“Impiedade” de Bolsonaro com mortes por coronavírus parece psicopatia, diz Maria Rita Kehl

Quanto passaram de 10 mil, no dia 11 de maio, Bolsonaro lamentou pela primeira vez as mortes: “Olha, eu lamento cada morte que ocorre a cada hora. Lamento. Agora, o que nós podemos fazer é tratar com devido zelo recurso público. Em vez de fazer a notinha de pesar, que eu acho válido, eu também sou pesaroso a essas questões… Tem que dar exemplo, gastar menos”.

© Reuters Bolsonaro andou a cavalo em manifestação a seu favor em Brasília

Quando uma apoiadora pediu uma mensagem de conforto para as famílias em luto no Brasil, e o país superava 30 mil mortes, nesta semana, no dia 2 de junho, Bolsonaro respondeu: “A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”.

Essa “impiedade” do presidente da República, nos olhos da psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, se aproxima da psicopatia. A designação define pessoas com traço comportamental em que há falta de remorso ou empatia com o próximo, entre outras características.

“É muito difícil fazer diagnóstico de alguém que não conhecemos”, diz ela. “Mas a minha impressão desde a campanha é que ele está mais próximo daquilo que a gente chama de psicopata.”

Para ela, a impossibilidade da despedida de parentes ou amigos mortos na pandemia é traumática e pode levar a processos de luto mais longos e melancólicos. Kehl compôs a Comissão Nacional da Verdade, que investigou os crimes da ditadura militar no Brasil. Ela compara o luto pela morte de pessoas na pandemia ao luto pelos desaparecidos na ditadura.

Por telefone de casa, em São Paulo, à BBC News Brasil, Kehl falou sobre a pandemia, Bolsonaro e a “tristeza e indignação coletivas” que os brasileiros sentem. Seu livro “Ressentimento” será relançado em agosto pela editora Boitempo, com edição revista e atualizada.

Leia abaixo trechos da entrevista.

BBC News Brasil – Pessoas estão perdendo familiares e amigos sem poder se despedir. Qual é o peso disso para o luto?

Maria Rita Kehl – Comparo com a impossibilidade do luto dos desaparecidos na ditadura. O desaparecimento depois de um tempo indica que foram mortos, mas os corpos nunca foram localizados. Sabemos do desespero desses familiares. Até hoje desaparecem pessoas no Brasil, mas em geral nas periferias, pessoas negras, mortas pela polícia.

A morte é um fenômeno difícil de simbolizar… De repente o corpo está, mas a pessoa não está. Por isso que não tem uma cultura tão primitiva que não tenha um ritual de sepultamento em homenagem a seus mortos.

De modo que só posso imaginar que [no caso dos mortos por coronavírus] deve ser um luto quase impossível. Só não é tão impossível quanto a dos familiares dos desaparecidos porque a morte foi real, aconteceu.

Já é ruim o suficiente em qualquer morte. Agora, as pessoas não podem ver, não podem sepultar. Seu parente entra no hospital, depois você fica sabendo da morte e não pode nem ver o corpo. Isso é muito traumático. Tenho impressão que essas pessoas vão ter processos de luto mais complicados, mais longos, melancólicos do que os processos de luto que já são tristes de pessoas que a gente sepulta.

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