Projeto Cultura, Identidade e Negritude

Divulgação

De hoje, dia 20 ao dia 24 deste mês, acontece no Centro de Ensino Y Bacanga – Polo 10, o Projeto Cultura, Identidade e Negritude, que trará uma série de eventos marcantes que discutem e ampliam o conhecimento acerca da história negra e afrodescendente em escolas das redes pública e particular.

Dentre os eventos, haverá palestras, apresentações artísticas, oficinas, workshops, visitas guiadas ao arquivo público, uma exposição de livros, uma feira de conhecimentos e uma biblioteca circulante.

 

Fica com quem seca tuas lágrimas e não com quem as multiplica

Por Marcel Camargo, via Obvius

Muitas pessoas acabam confundindo “lutar dignamente por algo que vale a pena” com “lutar feito trouxa por algo que nunca trará coisas boas”. Na ânsia de querer manter por perto o que pensamos ser nosso, perdemos a noção exata de nosso próprio valor.

Ninguém, em sã consciência, gosta de sofrer, de chorar, de amargar decepções, porém, há quem se prenda ao que faz mal, ao que suga, ao que diminui, por muito tempo. O normal seria que valorizássemos tudo o que nos faz sorrir, no entanto, na prática, muitas vezes nos aproximamos de algo ou de alguém que nada mais faz do que nos tornar infelizes.

Talvez por ser uma tendência humana querer o que é mais difícil, as pessoas acabam confundindo “lutar dignamente por algo que vale a pena” com “lutar feito trouxa por algo que nunca trará coisas boas”. Na ânsia de querer manter por perto o que pensamos ser nosso, perdemos a noção exata de nosso próprio valor, em favorecimento de quem não nos oferece nada de bom.

Parece que não adianta tentar explicar para algumas pessoas o quanto elas sofrem à toa por conta de pessoas dispensáveis e de coisas supérfluas, como se, ali, envoltas no calor de suas tempestades, nada mais fizesse sentido fora daquela dor a que infelizmente se acostumaram e tomaram como parte integrante de suas vidas. Porque a gente se apega facilmente, inclusive ao que machuca.

Anos de sofrimento não são capazes de clarear os pensamentos de muitos que acham que não conseguirão sobreviver longe de quem nem junto está, longe do emprego que nem crescimento traz, longe de lugares onde sua presença não faz falta alguma. O medo rouba sonhos, rouba o raciocínio, rouba vida. Medo do novo, do que não é certo, do que foge ao que posto está.

Há um mundo tão imprevisível à nossa volta, que tentamos manter certa segurança por perto, nas amizades, nos amores. Infelizmente, nesse percurso, muitos de nós acabamos segurando, não raro forçosamente, justamente o que não faria falta alguma e, inclusive, o que nos impede de seguir em frente em busca de nossa felicidade. Por isso é que há pouco reconhecimento e gratidão em relação a quem realmente merece. Por isso é que há tanta tristeza nesse mundo.

A partir do momento em que cada um refletir sobre o tanto que possui a oferecer, o tanto que tem de humano dentro de si, jamais haverá tanta gente se aproveitando de quem não merece. Quando sabemos o nosso valor, ninguém consegue nos ludibriar, ninguém entra no nosso coração sem oferecer reciprocidade. Falta amor no mundo, mas falta, principalmente, amor-próprio. Só se amando é que se tem certeza do que significa felicidade genuína, bem longe de quem só sabe anular sorrisos. Ame, mas ame-se também.

 

O goiabal da Santa e o dia da caça

Por Nonato Reis*

Imagem ilustrativa

A Fazenda da Santa, ou Fazenda Bacazinho, foi palco das melhores lembranças dos meus tempos de menino. Ali estudei as primeiras letras, brinquei, namorei. A maior parte das festas e outros eventos do Ibacazinho, povoado à beira do rio Maracu, a quatro quilômetros da sede do município de Viana, ocorriam nos domínios da fazenda – uma casa de alvenaria em dois pavimentos, erguida sobre um oitão, ao lado de um velho tamarindeiro, e de frente para uma planície verde que se estendia a perder de vista.

No inverno, as águas do Maracu transbordavam e avançam para os campos e matas de vegetação baixa, transformando a paisagem num imenso lençol líquido, margeado por uma estreita faixa de terra, onde se localizavam as casas. A fazenda ficava praticamente isolada, e mesmo o caminho de chão batido, que dava acesso ao lugar, se tornava intransitável, coberto de lama e de água.

No primeiro piso da fazenda havia um salão com mesa grande retangular, usada para a ceia dos vaqueiros no período de ferra (evento festivo em que o gado, recolhido aos currais, era contado, ferrado e vacinado, além de sorteadas as reses que seriam dadas em pagamento ao responsável por cuidar da criação). A mesa também servia à escola de alfabetização, destinada às crianças da comunidade.

Alguns metros além dos limites da casa grande, havia um enorme poço, que abastecia a fazenda por meio de um sistema de bombeamento. A cacimba e o tamarindeiro, conforme relato dos mais velhos, seriam herança dos jesuítas, que ali se estabeleceram em meado do século XVIII e implantaram a Missão de Conceição do Maracu, marco inicial da colonização de Viana.

Um pouco mais à frente do pé de tamarindo estendia-se o goiabal, local preferido da meninada, durante o recreio.

Eram tantos os pés de goiaba que formavam um entrelaçamento de galhos e davam um sentido de unidade, como se houvesse um único pé da árvore, o que possibilitava aos alunos percorrerem toda a extensão daquela floresta, movimentando-se pelos galhos das plantas.

Em determinada época do ano, repleto de frutos dourados, o goiabal se convertia em ótima fonte de nutrição, ainda mais considerando o estado de carência da comunidade.

Porém, ávida por vadiagem, a molecada não apenas se alimentava dos frutos maduros, como fazia-os de bolas de pingue-pongue, atiradas uns contra os outros. Era uma gritaria ensurdecedora quando a goiaba madura espatifava na blusa alvinha de farda de um colega, provocando uma enorme mancha vermelha, para o desencanto das mães, obrigadas a trabalho dobrado para reabilitar os uniformes.

As brincadeiras assumiam um tom de drama, quando a goiaba arremessada acertava, indevidamente, um órgão da criança, como o estômago, por exemplo. Eu passei por situação difícil, quando um primo meu atirou-me um fruto ainda verde. A goiaba acertou-me na altura do fígado, e por alguns minutos eu perdi a fala e a respiração.

Chamada às pressas, a professora Ceciliana, por coincidência minha madrinha, tirou-me daquela agonia e “premiou” o agressor com meia dúzia de bolos. Além disso, proibiu o acesso às goiabeiras por uma semana.

Mas nem os filhos dela escapavam das presepadas no goiabal. Silvana era morena clara, traços delicados e os cabelos secos, fartos, do tipo fogoió. Adorava jogar as goiabas contra os colegas e, ótima arqueira, quase sempre se saía melhor nos arremessos.

Acontece que nem sempre o caçador se dá bem e uma hora ele vira caça. O dia de Silvana chegaria, e ela, de tão atingida pelas goiabas, ficou parecendo um mostrengo – a farda toda ensopada de vermelho, como se do próprio corpo escorresse sangue, e os cabelos numa espécie de sopa de beterraba. Minha madrinha, que não era de passar a mão na cabeça de transgressores, disciplinou gregos e troianos, e Silvana, mesmo a contragosto, teve que acertar as contas com a palmatória.

*Jornalista

Gênero e raça na literatura brasileira são discutidos na 11ª FeliS

Três auditórios que estão funcionando durante a programação da 11ª Feira do Livro de São Luís no Espaço Casa do Maranhão, no Centro Histórico

Programação faz parte da 11ª FeliS (Foto: Divulgação)

O Estado do MA

SÃO LUÍS – Estimular leituras mais profundas sobre as temáticas discutidas é uma das propostas da 11ª Feira do Livro de São Luís (FeliS). O estimulo acontece a partir de palestras que estão inseridas na programação da FeliS desta segunda (13) oferecendo um cardápio recheado de boas opções, com destaque para a palestra “Gênero e raça na literatura brasileira pós lei 10.639”. O palestrante será o o ex-secretário de Igualdade Racial do município de São Paulo, Maurício Pestana, e mediação do professor doutor Antonio Evaldo Almeida Barros (UFMA/Uema), que acontece no Teatro Alcione Nazaré, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, às 20h. A Feira do Livro, que acontece até o dia 19 na Praia Grande, é promovida pela Prefeitura de São Luís em parceria com o Governo do Estado.

No Espaço Casa do Maranhão, o Auditório 1 (Raimunda Pereira) apresenta programação das Secretarias de Estado da Juventude, Igualdade Racial e da Mulher. Às 10h, vai ter roda de conversa sobre Estatuto da Igualdade Racial, com Socorro Guterres. Às 15h, é a vez da roda de conversa sobre Feminicídio, com Susan Lucena e Marjorie Matos. Às 18h, tem exposições e entretenimentos.

No Auditório 2 (Úrsula), às 10h, tem a palestra “Políticas Públicas do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas no Brasil, Maranhão e São Luís”, com Renata Costa, Carlos Wellington, Thaís Rodrigues e mediação de Aline Nascimento. Às 14h, haverá a palestra “Educação na diferença: por uma igualdade de gênero e raça no ensino brasileiro”, com Josédla Fraga Costa Carvalho (Ceuma), Tatiane Silva Sales (UFMA) e mediação da Dra. Cidinalva Silva Camara Neris (UFMA). Já às 15h30, tem a palestra “A literatura Maranhense sendo descoberta como fonte de pesquisa no meio educacional”, com Samuel Barreto, Wybson Carvalho, Elizeu Cardoso, e mediação de Ana Neres. No Auditório 3 (Cantos a Beira Mar), às 15h30, tem a palestra “A Escola sem machismo”, com Thais Campos (União Brasileira de Mulheres- MA) e Rosane Borges (USP/SP) e mediação de Nádya Dutra (Seduc).

Auditórios

Três auditórios que estão funcionando durante a 11ª FeliS no Espaço Casa do Maranhão. O Auditório 1 tem o nome de Raimunda Pereira, popularmente conhecida como Dica, poetisa e ativista dos direitos humanos, que estimulou a intelectualidade do jovem negro. “Preto só tem valor se for doutor” era uma frase que ela sempre dizia.

Neste espaço, há uma exposição com fotos e uma pequena biografia de mulheres negras de destaque em nível local e nacional, que fala sobre juventude, mulher e negritude, fazendo um passeio entre as três secretarias responsáveis pela programação, Secretaria de Estado da Mulher, Secretaria de Estado da Juventude e Secretaria de Estado da Igualdade Racial. Além disso, há um espaço para que o público exponha sua opinião sobre a temática.

A bibliotecária Janaína Ferreira, da Secretaria de Estado da Mulher, informa que o público também tem acesso a uma pequena amostragem dos livros da Biblioteca Maria da Penha, que é especializada em gênero e fica sediada na própria Secretaria, no bairro Calhau, em São Luís. “Aqui a gente quer fazer um espaço de reflexão, onde as pessoas se enxerguem. Trabalhamos conceitos e preconceitos para refletir, construir e desconstruir. As crianças e adolescentes que vem aqui saem estimulados a ler publicações sobre as temáticas discutidas”, explica.

Há também o Auditório 2 e Auditório 3 que receberam os nomes das obras “Úrsula” e “Cantos a Beira Mar” em homenagem à patrona Maria Firmina dos Reis. O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. “Cantos a Beira Mar” é uma coletânea de poesias da escritora.

Programação

A programação do Espaço Casa do Maranhão do domingo (12) no Auditório 1 (Raimunda Pereira), das 10h às 18h, contou com Exposições e entretenimentos promovidos pelas Secretarias de Estado da Juventude, Igualdade Racial e da Mulher. No Anfiteatro Beto Bittencourt, às 20h teve atração cultural.

No Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, houve o Café Literário, das 14h às 16h, com programação das unidades de internação de menores da Fundação da Criança e do Adolescente (FUNAC), Sarau Florescer e declamação de poesias. Às 17h, também aconteceu o sarau musical “Brilhando no café: Maria Firmina em verso e prosa” com a Escola de Música Lilah Lisboa e a roda de conversa “Mulher no Espaço de Poder “, com Laurinda Pinto, Socorro Guterres, Mundinha Araújo e mediação de Adriana Amarante (SSP).

No Espaço Viriato Corrêa, na Casa do Maranhão, das 13h às 18h30, aconteceu a programação da Biblioteca Pública Benedito Leite, com exposição de livros com rodas de leitura, contação de história e conversa com escritores. No Espaço Criança, na Praça da Casa do Maranhão, das 10h às 20h, tem programação realizada pelo SESC e Semed, com contação de histórias, música, dramatizações, dança, pintura de rosto, oficinas, dobraduras, apresentações de projetos das escolas públicas municipais de São Luís, apresentações artísticas, brincadeiras e jogos educativos.

Já na Casa do Escritor, no Cine Praia Grande, das 16h às 20h, houve o lançamento dos livros “Maria Firmina em Cordel” de Raimunda Pinheiro de Souza Frazão, “A lenda da carruagem encantada de Ana Jansen” de Beto Nicácio, “O vale das Trutas” de Sanatiel Pereira, “Politicotopia” de Aleluia Leonardo de Melo e “Balaiada – A Guerra do Maranhão – 2ªed” de Iramir Alves Araújo.

O evento é uma promoção da Prefeitura de São Luís e do Governo do Estado do Maranhão, por meio das secretarias municipais de Cultura (Secult) e de Educação (Semed), e estaduais de Cultura e Turismo (Sectur) e da Educação (Seduc), tendo como correalizador o Serviço Social do Comércio (Sesc), patrocínio da Vale e Potiguar e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), Secretaria de Estado da Mulher (Semu), Secretaria de Estado da Igualdade Racial (Seir), Fundação da Criança e do Adolescente do Maranhão (Funac), e Secretaria de Estado Extraordinária da Juventude (SEEJUV), Academia Ludovicense de Letras (ALL), Academia Maranhense de Letras (AML), Associação dos Livreiros do Estado do Maranhão (Alem), Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

A maior obra literária da Baixada Maranhense vem aí! Lançamento do livro “Ecos da Baixada”.

Capa do livro – divulgação EDIÇÕES FDBM

Na próxima terça-feira (14/11) ocorrerá o lançamento da obra intitulada “Ecos da Baixada: coletânea de artigos e crônicas sobre a Baixada Maranhense”. O evento será realizado na sede da AABB (Calhau), a partir das 19 horas.

O livro foi organizado pelo escritor Flávio Braga e os textos são assinados por 32 coautores, naturais ou vinculados afetivamente à Baixada Maranhense.

A mencionada coletânea inaugura o catálogo de publicações do selo editorial “edições FMDB”, projeto literário concebido pelo Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM), entidade da sociedade civil, sem fins lucrativos, com atuação na Capital e nos municípios da Baixada Maranhense e do Litoral Ocidental Maranhense.

A publicação congrega uma plêiade de escritores baixadeiros, uns noviços e outros já consagrados no mundo das letras, amantes de sua região de origem, que, a despeito da riqueza natural, da diversidade multifacetada de mar, rios, lagos, terra, campos, flora e fauna, de ostentar uma riquíssima cultura – até um sotaque peculiar, um léxico de palavras únicas – continua amargando o esquecimento e um desenvolvimento espasmódico que alcança, só precariamente, a sua gente laboriosa.

Ler o livro é fazer uma impressionante viagem pela Baixada, percorrendo os seus encantos naturais, lendas, valores, saberes, tradições, costumes, gastronomia… e as nostalgias, prantos, sonhos, reflexões e reminiscências dos cronistas e articulistas.

Esteja presente e seja testemunha do nascimento de uma obra que o ajudará a melhor conhecer a intimidade e bem compreender os encantos da nossa Região ecológica. (Via Blog do Léo Cardoso)

O glamour dos cabarés

Por Nonato Reis*

Até pouco tempo atrás perdurou a máxima que dizia que o cabaré é o lugar onde o homem se sente feliz. Eu nunca acreditei nisso, apesar de na juventude ter sido um exímio frequentador das chamadas casas de luz vermelha. E tenho até uma tese para essa assertiva. No cabaré o homem se sentia realmente em casa – e falo casa aqui no sentido metafórico da coisa.

Era onde ele dava as cartas e tinha a mulher que quisesse, independente de ser bonito ou feio, gordo ou magro, anônimo ou famoso, sem precisar gastar saliva ou tinta de caneta, flores e outros adereços. O que contava mesmo era ter saldo bancário ou algumas notas na carteira.

O cabaré brasileiro, como tantas novidades desembarcadas aqui, foi uma herança europeia, que procurava compensar a rotina previsível do lar, com as delícias do álcool e da carne. Na etimologia, cabaré deriva da junção do espanhol cabaretta, que significa casa de diversão, com o francês cabaret ou taberna, indicando um lugar de entretenimento,

Na chamada Belle Époque – o período marcado pelo reflorescimento intelectual e artístico na Europa e em especial na França – vicejavam em Paris, e ao contrário da ideia que fazemos deles, eram lugares de requinte e bom gosto, frequentados por luminares das artes e da cultura em geral.

O mais famoso deles, o Chat Noir, que fora pinçado do conto “O gato preto” do escritor Edgar Allan Poe, dava-se ao luxo de reunir entre seus visitantes o casal Jean Paul Sartre e Somone de Beuavoir. Os clientes acorriam a essas casas, ávidos por entretenimento e por saber as últimas novidades em matéria de literatura, música e política.

Os autores subiam ao palco para declamar poesias, ler trechos de obras ainda inéditas e até fazer discursos inflamados contra o regime.

No Brasil o cabaré viveu os seus dias de glória até a primeira metade do século XX, com especial destaque para o bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, chamada de Monte Martre Brasileira, numa alusão ao reduto boêmio parisiense. Nas casas esplendidamente iluminadas da Lapa o homem comum do morro podia esbarrar com os expoentes da cultura da época, como Portinari, Manuel Bandeira, Drummond, Villa-Lobos e Di Cavalcante.

Até o Presidente Getúlio Vargas se deixava envolver pelo charme da luz vermelha e vira e mexe podia ser visto na Lapa e, especialmente em Poços de Caldas, Minas Gerais, em cujo hotel que o hospedava mandara adaptar uma suíte nos mesmos moldes do quarto do Hotel Glória, no Rio, que o recebia regularmente.

O certo é que com o tempo esses lugares, antes repletos de luxo e riqueza, entraram em crise por uma série de fatores conjunturais, mais principalmente em face da proibição da jogatina, o seu principal ponto de atração e de geração de renda. O glamour desapareceu e cedeu espaço à decadência e à promiscuidade.

Mesmo assim, nos anos 70 e 80 ainda eram a principal atração noturna nas periferias das cidades, sejam de grande, médio ou pequeno portes. Eu já os conheci no último estágio de sobrevivência, abrigados em ambientes lúgubres e mal iluminadas. Deles fiz palco de pagodeiras e orgias (no melhor sentido da mistura “álcool/mulheres”).

Havia a Base da Ziloca, no retorno da Cohab, onde eu perdi a virgindade nos braços de uma loirinha de cara enfezada; a Base do Ribeiro, no retorno do Tirirical – que reunia as melhores meninas; e o Recanto da Madá, no Turu, que era o point dos figurões.

Peguei gosto pela coisa e em pouco tempo já me julgava graduado no assunto. Lembro-me de uma viagem de estudos memorável do curso de Jornalismo na cidade de Viana, minha terra natal, em 1982. Memorável, não pelo aspecto positivo, que isso fique logo esclarecido. Depois de um dia exaustivo entrevistando gente na feira da cidade, eu e mais um grupo de amigos decidimos fechar a noite no puteiro. Fomos para o “Luz da Serra”, que era o maior cabaré da cidade, em tamanho e problema.

Ocupamos várias mesas dispostas em círculos e solicitamos o concurso de dois garçons para servirem tira-gosto e cerveja. Em pouco tempo o acúmulo de garrafas vazias na mesa dava a ideia do consumo de álcool. Amado Batista inundava o salão e, mesmo sem saber dançar, eu me deliciava vendo os demais casais desfilando impávidos pelo salão quase às escuras.

Algum tempo depois, devidamente acompanhado de uma morena atarracada, pernas grossas e bunda imensa, deixei o salão e fechei-me no quarto. Ao passar pelo primo Valdenez, melhor treinado no ofício do que eu, ele ainda me advertiu ao pé do ouvido. “Primo, cuidado. Essa mulher é o demônio na cama”, ao que revidei com um sorriso de superioridade. “Deixa comigo, eu conheço o caminho”.

Eu me sentia cansado, após um dia duro de trabalho e o consumo exagerado de cerveja, mas a mulher estava ali convidativa e eu não podia deixá-la na mão. Veio o primeiro tempo e o segundo. No terceiro eu já falava coisa com coisa, e nem sei como dormir.

Acordei no meio da madruga, com a menina ao aos gritos. “Vem comigo, minha colega está morrendo no salão, ela tomou Baygon”.

Eu, mais morto do que vivo, balbuciei alguma coisa do tipo “vai você e diga que lhe desejo boa viagem”. Despertei com o sol a pino. Olhei em volta, a mulher dormia e roncava feito um bicho. Deitado de costas, coloquei as mãos na barriga e levei um susto. No lugar do estômago havia um buraco que parecia grudado à coluna. Pensei: “estou morto!”. Pulei da cama e me vesti. A casa estava toda fechada e eu tive que pular uma das janelas laterais, para ganhar a rua.

Fui andando pela estrada de piçarra em direção ao Ibacazinho, meu berço natal e onde ainda moravam os meus pais e minhas irmãs. Cheguei na Quinta, a algumas centenas de metros do rio Maracu, e na mercearia de Marcos, tio de uns primos meus, pedi suco e pão fresco. Ele disse: “tem refresco de coco e de maracujá”. Eu aprovei com a cabeça: “traz dois litros, um de cada e mais duas dúzias de pães”. Após a “lauta” refeição, achei que reduzira um pouco o tamanho do buraco na barriga. Mas ao sair, Marcos comentou apontando-me o abdômem. “Rapaz, o que foi isso?” Eu tangenciei: “Muito trabalho”. Ele sorriu e, do alto da sua experiência, recomendou. “Da próxima vez te alimenta melhor, antes de partir para o bom combate”.

Em casa, minha mãe me recebeu toda saudosa, como de costume. “Meu filho, eu já estava pensando que tu ia nos fazer a desfeita de vir a Viana e não nos visitar”. Eu usei a viagem de estudos como álibi. Depois pedi-lhe uma toalha e já ia me afastando à procura da cacimba no quintal de casa, quando fui flagrado pela sua observação. “Meu filho, o que fizeram contigo?” E passando a mão na minha cintura, completou. “Está parecendo um aracu desovado!” Eu responsabilizei a lida com os livros. “A senhora pensa que é fácil fazer faculdade? Custa muitas noites de sono, minha mãe”, e fui andando na direção do poço, a tempo de ainda ouvir meu pai comentar baixinho. “Faculdade coisa nenhuma. É puta que está acabando com ele”.

*Jornalista

Mistura Fina – novo conceito em moda unisex, inaugura loja em Viana

Inaugurada no último sábado, 4, o novo conceito em moda feminina e masculina na Cidade dos Lagos. Instalada na Rua Antônio Serafim Bairro Citel, a loja traz pra Viana as grandes marcas do mercado para atender uma clientela exigente que busca qualidade por um bom preço.

Nas prateleiras, marcas como GATABAKANA, CHARPEY, BONECA DE PANO, HERING, SANTA LOLLA, NVP, SANNY E MUITO MAIS, além de ter em seu estoque roupas infantis e juvenis.

A empresária Rosinha Muniz esclarece: “Mistura Fina trás em si um conceito diferente pra cidade de Viana, já que atende a gostos exigentes do seguimento feminino sem perder de vista a necessidade do dia a dia de nossas mulheres, Com esse passo, incluímos Viana no roteiro das lojas de sucesso da Baixada”, conclui.

A mistura fina funciona das 8 às 18h. Fones: 98 981430733 3351 1132 – para atendimento personalizado.