Estouro de válvula na nova adutora do Italuís é politizado e expõe o jogo pesado da corrida pelo poder

Repórter Tempo (Ribamar Correa)

Flávio Dino permaneceu mais de 15 horas no canteiro cobrando e ouvindo explicações sobre o acidente e os trabalhos de retirada da válvula defeituosa

A tensão política que domina o Maranhão com a aproximação da campanha para as eleições do ano que vem é tão forte que contamina até mesmo problemas de natureza estritamente técnica, como o estouro de uma válvula que impediu a entrada em funcionamento da nova adutora do Sistema Italuís, que vai ampliar o abastecimento de água em São Luís, hoje na iminência de entrar em colapso por escassez do chamado líquido precioso. A oposição aproveitou para explicar o defeito em uma das válvulas de pressão da adutora, localizada no trecho que corta o Campo de Perizes, que causou estouro da tubulação e a consequente interrupção da obra, como “incompetência” do governador Flávio Dino (PCdoB), que, por sua vez, chegou a chamar a Polícia Civil para investigar a suspeita de que o acidente poderia ter sido um ato de sabotagem. O fato é que o defeito técnico – que tirou de tempo o Governo e a população de São Luís e deu gás à Oposição e é responsabilidade exclusiva do fabricante da válvula – deflagrou uma batalha com ácidos petardos políticos entre e Governo e seus contrários.

As primeiras avaliações sobre o acontecido – que pode ser tranquilamente definido como um incômodo acidente -, logo mostraram que o Governo do Estado e o governador não têm qualquer responsabilidade direta no estouro da tal válvula, como também não foi encontrado qualquer indício de que o problema tenha sido resultado de um ato criminoso, ação de um sabotador antigovernista. Logo em seguida, técnicos experimentados chegaram à conclusão de que o que causou o estouro foi um defeito de fabricação na válvula da adutora, que funciona um mecanismo controlador da pressão da água, que é muito forte na dentro da tubulação da adutora. E ficou evidenciado que esse é um problema que diz respeito somente à empresa que forneceu o equipamento e à que responde pela sua instalação.

Não há que discutir o fato de que o Governo é o dono da obra, via Caema. Mas é também verdadeiro o fato de que ele não tem qualquer naco de responsabilidade direta no processo de implantação da nova tubulação. Como contratante, cabe ao Governo fiscalizar o trabalho das empresas contratadas via licitação, cobrar-lhes eficiência e o cumprimento do cronograma acertado – o que vinha acontecendo normalmente, diga-se. O acidente foi um imprevisto avassalador, pois não havia como Governo e empresas contratadas preverem-lo. Assim, tentar crucificar o governador por causa de um problema dessa natureza é, no mínimo, injusto e descabido. Afinal, o chefe do Poder Executivo maranhense é um ex-juiz federal e professor de Direito que abdicou da segurança da magistratura para brigar por mandatos e tem se revelado um gestor de ponta, eficiente, com os pés firmados no chão e, mais do que isso, sem qualquer manche ética ou moral no seu currículo. Isso não o isenta de críticas ou cobranças eventuais. Mas aponta-lo como responsável pelo estouro da válvula da nova adutora não faz sentido.

Por conta do adiamento do funcionamento integral da nova estrutura do Sistema Italuís, houve quem criticasse o secretário de Articulação Política e Comunicação pela eufórica campanha publicitária que vinha badalando a antecipação da conclusão da obra. Pode ter havido algum excesso de empolgação no anúncio da sua antecipação, mas ele foi feito com base em informações técnicas que garantiam o encurtamento do cronograma, o que isenta a área de Comunicação da acusação de irresponsabilidade e incompetência. Afinal, a obra vinha andando em ritmo acelerado, mas dentro de uma normalidade que não indicava qualquer indício de que um problema dessa dimensão poderia acontecer. O clima já era de comemoração, no Governo e nas empresas, já que a probabilidade de um defeito na tal válvula era absolutamente imprevisível.

Ao mesmo tempo, a Oposição não deve ser satanizada pela tentativa de tirar uma lasca da credibilidade do Governo do qual é uma adversária que não faz qualquer concessão. Qualquer manifestação de insatisfação, de crítica e de cobrança em relação ao que aconteceu com a nova adutora do Italuís será lícita, pois se enquadra exatamente no direito à liberdade de  expressão e pensamento assegurada pelo estado democrático de direito. Salvo, é claro, quando a metralha verbal descamba para a  irracionalidade, o que não foi o caso, mesmo com as distorções em relação ao governador do Estado.

Finalmente, não fosse o viés político que contamina fortemente as já muito conturbadas relações Oposição X Situação, o estouro da nova adutora repercutiria e provocaria cobranças, mas não na escala que marcou o acidente em Perizes. É a guerra pelo poder que começa a ganhar densidade e intensidade.

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