“Zé Lascó” e as lapadas de “Sarney”

Ilustrativa

 Luiz Antônio Morais*

Era um dia típico na Cidade dos Lagos. Depois da escola, muitas brincadeiras de época entre os garotos, ou seja, brincar com carrinhos de lata, chuço, bolinhas de gude, pião (feito artesanalmente com coco babaçu) ou, ainda, caçar passarinhos, empinar papagaios, jogar futebol na Praça da Matriz e tomar banho no lago de Viana.

Mas era preciso retornar ao lar, principalmente na hora do rango, caso contrário, dependendo do atraso, poderia ganhar uma boa surra de cipó ou de galho de goiabeira, tomar banho e, somente depois, fazer a refeição.

No entanto, se, para uma minoria dos vianenses, a hora do almoço era uma festa abastada, à base de carnes nobres ou outras iguarias, para muitos meninos pobres restava se contentar com pequenas porções de peixe do lago, arroz socado no pilão e muita farinha-d´água para engrossar o pirão de cada dia. Carne de boi, geralmente só aos domingos. E era carne de segunda ou de terceira.

Por isso, em vez de uma deliciosa sobremesa, restava aos garotos suprir a iminente fome da tarde, entrando em alguns quintais que mais se pareciam com um pomar, muito comum nas casas do interior nessa época.

A turma que eu fazia parte apreciava pular a cerca de arame farpado da acolhedora residência do padre Eider Furtado e da sua irmã, a professora Edith Nair. Ali, existia uma grande variedade de manga, goiaba, pitanga, mamão, jaca, coco, carambola e outras fruteiras que abasteciam e saciavam a fome de quem tivesse a habilidade de invadir a propriedade sem despertar o olhar desconfiado do religioso, sempre de plantão com enorme relho de couro cru para botar a turma para correr.

Outro quintal bastante frequentado na época era o da Igreja da Matriz, repleto de pés de mangas-rosas, goiabeiras e mamoeiros. Mas era ali que morava o perigo: um temido sacristão – pessoa responsável pela guarda e pela limpeza da igreja –, que usava o epíteto de “Sarney”. Enquanto escrevia esta crônica, tentei, em vão, descobrir o nome de batismo do cidadão e, é claro, o porquê desse apelido, porém só consegui saber que ele era natural de Monção, também na Baixada Maranhense.

Dentre suas atribuições, estava a de comandar o programa vespertino “A hora da Ave Maria”, transmitido por dois potentes autofalantes afixados nas laterais da torre da Igreja da Matriz. Pontualmente às 18 horas, semanalmente, exceto sábados e domingos, “Sarney” ligava uma vitrola bem antiga que tocava aqueles inesquecíveis sucessos do Padre Zezinho, entre outros hinos religiosos. O meu canto preferido era “Cálix Bento”, de Milton Nascimento, que o sacristão gentilmente oferecia a este garoto cheio de sonhos, cuja introdução era: “Oh, Deus salve o oratório. Onde Deus fez a morada, oiá, meu Deus, Onde Deus fez a morada, oiá”…

E foi numa dessas incursões de “roubar” frutas em quintal alheio que o nosso amigo “Zé Lascó” se deu mal mais uma vez.

Estávamos todos se empanturrando com nossa merenda natural, quando, de repente, “Sarney” irrompe o quintal, saindo do interior da igreja, falando impropérios e ameaças de todo tipo. A princípio, dada à função do religioso, tudo parecia um blefe, mas ninguém esperou para saber; menos “Zé Lascó” que, ao tentar atravessar as duas linhas de arame farpado da cerca, ficou preso entre elas com o traseiro na mira de “Sarney”.

O sacristão olhou de um lado para outro, avistou um pequeno pedaço de tábua, pegou e desferiu umas dez lapadas na bunda do desesperado garoto, que gritava de dor, arrancando gargalhadas de todos.

Quando finalmente conseguiu se desvencilhar da surra, com o calção todo rasgado, “Lascó” revelou aos amigos que fizera uma improvável confissão ao sacristão:

– Nunca mais iria roubar frutas no quintal da igreja da Matriz!

*Crônica integrante do livro ECOS DA BAIXADA

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