhar as delícias da pescaria. Essa modalidade de pesca foi herdada das tribos de índios que habitavam as margens do Maracu, conhecidos como exímios pescadores. O costume foi transmitido de geração a geração e alcançou a segunda metade do século XX envolto numa mescla de misticismo.

A estória que corria no povoado é que havia uma Camboa noturna sobrenatural, que percorria o Maracu na lua nova, quando o rio ficava às escuras. No inverno a lua nova era o período propício para a pesca em anzol do bagrinho, um peixe de couro que mede não mais do que 20 centímetros, muito apreciado pelos ribeirinhos.

A Camboa do Além, como era chamada, cruzava o rio após a meia-noite, e assim, para fugir dela, os pescadores tratavam de lançar as redes e os anzóis logo à boca da noite e recolherem-se antes da meia-noite. De casa, deitado em uma rede, muitas vezes ouvi aquele som característico do atrito das tarrafas sobre a água, todas lançadas ao mesmo tempo. Com o corpo arrepiado, eu me benzia, rezava um Pai-Nosso, e tratava de esquecer aquilo.

Um dia, porém, algo escapou do roteiro. Eu e um primo havíamos ancorado a canoa no Pesqueiro do Seu Romualdo, que ficava na margem oposta do rio, ao lado da casa de Raimundo Muniz, irmão de Marcos. Devia ser umas 8 da noite, mal apagara a lamparina e déramos início à pesca do bagrinho, fomos despertados com o barulho de remos e varas empurrando canoas.

Prestei atenção e vi que se aproximava de nós uma Camboa gigante com dezenas de embarcações. Quando chegaram em frente ao pesqueiro, os guias manobraram um ao encontro do outro, fechando o círculo. Ato contínuo, gritaram “arreia”! (que era o sinal característico) e todos lançaram as redes num barulho ensurdecedor.

Imaginando tratar-se de gente do povoado, icei a canoa para o meio do rio, ao encontro dos prováveis parceiros de pescas, mas, para o espanto meu e do primo, as águas do Maracu estavam límpidas e serenas. Não havia qualquer sinal que indicasse ali a presença de quem quer que fosse.

Com os pelos do corpo eriçados, eu e meu primo olhamos para o céu estrelado sem lua: tudo era brilho e silêncio. Até que uma estrela cadente riscou o espaço negro e caiu rente à popa da canoa. Remei decidido para a outra margem. Ao alcançá-la, tarrafas atrás de mim foram arremessadas outra vez, todas a um só tempo. Olhei em volta: o rio parecia dormir o sono dos justos.

*Jornalista

O Rio Maracu e suas águas místicas

Por Nonato Reis*

O rio Maracu não é um rio qualquer, não é um rio normal, pelo menos não na definição convencional de um curso natural de água doce. É como se em um mesmo canal coexistissem dois rios – um que se estende à vista de todos, como uma ponte fluvial entre os lagos do Aquiri e de Cajari; e o outro metafísico, que só a alguns é dado conhecer, que nasce nas entranhas da imaginação e deságua num estuário de medo e misticismo.

Falar do primeiro rio é simples e, afora a beleza geográfica do lugar, não há nada que desperte o olhar de admiração do leitor. Hoje, massacrado pela ação irracional do homem e a omissão descarada do poder público, o Maracu agoniza e, a permanecer o descaso, pode desaparecer do mapa aquático do Maranhão dentro de poucos anos. Existem passagens de terras em vários pontos do seu leito e a mata ciliar que protegia suas margens praticamente desapareceu.

Feito esse registro que se impõe como um imperativo de consciência, passo a me ocupar com o outro Maracu, o sobrenatural, palco de histórias escabrosas ocorridas à sombra da noite, desde tempos imemoriais. Como se sabe, as margens do rio, na altura do Ibacazinho, eram habitadas nos primórdios por tribos indígenas, que viviam da pesca e da agricultura rudimentar. Com a chegada dos jesuítas, atraídos para a região pelos relatos da existência de minas de pedras preciosas ao longo do bacia do Turiaçu, foi edificada a fazenda São Bonifácio do Maracu, marco da colonização de Viana.

Ao contrário do que muitos imaginam, os jesuítas não tiveram vida fácil na missão de Conceição do Maracu. Especialmente, pela revolta de colonos diante dos privilégios que os missionários recebiam da Coroa Portuguesa, na forma de isenções fiscais e no controle da utilização de mão de obra indígena. Os colonos, escaldados com o alto preço cobrado pela aquisição de negros, tentavam escravizar os índios, no que enfrentavam a dura resistência da batina.

Os jesuítas usavam de dois pesos e duas medidas. Para os colonos, impunham severas restrições para a utilização dos índios como mão de obra, mas eles próprios os escravizavam, a pretexto de catequizá-los. Isso acabou gerando enormes conflitos na relação de padres, colonos, negros e índios.

Não raro cometiam assassinatos de emboscadas e os corpos eram atirados no leito do rio, para evitar a sua elucidação. Isso deu a energia quântica para a transformação do rio em palco de aparições de espíritos e registros apavorantes, o mais famoso deles o de um gritador que infernizava o povoado na calada da noite.

Os mais velhos contam que, antigamente, toda sexta-feira de lua cheia, ouviam berros agonizantes das profundezas da terra. Poucos se atreviam a cruzar o rio após a meia-noite e esses que, por descuido ou necessidade, quebravam a regra, contavam histórias tenebrosas. Como a do vaqueiro que, tarde da noite, precisou ir à cidade à procura de um remédio para a mulher, picada por uma serpente venenosa.

Na volta, ao aproximar-se do rio, foi surpreendido com gritos medonhos, que pareciam vir da direção da Palmela. Sentiu que aquilo não era deste mundo, não podia ser. Escondeu-se atrás de um pé de algodão, rente à linha da água. Os berros se aproximavam rapidamente e ele notou que ao invés de um eram dois gritadores, como se duelassem entre si. Uma ventania varreu as margens do rio, arrancando árvores e arbustos, provocando ondas enormes que se debatiam contra os barrancos.

De repente dois touros com chavelhos em brasa surgiram na boca do rio, numa luta sanguinária, um devorando o outro, rasgando a carne, mastigando os ossos, o sangue jorrando em profusão. Atracados, os animais caíram na água e desapareceram formando um redemoinho gigante, que espalhou água a metros de altura. No silêncio que se seguiu uma voz agonizante ecoou do fundo do rio, num espasmo de dor, que pareceu explodir os miolos do vaqueiro: “Não me mata, seu desgraçado!!!”.

*Jornalista

Diques da baixada: Codevasf contrata estudo de impacto

 

Sistema de diques, que permitirão a contenção de água doce durante a estação chuvosa, deverá beneficiar 193 mil pessoas em oito municípios da Baixada Maranhense; aumento da oferta hídrica deverá contribuir para a redução da pobreza

Relatório de impacto ambiental e levantamento cartográfico serão realizados para viabilização do projeto (Foto: Divulgação/Codevasf)

A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) está em processo de contratação de cerca de R$ 7,4 milhões em serviços relacionados aos projetos dos Diques da Baixada Maranhense. A elaboração do Estudo de Impacto Ambiental do projeto, e de seu respectivo Relatório de Impacto Ambiental, foi estimada em R$ 3,6 milhões. Os serviços de levantamento cartográfico, por sua vez, foram estimados em R$ 3,8 milhões.

O projeto Diques da Baixada Maranhense é um sistema composto por dois diques com extensão conjunta de cerca de 70,45 quilômetros, a ser implantado na região da Baixada Maranhense. Ele deve ser capaz de acumular 600 milhões de metros cúbicos d’água e pode beneficiar 193 mil pessoas em oito municípios.

Os diques permitirão a contenção de água doce durante a estação chuvosa. As estruturas deverão armazenar a água que provém de uma precipitação média de 2.000 milímetros de janeiro a junho – e que no restante do ano é praticamente zero. O aumento da oferta hídrica deverá contribuir para a redução da pobreza e do êxodo rural na região, propiciando alternativas de trabalho e renda para as populações de Bacurituba, Cajapió, Matinha, Olinda Nova do Maranhão, São Bento, São João Batista, São Vicente Ferrer, Viana.

Além de prover água para consumo humano, os Diques ampliarão o período de pesca artesanal, saciarão a sede de criações animais e poderão disponibilizar água para a agricultura familiar irrigada e para pastagens de pecuária leiteira. Eles também darão viabilidade à circulação de canoas e suas estruturas devem possibilitar tráfego leve (bicicletas, motocicletas e carroças, por exemplo).

“São inúmeros os benefícios socioeconômicos que essa obra vai gerar. Podemos citar, por exemplo, o aumento da disponibilidade hídrica para abastecimento humano, dessedentação animal, pesca artesanal, agricultura familiar irrigada e piscicultura, o que pode acarretar o aumento da oferta de alimentos na região e a redução da pobreza rural”, comenta o superintendente regional da Codevasf no Maranhão, Jones Braga.

Outros benefícios esperados com a implantação dos diques são: proteção das áreas mais baixas contra a entrada de água salgada em região de água doce; contenção e armazenamento de água doce originária da estação chuvosa nos campos naturais; aumento da disponibilidade de água no período de estiagem; desenvolvimento do setor primário; criação de cerca de 3.300 postos de trabalho; redução do êxodo rural; incremento da produção agropecuária e da piscicultura; e promoção da cidadania e inclusão social.

Estudo e levantamento

O Estudo de Impacto Ambiental é um documento que apresenta uma série de informações, levantamentos e estudos destinados a permitir a avaliação dos efeitos ambientais resultantes da implantação e operação do empreendimento proposto – o prazo de realização dos serviços é de 24 meses contados a partir da emissão da Ordem de Serviço. Já o levantamento cartográfico oferece informações sobre a superfície terrestre das áreas envolvidas na implantação do projeto – o prazo de execução é de 200 dias, contados a partir da assinatura do contrato.

O empreendimento Diques da Baixada Maranhense teve seu anteprojeto finalizado e aprovado pela Codevasf em dezembro de 2016. Em estudos e no projeto de engenharia, foram investidos R$ 2,5 milhões. O início das obras é previsto para o segundo semestre de 2018. (Fonte: O Estado do MA).