Viana e o preconceito social

 

Nonato Reis*

Viana já foi uma cidade marcadamente preconceituosa. Discriminava pela cor da pele, pelo poder aquisitivo, pelo comportamento sexual e até pela origem. Aqueles que residiam na zona rural padeciam desde o nascimento; eram tratados como subclasse, e muitos não tinham sequer o direito de serem identificados pelo nome. Eu e outros da minha época, egressos de uma comunidade ribeirinha, éramos chamados simplesmente de “Bacazinho”, embora o nome do nosso povoado seja grafado com o acréscimo de um “i” no início dessa palavra.

Mas era no plano social que a segregação se dava de forma deslavada. Havia clubes para negros, mulatos (resultado do cruzamento de negro com branco), prostituta, e, claro, para brancos. Os brancos, aliás, se julgavam imaculados e se davam o direito de frequentar todos os espaços, o que jamais acontecia de modo inverso. O Grêmio era o reduto da elite, mas quem era branco, ainda que pobre, desde que com uma amizade ascendente, podia ter acesso ao salão de festa do clube.

Na minha época de menino corria uma estória engraçada, envolvendo uma família tradicional da cidade, da qual pertenciam o padre Eider Silva e a Dona Edith, lendária professora do município, que fez história pelo carisma e pela maneira peculiar de ensinar geografia, desenhando os acidentes geográficos em plena lousa, à semelhança de um mapa cartográfico.

Conta-se que num dia de carnaval, o salão do Grêmio apinhado de gente, um dos irmãos Silva, conhecido por Zé Gato, famoso pelo senso de humor, acercou-se do presidente do clube, Caturro de Auro, e no seu ouvido segredou em tom grave. “Caturro, aqui está cheio de ‘gato’” (na época essa palavra era usada também para designar prostituta).

Assustado, o presidente quis saber onde estavam os tais gatos, para que fossem convidados a se retirarem. E Zé, na maior cara de pau, respondeu: “estão todos ao seu redor: eu, João, Rosa, Edith…” (e foi dando o nome de todos os membros da família, que eram chamados pelo sobrenome de Gato). O riso foi geral.

Piadas à parte, a coisa não tinha nada de divertido, e muita gente sofreu na pele a dor de ser discriminado em público. Eu me incluo nessa triste relação. Certa vez, em plena sala de aula, a diretora da escola, que nutria por mim indisfarçável antipatia, adentrou a turma sem pedir licença, focou os olhos em mim e disparou, alto e bom tom: “Aqui tem gente que parece que não toma banho. A farda, de tão encardida, só pode ser lavada em água de poção (designação de córrego)”.

Aquilo doeu feito um punhal encravado na alma, não apenas pelo efeito direto da ofensa, mas em face da injustiça contra minha mãe, que cuidava dos filhos com um zelo extremado. Mesmo morando no mato, nossa roupa era sempre bem levada e engomada. À noite, jamais sentávamos à mesa para jantar, antes de tomar banho e trocar as vestes, as unhas devidamente aparadas. Na hora de dormir, a reza de todas as noites: um pai-nosso, uma ave-maria, as oferendas e os pedidos ao reino dos céus.

De outra feita a diretora cismou com o meu cabelo que, entre os 12 e 13 anos, era o que eu exibia de mais atraente: louros, encaracolados, caídos aos ombros. Comparavam-me ao São João ocidental, pintado em telas a óleo. Ela achou aquilo um acinte para os padrões da escola, cujo traço mais visível era a disciplina. “Com esse cabelo você não entra mais em sala de aula. Pode cortá-los e bem rente!”, ordenou.

Com dor no coração, cortei-os. Ela achou pouco. “Tem que cortar mais!”. Cortei de novo. Não a satisfez. No terceiro corte, meu avô se encrespou e foi ter com ela. Resolveu. Mas a essa altura, nada mais me confortaria. A minha vaidade já havia sido ferida de morte.

Os duros golpes de preconceito eu tentava compensar com desempenho escolar. Houve um tempo em que fui alçado ao posto de primeiro da turma, o que me dava visibilidade, mas me deixava mal com os colegas, que iam à forra inventando apelidos, a maioria depreciativa. Porque tenho a cabeça meio achatada, igual cearense, me chamavam de “cabeça doida”, numa mistura que juntava anatomia e inteligência. Na sexta série ginasial, lá pelo mês de setembro, carregado de notas 10 em História, me recusei a fazer um trabalho em grupo, que somaria pontos na nota mensal. Sabedora, a professora me premiou com um Zero, mesmo tendo fechado a prova.

Pior foi o que aconteceu com um primo, o “Lourinho”, excelente aluno de Matemática. Um colega seu, que sentava atrás dele, desenhou um “24” (número atribuído ao veado) em suas costas. Indignado, ele tirou a blusa em plena sala de aula e exibiu à professora. Foi simplesmente expulso da escola, mesmo com um monte de gente intercedendo a seu favor. Teve que terminar o curso em outro colégio, enquanto o verdadeiro autor da confusão não sofreu nenhuma punição.

Só quem já foi vítima de preconceito conhece os efeitos danosos dessa praga na alma humana. Até hoje trago comigo as marcas da segregação. Sempre que vou a Viana, coisa que faço cada vez com menos frequência, procuro me refugiar à beira do rio Maracu, onde nasci e me encontro com as minhas origens. Da cidade poucas coisas cultivo, exceto o amor por sua história e o fascínio pela arquitetura de seus prédios coloniais. Pouco a visito. É como uma tela bonita que contemplo, porém desconfiado, guardando distância.

*Jornalista (Crônica escrita para o Jornal Pequeno).

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