Zé Lascó e o prato de “gordo”    

Por Luiz Antonio Morais*

Na pacata Viana do fim da década de setenta, um dos pontos mais frequentados pela comunidade era o lugar denominado “Praia”, onde eram vendidas as mais variadas espécies de pescado da água doce.

Era um típico porto pesqueiro às margens do lago, que ganhava mais frequentadores e movimento à medida em que as águas baixavam. Ali se podia comprar peixes tanto dos pescadores, assim como dos conhecidos atravessadores, que adquiriam o produto nas primeiras horas da manhã, lago afora.

Qualquer visitante ou turista que visitasse o local pela primeira vez ficaria maravilhado com a diversidade e o tamanho de curimatãs, aracus, surubins, pescadas, entre outros, oferecidos ainda vivos nas canoas; ou poderia tapar o nariz diante do pitiú** característico dos peixes vendidos entre cães vadios, urubus e animais como jumentos, burros e cavalos que puxavam inúmeras carroças ou carros de boi.

Nesse cenário barulhento de compra e venda, destacava-se a figura de uma senhora de baixa estatura, negra, adiposa, saias compridas de tecido de chita, sorriso sem dentes e uma extrema habilidade para cozinhar e vender uns dos pratos mais apreciados pelos pescadores que desembarcavam famintos pela manhã e, também, os fregueses que chegavam bem cedinho para comprar o peixe fresco e mais barato. Era conhecida pela alcunha de Faustina Careca.

Contam que, certa vez, um dos vira-latas que cercavam o seu humilde restaurante não parava de latir próximo aos fregueses. Dona Faustina, prontamente, deu-lhe uma pancada com a enorme colher de pau e, sem pestanejar, introduziu novamente, sem lavar, o artefato na enorme panela, na qual borbulhava um gorduroso cozidão de carne de porco. 

Nesse vai e vem de gente de todos os cantos da cidade, um garoto de nome José Pedro, apelidado de Zé Lascó, perambulava entre os adultos, de olho comprido, principalmente na comida que saciava os frequentadores da “Praia”. Era franzino, puxava um pouco da perna esquerda (menor que a outra), pés descalços, olhos esbugalhados e muito esperto. Dos meninos da época, era um dos que mais se destacava nas peladas de fim de tarde, na imensidão dos campos verdes que se espraiavam após o período chuvoso na Cidade dos Lagos.

Zé Lascó era ávido por saborear um daqueles pratos de dona Faustina, mas nunca juntara dinheiro suficiente para degustar aquelas iguarias, principalmente um tal de “gordo”, que os fregueses sempre suplicavam para que a cozinheira caprichasse mais na quantidade.

– Esse “gordo” deve ser muito gostoso – comentava o menino, com água na boca.

Certo dia, Lascó decidiu que não poderia deixar de realizar esse sonho gastronômico. Deu  plantão na Praça da Matriz, onde se situava a agência de passagens do pau-de-arara, que fazia linha de Viana até o Povoado Cachoeira, cujo percurso seguia por uma poeirenta estrada vicinal, passando pelo campo, pontes de terra batida e piçarra improvisadas por entre alguns igarapés, passando pelo povoado Ibacazinho, até chegar ao Rio Pindaré, onde um pontão, espécie de balsa de ferro, atravessava veículos e passageiros até o outro lado, que dava acesso à cidade de Vitória do Mearim.

– Tem bagagem pra levar? Levo baratinho aonde você quiser! Era um grito quase desesperador entre os garotos que tentavam faturar algum trocado, seja pra ajudar as famílias ou comprar alguma merenda.

Finalmente, nesse dia, Zé Lascó teve sorte. Ele conseguiu um bom frete, transportando na cabeça para algum canto da cidade, e obteve o recurso suficiente para comprar um prato de comida da dona Faustina.

– Quero bastante “gordo”. Pode até botar somente “gordo”, implicou o moleque, enquanto o prato era preenchido com inúmeros nacos de toucinho cozido, acompanhados de um arroz de cor avermelhada por urucum.

– Lascó derramou uma boa quantidade de farinha amarela sobre o prato e, em poucos minutos, devorou a comida dos seus desejos, completada por um copo de água de pote.

A rebordosa não demorou. O empanzinado garoto sentiu uns barulhos estranhos bem no local onde a mistura explosiva se alojara no estômago, anunciando que o esfíncter não seguraria a porção líquida de excrementos que já lhe rasgavam o intestino rumo a uma descarga irremediável. Correu até o matagal mais próximo e mal teve tempo de abaixar o calção.

O famoso “gordo” de dona Faustina havia feito mais uma vitima. Esse prato nunca mais! 

CRÔNICA PUBLICADA NO LIVRO ECOS DA BAIXADA.

*Nascido em Viana-MA, Jornalista (MTB – 918). Pós-Graduado em Design Gráfico pela UFMA – Universidade Federal do Maranhão. Publicitário e Designer Gráfico. Membro da Academia Vianense de Letras (AVL) – Cadeira nº 20 – Patrono: Bispo Dom Hélio Campos.

**Típica gíria maranhense. É o cheiro característico de peixe. Você consegue senti-lo com maior intensidade nos mercados que vendem frutos do mar. 

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