Trancoso, o homem que salvava vidas

Nonato Reis*

Viana tem uma dívida impagável com Marcelino José Trancoso, o médico e farmacêutico que, mesmo sem diploma acadêmico, cuidou da saúde de meio mundo naquelas redondezas e livrou da morte outros tantos, praticamente à beira da sepultura. Isso num tempo em que não serviço de saúde pública na cidade e os remédios eram manipulados em farmácias improvisadas com baldes de zinco, tigelas de cerâmica e depósitos de vidro.

Corria a primeira década do século XX. Natural de Rosário, Marcelino Trancoso chegou em Viana ainda jovem, para se estabeler em uma quinta às margens do Igarapé do Engenho, no lugar onde, quase dois séculos antes, os jesuítas da Missão de Conceição do Maracu ergueram a fazenda São Bonifácio, maior empreendimento agropecuário da região, com 20 mil cabeças de gado, engenhos de açúcar e áreas próprias para o cultivo de cana, milho, arroz, mandioca e feijão.

Para quem não sabe, a fazenda São Bonifácio do Maracu é considerada marco inicial da colonização de Viana. Além da casa grande, havia uma igreja, erguida na margem oposta do Igarapé do Engenho, onde os inacianos faziam as suas orações e prestavam louvores ao Senhor. 

Nos fundos e ao lado da igreja, construíram dois cemitérios, um para crianças e outro para adultos (este denominado de Cemitério dos Tamarindeiros, guarnecido por dois grandes exemplares da espécie).

Trancoso era atlético, “de voz rouca e velada”, na definição de Sálvio Mendonça, em seu livro “História de um menino pobre”. Visitava os pacientes a domicílio todos os dias pela manhã, montado a cavalo, como se fosse um coronel das antigas, calçado com botas altas, usando esporas e rebenque.
Diagnosticava as doenças apenas pelo tato e mediante o exame físico dos olhos. Dificilmente errava o diagnóstico e seus remédios pareciam revestidos de poderes mágicos.

Mas não apenas clinicava, como também fazia intervenções cirúrgicas. Às vezes, apenas de posse de um canivete ou de uma serra, lancetava tumores, abria incisões, amputava dedos e até membros.

Do horto cultivado em sua quinta, preparava fórmulas diversas, às quais dava nomes engraçados e até inusitados, como “o peitoral de urucu”, para úlceras; o “lambedor de jurubeba”, para prisão de ventre, o “sumo de são caetano”, para hemorroidas; e até as “pílulas arrebenta pregas”, cuja finalidade dispensa explicações.

Para as populações ribeirinhas ao longo do Igarapé do Engenho e até da cidade, Trancoso era quase uma divindade, reverenciada e temida (por suas previsões fúnebres). Se despachava o enfermo, os familiares podiam preparar o óbito. Mas era capaz de dar vida ao moribundo, e em pelo menos três situações fez o doente levantar praticamente à beira da sepultura.

Como o caso do homem que perdeu peso e cor de repente. Ficou branco feito uma vela, a barriga cresceu, não comia mais nem bebia. O desenlace parecia iminente. Chamado às pressas, Trancoso olhou o doente nos olhos e decretou: “você não vai morrer, pelo menos agora”.
Depois mandou providenciar uma bacia com leite morno ao meio, ordenou a todos que se retirassem do quarto e instou o sujeito a ficar nu de cócoras sobre a bacia, sem olhar para baixo. “Só levante quando eu mandar!”. Meia hora depois, jazia na bacia uma cobra imensa, medindo sete metros de comprimento. “Era isso o que te matava!”.

De outra feita, Trancoso participava de uma vaquejada na Palmela. Uma adolescente negra brincava de pular sobre mesas com garrafas de bebidas. O pé dela bateu em uma garrafa, o corpo desequilibrou e ela caiu em cambalhotas. No choque com o chão, a garrafa de vidro quebrou e uma parte dela, feito lança, atingiu a barriga da menina, rasgando-a de cima a baixo, deixando à mostra as vísceras que se misturaram a fezes de animais sobre o chão.

Trancoso mandou que providenciassem agulha e fio, e ali mesmo, com a mesa improvisada de centro cirúrgico, limpou as vísceras, recoloco-as na cavidade abdominal e costurou a barriga da menina, que sobreviveu por milagre, livre de infecções.
Ao comentar o caso, Sálvio, então médico formado, atribuiu o feito à forte estiagem da região, que expunha o solo à ação direta dos raios solares. Naquela condição, segundo ele, os riscos de infecção se reduziam drasticamente.

Porém o caso mais rumoroso que deu à figura de Trancoso ares de mito foi a de um vaqueiro que, após um mal estar súbito, veio a óbito. Chamado para a sentinela, Trancoso, como sempre o fazia, aproximou-se do defunto e tentou abrir suas pálpebras, para o exame visual dos olhos. Depois, de posse de um espelho virgem, pressionou-o sobre o nariz do falecido.

Ao retirá-lo, após alguns minutos, Trancoso notou gotículas sobre o vidro. Então, pegou um tijolo e o colocou no fogo até ficar vermelho em brasa. Enrolou-o a um pano e o colocou sob a planta dos pés do morto, que na mesma hora deu um berro medonho e pulou fora do caixão, deixando a plateia em polvorosa. Perplexo, o povo tratou de fugir para o mato.

Trancoso, na maior calma, o olhar grave, explicou depois que aquilo nada tinha de sobrenatural. “É uma doença pouco conhecida, que paralisa os órgãos do paciente e dá a impressão de que ele está morto. O risco é que, por ignorância, acabem por enterrá-lo vivo”.
Nos anos 70, quando o ator Sérgio Cardoso, após um ataque de catalepsia, foi dado como morto e assim sepultado, o Ibacazinho evocou a memória do velho farmacêutico. Tivesse o galã da TV um Trancoso por perto, dificilmente teria morrido em condições bizarras.

*Jornalista

AVL presente no aniversário de 260 anos de fundação de Viana

Praça da Matriz – Catedral de Nossa Senhora da Conceição

Viana é a quarta cidade mais antiga do Estado do Maranhão e teve sua origem na aldeia Guajajara de Maracu. Seu povoamento se inciou em 1683, às margens do Lago Maracu, quando os jesuítas fundaram a Missão Nossa Senhora da Conceição do Maracu. Posteriormente, em 8 de julho de 1757, elevada à categoria de Vila, a “Vila de Viana”, em homenagem à cidade portuguesa de Viana do Castelo.

A Vila de Viana foi instalada em 8 de julho de 1757, sob o reinado de D. José I, Rei de Portugal, e sob o governo de Gonçalo Pereira Lobato e Sousa, governador da Capitania do Maranhão. Ao ser fundada, a Vila de Viana possuía 300 habitantes. A organização política era regida pelo direito português, com direção da Câmara, que acumulava as funções administrativa, judicial, fazendária e polícia.

A Vila alcançou o status de cidade na data de 1855, através da Lei Provincial nº 377, datada de 30 de junho, atingindo, cinco anos depois, a população de mais de oito mil habitantes. A cidade alcançou o apogeu comercial em meados do século 19, principalmente em decorrência da lavoura do algodão, arroz, milho e mandioca. Todavia, a partir do início do século 20, Viana enfrentou um gradativo declínio econômico, notadamente em face da queda da exportação do algodão, da abolição da escravatura e do crescimento dos transportes ferroviário e rodoviário.

Pôr do sol no Lago de Viana – Foto Geraldo Costa

Na cultura, o município possui uma tradição rica e marcante na história do Maranhão, com destaque para inúmeras personalidades ilustres, a exemplo dos patronos da Academia Vianense de Letras: Antônio Lopes (Cadeira nº 1); Edith Nair Furtado da Silva (Cadeira nº 2); Astolfo Serra (Cadeira nº 3); Sálvio Mendonça (Cadeira nº 4); Padre Manoel Arouche (Cadeira nº 5); Temístocles Lima (Cadeira nº 6); Frei Antônio Bernardo da Encarnação e Silva (Cadeira nº 7); Padre João Mohana (Cadeira nº 8); Dilú Mello (Cadeira nº 9); Estêvão Carvalho (Cadeira nº 10); Raimundo Lopes (Cadeira nº 11); Celso Magalhães (Cadeira nº 12); Nilton Aquino (Cadeira nº 13); Travassos Furtado (Cadeira nº 14); Anica Ramos (Cadeira nº 15); Miguel Dias (Cadeira nº 16); Onofre Fernandes (Cadeira nº 17); Manuel Lopes da Cunha (Cadeira nº 18); Ozimo de Carvalho (Cadeira nº 19); Dom Francisco Hélio Campos (Cadeira nº 20); Faraíldes Campelo da Silva (Cadeira nº 21); Egídio Rocha (Cadeira nº 22); João de Parma (Cadeira nº 23); Enedina Brenha Raposo (Cadeira nº 24); Raimundo Nogueira (Cadeira nº 25); Padre Constantino Vieira (Cadeira n° 26); Josefina Cordeiro Cutrim (Cadeira n° 27); Raimundo de Castro Maya (Cadeira n° 28); Padre Eider Silva (Cadeira n° 29); Zeíla Lauleta (Cadeira n° 30); Dom Hamleto di Angelis (Cadeira n° 31); Benedita Balby (Cadeira n° 32).

A bandeira de Viana, símbolo maior do município, é de autoria do patrono da Academia Vianense de Letras João de Parma Montezuma da Silva, sendo criada através da Lei Municipal nº 112, de 7 de fevereiro de 1919, possuindo as cores branca, azul e verde, representando, assim: “a branca, a limpidez das águas do nosso formoso lago; a verde, a cor dos nossos belíssimos campos; e azul, a cor do céu”.

O escudo do Município também foi idealizado por um patrono da AVL, o pintor Nilton Aquino, sob encomenda do então presidente da Câmara Municipal de Viana, Ozimo de Carvalho, sendo oficializado por decreto do então prefeito Luís de Almeida Couto, conforme o artigo 284 da Lei nº 19 de 7 de setembro de 1949. O desenho original recebeu uma nova roupagem colorida pelo pintor vianense Moisés Pereira.

A parte superior do escudo possui moldura de paisagens de Viana. No centro, um índio Guajajara. Do lado direito, a antiga Missão Nossa Senhora da Conceição do Maracu. Na parte inferior, do lado esquerdo, encontra-se um engenho de açúcar. Do lado direito, a representação da agricultura moderna e produtiva, simbolizada pelo trator arando a terra. Na base do escudo, o babaçu e o arroz, riquezas da região.

Viana, assim como São Luís, Alcântara, Carolina e Caxias, possui patrimônio histórico tombado pelo Estado, através do Decreto Estadual nº 10.899, de 17 de outubro de 1988, porém, com o passar dos anos, Viana vem sofrendo intensa dilapidação do seu patrimônio arquitetônico, com alguns prédios em ruínas e até demolidos, como a casa de Ozimo de Carvalho, hoje existente apenas o terreno que é objeto de doação pela Prefeitura Municipal à AVL, para construção preservando os moldes arquitetônicos originários.

Em 2015, Viana foi eleita a 4ª melhor cidade de pequeno porte para viver no país, segundo a edição especial da revista “ISTO É” que traz o ranking “As melhores cidades do Brasil 2015”, que analisa um conjunto de indicadores nas áreas fiscal, econômica, social e digital. Viana se destacou no item “mercado de trabalho”.

O turismo também é um atrativo da cidade, uma vez que Viana possui uma paisagem única que contempla planície de campos, espelhos de água cristalinas de lagos, enseadas, rios, igarapés, além de morros, ilhas e ilhotas.

Segundo dados do IBGE, em 2016, Viana possuía a população estimada em 51.503 habitantes, porém esse crescimento populacional ocorreu sem o devido planejamento urbano, merecendo, por isso, a Cidade de Viana uma atenção especial da sociedade.

Nesse viés, a Academia Vianense de Letras consolidou o desenvolvimento de atividades básicas e primordiais de defesa da cultura e de valorização de nossa Cidade, inclusive desenvolvendo ações em defesa do meio ambiente (incluindo questões relevantes à sociedade vianense, como, entre outras, a perenidade dos lagos e a pesca na região) e do patrimônio histórico, dando sua contribuição para a recuperação de obras religiosas e da Igreja da Matriz.

E, assim, a Academia Vianense de Letras tem se feito presente na cidade, aproximando-se cada vez mais da população e contribuindo, especialmente, nas áreas da Educação e Cultura, a exemplo do Convênio de Cooperação Técnica firmado com o Executivo Municipal, Prefeito Magrado Barros, na Sessão Solene Comemorativa dos 15 anos da Academia, bem como tantas outras ações que serão realizadas no biênio, em cooperação técnica.

A AVL participará, apoiando o Município de Viana, da Marcha Cultural, a realizar-se na próxima sexta-feira, dia 7 do corrente mês, a partir das 16 horas, quando, no Parque Dilú Melo, serão desenvolvidas várias apresentações culturais envolvendo os estudantes da rede pública municipal de Viana, abrangendo também as escolas públicas da zona rural. Finalizando, assim, o Projeto da Semana da Arte Moderna, da Secretaria Municipal de Educação/Cultura.

Temos muito a comemorar no próximo dia 8 de julho, data em que serão celebrados os 260 anos de fundação de Viana.

Nessa data esperamos receber a sanção pelo Executivo Municipal do Projeto de Lei nº 013/2017, aprovado pela Câmara Municipal por unanimidade, autorizando a doação à Academia Vianense de Letras do terreno localizado na Rua Professor Antônio Lopes, local em que morou o patrono Ozimo de Carvalho. Onde, em breve, será construída e instalada a sede da AVL.

São muitos os desafios a serem vencidos. E acreditamos que com a parceria firmada com o Executivo Municipal, somaremos forças para impulsionar a cada dia o desenvolvimento da cultura no Município de Viana.

Maria de Fátima Rodrigues Travassos Cordeiro

(Presidente da Academia Vianense de Letras).

‘Mais Cultura e Turismo de Férias’ começa neste final de semana em várias cidades do Maranhão

Programação Geral

Com atrações locais e nacionais de diferentes cenas musicais, espetáculos teatrais e o melhor da cultura popular maranhense começa neste fim de semana o ‘Mais Cultura e Turismo de Férias’ com programação gratuita em 12 municípios maranhenses. MPB, pop, rock, samba reggae, chorinho, bumba-meu-boi, tambor de crioula, forró além da comédia Pão com Ovo e Cia Cambalhotas estão no programa que acontece de 7 a 25 de julhocom arte e cultura para todos os gostos. O ‘Mais Cultura e Turismo’ é uma iniciativa do Governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo (Sectur), realizada com sucesso desde 2015.

Este ano, a edição do programa conta com atrações culturais durante três semanas de julho em várias cidades. Em São Luísas apresentações serão realizadas em quatro pontos da cidade. Em Barreirinhas (portal de entrada dos Lençóis Maranhenses)shows com vários artistas prometem muito agito na cidade turística. Além disso o Mais Cultura e Turismo de Férias levará espetáculos teatrais para as cidades de Estreito, Tuntum, Lagoa da Pedra, Santa Luzia, Zé Doca, Santa Helena, Araioses, Coelho Neto, Coroatá e Vargem Grande.

O secretário da Cultura e Turismo, Diego Galdino, informou que a intenção do Governo é intensificar as ações culturais em todo o estado. “Estamos ampliando a atuação do programa com a inclusão de novos espaços e cidades, diversificando a programação e melhorando a infraestrutura dos pontos turísticos. Além disso iremos expandir ainda mais a oferta de atrações com os editais de ocupação artística que levarão cultura o ano inteiro para os maranhenses”, ressaltou Diego.

Mais Cultura e Turismo de Férias São Luís

Em São Luís as apresentações serão realizadas na Praça Nauro Machado (Centro Histórico) às sextas-feiras, Praça da Lagoa da Jansen e Concha Acústica aos sábados e Espigão da Ponta D’Areia aos domingos. A programação promete atrair maranhenses e entreter turistas que curtem as férias na capital com atrações que darão continuidade aos festejos juninos, principalmente no centro histórico e Espigão Costeiro. Já a Praça da Lagoa da Jansen e a Concha Acústica vão oferecer programação voltada para o público infantil com espetáculos e atividades recreativas.

Nesta sexta-feira (7), o festejo na Praça Nauro Machado começa a partir das 18h com grupos de tambor de crioula. Na sequência tem apresentação do Boi de Morros, às 19h, e Boi de Santa Fé, às 20h. A noite encerra com show de Chiquinho do Acordeon que vai agitar a praça com muito forró.

No Espigão Costeiro da Ponta D’Areia os festejos do São João fora de época terão no domingo (9) apresentação do Boi de Nina Rodrigues, no fim da tarde, ao pôr do sol. O espaço é amplo e o público tem a oportunidade de interagir com a brincadeira num dos pontos turísticos mais bonitos de São luís.

Mais Cultura e Turismo de Férias Lençóis Maranhenses

O ‘Mais Cultura e Turismo de Férias’ em Barreirinhas terá duas grandes atrações nacionais, os cantores  Jorge Vercillo e Chico César. Durante os três finais de semana contemplados na programação, o público pode contar ainda com shows de Carlinhos Veloz, Grupo Criolina, Mano Borges, Pepê Júnior, George Gomes, grupo Lamparina, banda Raiz Tribal, Kambada do Forró, Cacuriá de Dona Teté, banda Filhos da Areia, Chorando Calado, Companhia Encantar, Tambor de Crioula Arte Nossa e grupo Tripa de Bode. A abertura e os intervalos dos shows terão os Djs Júnior Pará (7 e 8), Speto (14 e 15) e Claudinho Polary (21 e 22).

O Mais Cultura e Turismo Lençóis Maranhense será realizado sempre às sextas e aos sábados, e contará com cerca de 20 atrações. Além dos shows a programação terá aulões de ritmos e zumba todas as manhãs e tardes de sábado e manhãs de domingo. Outra atração será o passeio lancha cultural e o espaço infantil comandado pela Companhia do Imaginário, sextas e sábados, a partir das 16h.

Neste primeiro final de semana o destaque fica por conta do cantor Jorge Vercillo, que se apresenta no sábado(8), a partir das 21h. No repertório o artista trará sucessos de todas as fases da carreira, como “Ela Une Todas as Coisas”, “Monalisa”, “Talismã sem Par” além de canções inéditas do álbum mais recente, intitulado “Vida é Arte”.

Mais Cultura e Turismo Teatro

Em 10 municípios maranhenses o ‘Mais Cultura e Turismo de Férias Teatro’ marcará presença com a comédia teatral ‘Pão com Ovo’ e espetáculo ‘Sganarelle e o amor de Suzete’, da Companhia Cambalhotas. As apresentações serão em praças públicas e com acesso gratuito para toda a população.

A comédia teatral Pão com Ovo e espetáculo circense da Companhia Cambalhotas farão apresentações de forma itinerante, percorrendo os municípios de Estreito, Tuntum, Lagoa da Pedra, Santa Luzia, Zé Doca, Santa Helena, Araioses, Coelho Neto, Coroatá e Vargem Grande. (Secap-MA)

A Camboa encantada do Rio Maracu

Ilustrativa – google

Por Nonato Reis*

De todas as modalidades de pesca, a Camboa era a que mais me atraía, não porque fosse, necessariamente, eficiente, mas por ser feita de forma coletiva, o que propiciava brincadeiras e vadiagens. Consistia em percorrer a bordo de canoas uma extensão delimitada do rio Maracu, com as embarcações em fila de uma margem e de outra, até formar um círculo, sobre o qual eram lançadas as redes a um só tempo, de tal modo que todos os espaços da água fossem ocupados pelas armadilhas.

Na Camboa existem os ponteiros, em número de dois – um para cada lado – que servem de guias, determinando a direção a ser percorrida e também a velocidade do comboio. Cabe ainda aos guias manobrarem as canoas no tempo certo, para a formação do círculo, onde se presume haver a maior concentração de peixes.

Eu adorava servir de guia, porque era a função mais importante na pescaria, e também por me permitir fazer demonstrações de habilidade com a vara ou com o remo, instrumentos utilizados para impulsionar as canoas.

A propósito, em Viana na época da Ascensão de Cristo, no mês de maio, havia torneios de remo e vara e aos ganhadores eram concedidas medalhas de primeiro, segundo, e terceiro lugares, e também de troféus de honra ao mérito para os participantes.

À época em que vivi no Ibacazinho, dois canoeiros eram considerados imbatíveis: Zé Brito e Raimundo da Palmela. Ambos ganhavam a vida como vaqueiros, mas também transportando gente e mercadoria em canoas do Ibacazinho para Viana e vice-versa. Não raro, sem concorrentes à altura, eles próprios disputavam entre si corridas do povoado e à cidade, num percurso de quatro quilômetros sobre as águas, para o deleite dos expectadores.

A Camboa dava a oportunidade de conviver com todos e partilhar as delícias da pescaria. Essa modalidade de pesca foi herdada das tribos de índios que habitavam as margens do Maracu, conhecidos como exímios pescadores. O costume foi transmitido de geração a geração e alcançou a segunda metade do século XX envolto numa mescla de misticismo.

A estória que corria no povoado é que havia uma Camboa noturna sobrenatural, que percorria o Maracu na lua nova, quando o rio ficava às escuras. No inverno a lua nova era o período propício para a pesca em anzol do bagrinho, um peixe de couro que mede não mais do que 20 centímetros, muito apreciado pelos ribeirinhos.

A Camboa do Além, como era chamada, cruzava o rio após a meia-noite, e assim, para fugir dela, os pescadores tratavam de lançar as redes e os anzóis logo à boca da noite e recolherem-se antes da meia-noite. De casa, deitado em uma rede, muitas vezes ouvi aquele som característico do atrito das tarrafas sobre a água, todas lançadas ao mesmo tempo. Com o corpo arrepiado, eu me benzia, rezava um Pai-Nosso, e tratava de esquecer aquilo.

Um dia, porém, algo escapou do roteiro. Eu e um primo havíamos ancorado a canoa no Pesqueiro do Seu Romualdo, que ficava na margem oposta do rio, ao lado da casa de Raimundo Muniz, irmão de Marcos. Devia ser umas 8 da noite, mal apagara a lamparina e déramos início à pesca do bagrinho, fomos despertados com o barulho de remos e varas empurrando canoas.

Prestei atenção e vi que se aproximava de nós uma Camboa gigante com dezenas de embarcações. Quando chegaram em frente ao pesqueiro, os guias manobraram um ao encontro do outro, fechando o círculo. Ato contínuo, gritaram “arreia”! (que era o sinal característico) e todos lançaram as redes num barulho ensurdecedor.

Imaginando tratar-se de gente do povoado, icei a canoa para o meio do rio, ao encontro dos prováveis parceiros de pescas, mas, para o espanto meu e do primo, as águas do Maracu estavam límpidas e serenas. Não havia qualquer sinal que indicasse ali a presença de quem quer que fosse.

Com os pelos do corpo eriçados, eu e meu primo olhamos para o céu estrelado sem lua: tudo era brilho e silêncio. Até que uma estrela cadente riscou o espaço negro e caiu rente à popa da canoa. Remei decidido para a outra margem. Ao alcançá-la, tarrafas atrás de mim foram arremessadas outra vez, todas a um só tempo. Olhei em volta: o rio parecia dormir o sono dos justos.

*Jornalista

O Rio Maracu e suas águas místicas

Por Nonato Reis*

O rio Maracu não é um rio qualquer, não é um rio normal, pelo menos não na definição convencional de um curso natural de água doce. É como se em um mesmo canal coexistissem dois rios – um que se estende à vista de todos, como uma ponte fluvial entre os lagos do Aquiri e de Cajari; e o outro metafísico, que só a alguns é dado conhecer, que nasce nas entranhas da imaginação e deságua num estuário de medo e misticismo.

Falar do primeiro rio é simples e, afora a beleza geográfica do lugar, não há nada que desperte o olhar de admiração do leitor. Hoje, massacrado pela ação irracional do homem e a omissão descarada do poder público, o Maracu agoniza e, a permanecer o descaso, pode desaparecer do mapa aquático do Maranhão dentro de poucos anos. Existem passagens de terras em vários pontos do seu leito e a mata ciliar que protegia suas margens praticamente desapareceu.

Feito esse registro que se impõe como um imperativo de consciência, passo a me ocupar com o outro Maracu, o sobrenatural, palco de histórias escabrosas ocorridas à sombra da noite, desde tempos imemoriais. Como se sabe, as margens do rio, na altura do Ibacazinho, eram habitadas nos primórdios por tribos indígenas, que viviam da pesca e da agricultura rudimentar. Com a chegada dos jesuítas, atraídos para a região pelos relatos da existência de minas de pedras preciosas ao longo do bacia do Turiaçu, foi edificada a fazenda São Bonifácio do Maracu, marco da colonização de Viana.

Ao contrário do que muitos imaginam, os jesuítas não tiveram vida fácil na missão de Conceição do Maracu. Especialmente, pela revolta de colonos diante dos privilégios que os missionários recebiam da Coroa Portuguesa, na forma de isenções fiscais e no controle da utilização de mão de obra indígena. Os colonos, escaldados com o alto preço cobrado pela aquisição de negros, tentavam escravizar os índios, no que enfrentavam a dura resistência da batina.

Os jesuítas usavam de dois pesos e duas medidas. Para os colonos, impunham severas restrições para a utilização dos índios como mão de obra, mas eles próprios os escravizavam, a pretexto de catequizá-los. Isso acabou gerando enormes conflitos na relação de padres, colonos, negros e índios.

Não raro cometiam assassinatos de emboscadas e os corpos eram atirados no leito do rio, para evitar a sua elucidação. Isso deu a energia quântica para a transformação do rio em palco de aparições de espíritos e registros apavorantes, o mais famoso deles o de um gritador que infernizava o povoado na calada da noite.

Os mais velhos contam que, antigamente, toda sexta-feira de lua cheia, ouviam berros agonizantes das profundezas da terra. Poucos se atreviam a cruzar o rio após a meia-noite e esses que, por descuido ou necessidade, quebravam a regra, contavam histórias tenebrosas. Como a do vaqueiro que, tarde da noite, precisou ir à cidade à procura de um remédio para a mulher, picada por uma serpente venenosa.

Na volta, ao aproximar-se do rio, foi surpreendido com gritos medonhos, que pareciam vir da direção da Palmela. Sentiu que aquilo não era deste mundo, não podia ser. Escondeu-se atrás de um pé de algodão, rente à linha da água. Os berros se aproximavam rapidamente e ele notou que ao invés de um eram dois gritadores, como se duelassem entre si. Uma ventania varreu as margens do rio, arrancando árvores e arbustos, provocando ondas enormes que se debatiam contra os barrancos.

De repente dois touros com chavelhos em brasa surgiram na boca do rio, numa luta sanguinária, um devorando o outro, rasgando a carne, mastigando os ossos, o sangue jorrando em profusão. Atracados, os animais caíram na água e desapareceram formando um redemoinho gigante, que espalhou água a metros de altura. No silêncio que se seguiu uma voz agonizante ecoou do fundo do rio, num espasmo de dor, que pareceu explodir os miolos do vaqueiro: “Não me mata, seu desgraçado!!!”.

*Jornalista

Sonho da casa própria fica mais próximo com preços acessíveis

ilustrativa

O Festimóveis é aberto ao público em geral e será realizado no Centro de Convenções Pedro Neiva de Santana, em São Luís, de sexta-feira (16) até domingo (18), das 9h às 21h. O evento terá participação de diversas construtoras e imobiliárias oferecendo mais de 60 opções em casas e apartamentos, novos e usados, para servidores estaduais e público em geral.

O secretário de Estado de Indústria, Comércio e Energia, Simplício Araújo, ressaltou o compromisso do Governo do Estado no incentivo, apoio e fomento a diversos setores da economia. No caso da construção civil, ele destaca a influência desse ramo na economia, com impacto positivo em vários outros setores, e afirma que o apoio à venda de imóveis e materiais de construção contribui para a geração de emprego e renda.

“O Governo do Estado não tem medido esforços quando o assunto é estímulo ao empreendedor. No momento em que o país atravessa, com o difícil quadro econômico, é necessário que façamos movimentos para dirimir os impactos da crise, por isso a importância de apoiar eventos deste porte”, reforça Simplício Araújo ao lembrar que o setor da construção civil é responsável por uma série de empregos em todo o estado.

Para o presidente do Sinduscon, Fábio Nahuz, o feirão é uma boa oportunidade, neste momento em que o mercado dá sinais de reaquecimento. “Esta será mais uma edição exitosa onde as pessoas que procurarem terão acesso a boas oportunidades”, enfatizou. Ele destaca a ocasião propícia pela maior oferta de imóveis e a preços mais competitivos, apesar das taxas de juros. “Quem quiser adquirir seu imóvel, pode comparecer que vai encontrar uma boa oportunidade”.

A estrutura do ‘Festimóveis’ vai contar com estandes de dezenas de empresas do setor imobiliário e serão disponibilizadas unidades, de vários tipos, para comercialização. As análises de crédito são conduzidas pela equipe da Caixa Econômica Federal, com a possibilidade de aprovação imediata.

Durante o feirão, vão ser oferecidos os seguintes serviços pela Caixa: Simulação de Financiamento Habitacional; Simulação de Crédito Comercial; Avaliações de Crédito Habitacional e Comercial; Consórcio; Abertura de conta; Seguro; Previdência e outros tipos de serviços disponíveis pela instituição bancária. Nesta edição, a expectativa é gerar R$ 300 milhões em negócios.

Inscrição

Para se habilitar à compra dos imóveis no feirão, o interessado deve comparecer com documentos pessoais como RG, CPF e comprovantes de renda (três últimos contracheques ou seis últimos extratos bancários, para o caso de renda informal), além do comprovante de residência. Além do Governo do Maranhão, entre os parceiros do evento estão a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-MA), Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (Fiema), Sebrae-MA, Prefeitura de São Luís e Governo Federal. (Secap-MA)

Do medo e violência na luta pela demarcação do território Gamela, surge um clamor de paz

 

De pé, em frente à imagem de Nossa Senhora de Fátima sobre a cômoda do quarto, Maria de Lourdes Nunes Borges ora em silêncio. Lentamente, a senhora de 82 anos vai dedilhando as contas do seu terço. Ao terminar a última Ave-Maria, ela fala, em voz alta: “minha Virgem Santíssima, eu lhe peço paz para a nossa comunidade”.

O clamor de Maria de Lourdes à santa de sua devoção não é em vão. Católica fervorosa, há 62 anos ela mora na localidade Santeiro, um pequeno povoado do município de Viana, com cerca de 100 famílias que sobrevivem da lavoura e pequenas criações de peixe. Em poucas propriedades, avistam-se algumas dezenas de cabeças de gado.

O falecido marido de Maria de Lourdes foi um dos fundadores de Santeiro e é em homenagem a ele o único colégio do povoado, a Escola Municipal Mariano Borges.

Vizinho a Santeiro, localiza-se o povoado Baías, com, aproximadamente, o mesmo número de famílias e a mesma forma de subsistência. 

No dia 30 de abril deste ano, Maria de Lourdes viu a paz dos dois povoados ser quebrada por um confronto armado entre dois grupos de moradores da própria região, que resultou em 19 pessoas feridas a tiros de espingarda, golpes de facão e pauladas. Quatro tiveram ferimentos graves e um deles por pouco não teve as mãos decepadas.

De um lado do conflito, moradores que se autodeclaram índios da etnia gamela. Do outro, não-índios, entre posseiros, pequenos agricultores e alguns proprietários de fazendas de médio porte. Os dois grupos que, até então, conviviam em harmonia, travam, agora, uma batalha judicial com interesses contrários.

Quarenta e dois dias após o confronto, o clima na região continua tenso. Os moradores autodeclarados índios reivindicam a demarcação do território Gamela que afirmam pertencer aos seus ancestrais. As terras indígenas (cerca de 14 mil hectares) teriam sido doadas pela Coroa Real Portuguesa, em 1759, segundo consta em documentos históricos. A extensão deste território abrange municípios de Viana, Matinha e Penalva.

O primeiro passo para a possível solução do conflito será dado nesta terça-feira (13/6), quando acontece, a partir das 14h, audiência pública na 13ª Vara da Justiça Federal, na ação movida pelo Ministério Público Federal para que a Funai realize estudo sobre o território Gamela.

A audiência contará com a presença dos autodeclarados índios gamela, da Secretaria de Direitos Humanos, Funai, Comissão Pastoral da Terra (CPT), Seccional da OAB/MA, Conselho Indigenista Missionário, Defensoria Pública do Estado e Defensoria Pública da União.

Bajaco chora ao lembrar da ocupação da fazenda; dona Maria de Lourdes ora pedindo paz na região e ao lado da esposa Socorro, Alamilo mostra o título de propriedade registrado em cartório. Márcio Diniz/Agência Assembleia

VIOLÊNCIA E MEDO

O episódio que resultou em violência com vários feridos, no dia 30 de abril, é chamado ‘retomada de território’. Um grupo de 40 moradores que se declarou índios gamela tentou ocupar uma propriedade com criação de búfalos, denominada Sítio Aires Pinto, de 22 hectares, no povoado Baías. O propósito dos gamelas era retomar para si a área que acham ter direito como ‘terra de índio’.     

A retomada fracassou. Eles já haviam ocupado a fazenda, na qual só se encontrava a mulher do caseiro Carlos Nascimento, conhecido como Bajaco. Mas a notícia correu rápido e o grupo foi surpreendido com a chegada de cerca de 200 homens armados. O desfecho violento foi inevitável.

Bajaco chora ao lembrar da violência que presenciou. Diz que sente medo e quer deixar o povoado, onde pretendia construir a sua casa no pequeno terreno que comprou na redondeza, por R$ 20 mil. “Vou deixar tudo para trás, não tenho mais condições de continuar morando aqui. Não tenho pra onde ir. Não tenho outra profissão, só sei plantar e fazer roça”, disse.

PRECONCEITO E ÓDIO

A partir desse dia, a paz que, até então, existia entre os habitantes dos dois povoados do município de Viana cedeu lugar a xingamentos, ameaças, medo de novos ataques e temor de morte por emboscadas. Até a tradicional reza de casa em casa nas duas comunidades, em louvor a Nossa Senhora, tradição no mês de maio, não foi possível realizar este ano.  

É fácil perceber o clima de animosidade, preconceito e ódio que ganha corpo nos povoados. É perceptível, nas expressões dos rostos e nos diálogos travados com os moradores. Alguns relatam que tiveram propriedades invadidas, cercas cortadas, açudes de peixes destruídos e lavoura queimada. Os moradores atribuem a autoria destas ações aos autodeclarados índios. Os gamelas negam.

O assunto que prevalece nas rodas de conversa entre os moradores é que, na região vianense, não existe índio. Segundo eles, “os que se declaram gamelas são invasores travestidos de indígenas que pretendem expulsar todos os donos das propriedades de Santeiro e Baías para ficar com as terras”.

PROPRIEDADES À VENDA

Dona Maria de Lourdes Borges afirma que jamais imaginou um dia ter que se mudar de Santeiro, mas que, devido ao clima de ameaças e violência, associado ao temor de perder a sua casa, já pensa em vender a propriedade.

Ela conta que, por várias vezes, teve a cerca de sua propriedade cortada. No início do mês de maio, ela disse ter encontrado várias estacas em formato de cruz enfiadas em seu quintal. E traduziu isso como uma ameaça de morte.     

A situação de Alamilo Matos Cunha, de 82 anos, também é delicada. Ele mora sozinho com a mulher, Socorro, de 78 anos em uma propriedade denominada Fazenda Santa Fé, de seis hectares, no povoado Baías. Ele faz questão de mostrar o título de propriedade já amarelado, que teria sido emitido pelo cartório de Viana há 25 anos.

Pequeno produtor de peixe, Alamilo relata que já foi vítima de invasão de sua propriedade pelos que se declaram índios, mas que não sofreu qualquer tipo de ameaça ou violência. “Eu até servi um cafezinho pra eles e ficamos conversando aqui no terraço. Esses que se dizem índios estavam armados de espingarda, flechas e lanças e me disseram que só querem de volta as terras que acham que é deles”, disse.

Alamilo não saiu da fazenda, mas afirma ter medo que os declarados índios retornem para expulsá-lo da sua propriedade. Também teme que furtem os seus peixes. Ele conta que chegou a passar uma noite inteira acordado com a espingarda na mão vigiando o açude.

Também afirma que desconhece a existência de índios em Viana: “nunca ouvi falar que aqui em Viana tenha existido índio. Isso é só conversa desse pessoal para ficar com as nossas terras”.

Perguntar a um morador de Baías ou Santeiro se é índio ou descendente de índio chega a ser interpretado como uma grande ofensa. Dona Varinta Sousa, de 109 anos, a mais antiga moradora do povoado Santeiro, demonstra indignação quando alguém lhe faz essa pergunta.

Ainda lúcida, Varinta disse que quando criança ouviu falar que Viana tinha “terra de índio”, mas que nunca conheceu nenhum gamela morando na região. Afirma que ela e o marido, já falecido, nasceram e se criaram no povoado Santeiro, mas que ambos não são índios e que acha estranho só agora, depois de tantos anos, os índios tenham aparecido para reivindicar as terras.

“Não sou índia, não tenho cor de índia e nem cara de índia”, responde Varinta, zangada ao ouvir a pergunta.

O mais estranho é que dona Varinta tem nove filhos, alguns morando em Santeiro. Depois que teve início o processo de reconhecimento do território gamela no município de Viana, em novembro de 2014, Evangelista Souza, um dos filhos de Varinta, se autodeclarou índio e está morando na aldeia Cajueiro, que fica a cerca de 500 metros da casa da sua mãe.

Dona Varinta, de 109 anos, a mais antiga moradora do povoado Santeiro. No portão de uma das duas propriedades retomadas, os moradores declarados gamelas mantêm-se vigilantes à presença de estranhos – Márcio Diniz/Agência Assembleia

HÁ TEMOR TAMBÉM NA ALDEIA

O medo também está presente entre os declarados índios que habitam as aldeias Cajueiro e Piraí, localizadas no povoado Taquaritua, também em Viana. As duas terras, hoje ocupadas pelos gamelas, foram as primeiras propriedades retomadas desde 2014. Ao todo, foram ocupadas oito propriedades. O sítio Aires Pinto, no povoado Baías, cuja tentativa frustrada de retomada resultou no confronto armado, no dia 30 de abril, seria a 9ª propriedade.

Cerca de 700 moradores declarados índios gamelas mantêm-se reunidos em permanente vigília nas duas aldeias e relatam o temor de que as suas lideranças sejam vítimas de emboscadas ou que membros da tribo sofram atos de violência. Eles cantam, dançam e fazem reuniões para a tomada de decisões conjuntas.

Ninguém entra na aldeia sem permissão das lideranças. Os portões de madeira que antes protegiam a entrada da fazenda, agora são guardados por gamelas que se revezam na função de vigilância. Quando chega algum visitante não-índio, um dos visitantes se desloca ao centro da aldeia para que os líderes autorizem a entrada.   

O conflito alterou a rotina dos moradores das aldeias Cajueiro e Piraí. Por medo, as crianças deixaram de ir à escola no centro do povoado. Agna Gamela diz que o preconceito que a comunidade indígena sofre faz com que muitos moradores da região que, efetivamente, são descendentes dos gamelas, reneguem a etnia.

Ela também reage com indignação quando ouve acusação de que os gamelas querem expulsar os posseiros e pequenos lavradores das terras de Viana. “Isso não é verdade. Estão espalhando essa história para fazer com que os moradores reajam com violência contra nós. Não vamos expulsar quem não tem para onde ir. Queremos apenas que o governo reconheça oficialmente o que é nosso. Queremos a demarcação do nosso território”, disse.

Kraokê Gamela, uma das lideranças, afirma que os índios não usam armas de fogo e o que aconteceu no dia 30 de abril foi um massacre muito bem organizado pelos fazendeiros que incitaram a população a praticar esse ato de violência contra os índios. “Só não houve mortos porque Deus colocou a mão”, afirma.

Ele tenta explicar como ocorreu o processo de aculturamento do povo gamela até ser declarada a sua extinção.  Segundo Kraokê, os bisavós, avós ou pais eram proibidos de falar a língua indígena ou não podiam se assumir índio com medo de sofrer represálias por parte dos fazendeiros que começaram a se instalar na região.

Também afirma que, durante décadas, seus antepassados foram sendo expulsos, pouco a pouco, daquelas faixas de terra demarcadas pela então Colônia, até sobrar apenas uma pequena parte dos 14 mil hectares destinados aos índios pela Coroa.

Kraokê Gamela ressalta que os índios da região de Viana e Matinha foram obrigados a deixar a área, mudaram para povoados maiores e, neste processo, acabaram casando com não-índios. Os mais velhos foram forçados a aprender línguas e costumes que não eram da tribo. A maioria foi registrada nos documentos como pardo ou negro.

Algumas índias gamelas expõem aos visitantes das aldeias Cajueiro/Piraí as peças de artesanato feitas de palha do guarimã, também tradição que aprenderam com os antepassados.

O menino Akrutxu, de 1 ano e 5 meses, primeira criança gamela registrada em cartório. Na aldeia, as lideranças fazem constantes reuniões, enquanto a polícia mantém a vigilância na área – Márcio Diniz/Agência Assembleia

SOLUÇÃO ESTÁ NAS MÃOS DA FUNAI

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, Rafael Silva, acompanha o conflito na região de Viana desde o início e afirma que não existe nenhuma demanda dos gamelas dizendo qual a extensão da área reivindicada. Segundo ele, a definição do tamanho do território indígena vai depender do trabalho de demarcação a ser realizado pela Funai.

Rafael Silva explica que o documento histórico, datado de 1759, da Coroa Portuguesa, serve para demonstrar a existência dos índios gamelas há mais de dois séculos na região, mas não confirma a extensão, que depende do resultado do trabalho da Funai. “A situação de insegurança é generalizada, inclusive de proprietários, passa pela demora do trabalho do Estado Brasileiro, especificamente o trabalho da Funai”, esclareceu.

Mais de 400 processos de demarcação de territórios indígenas em todo o País tramitam, hoje, na Funai. Essa demora na demarcação da área dos gamelas gera instabilidade na região e preocupa o Governo do Estado, que tomou a iniciativa de bancar os custos para a implantação do grupo de trabalho da Funai, que será responsável pela demarcação.

O Governo do Estado também disponibilizou efetivos das Polícias Militar e Civil para manter a segurança na região de Viana até que haja solução definitiva para o conflito.

O secretário de Direitos Humanos do Estado, Francisco Gonçalves, esteve na aldeia participando de uma reunião, no dia 11 de maio, com a presença dos deputados federais, e reafirmou o compromisso do governo em garantir todo o apoio necessário, inclusive com recursos financeiros, para que a Funai realize o trabalho necessário. 

O povo gamela aguarda com expectativa que a audiência desta terça-feira, na Justiça Federal, seja o primeiro passo para o tão esperado resgate da identidade da etnia, o que resultará na demarcação do seu território. E neste processo, ele comemoram a emissão da Certidão de Nascimento de Akrutxu Trindade Baía Gamela, de 1 ano de 5 meses, primeira criança gamela registrada em cartório.

Do outro lado dos portões da aldeia, os moradores não-índios, principalmente os donos de sítios e fazendas da região, também aguardam o desenrolar dos fatos, na expectativa de que o território indígena não seja demarcado para que não sejam obrigados a sair das suas propriedades.

E, enquanto a tão sonhada paz não chega, o medo persiste. De um lado e do outro. 

Jacqueline Heluy/Agência Assembleia