Velório, um ritual de dor e de pinga

Nonato Reis*

No nordeste brasileiro, e em especial nas cidades do interior maranhense, o velório constituía uma celebração que, além de cânticos e orações para encomendar aos céus a alma do morto, oferecia comilança e muito grogue.

Daí nascera a expressão “beber o defunto”, um ritual fúnebre de origem africana, próprio da Umbanda. Em diversos países do continente negro, parentes e amigos do morto faziam uma lauta refeição e tomavam o tradicional marufo, espécie de cachaça típica de Angola.

Em Viana, no tempo da luz de querosene, chamava-se “sentinela”, e ao ambiente pesado de dor e de lamúrias acrescia-se um componente de diversão, que beirava à vadiagem. Eu via aquilo como um teatro, no sentido genuíno e também corrompido do termo. Na sala em que o morto era velado, dava-se a cena religiosa. Ali as pessoas mantinham um ar contrito e choravam, para demonstrar o quanto o finado era querido. Não raro, as lágrimas beiravam à histeria e alguns até desmaiavam.

Para além do ambiente fúnebre, geralmente no terreiro da casa eram armadas as mesas de jogos (baralho, dominó, dama), onde se concentrava o grosso do público, que comparecia ao recinto com a desculpa de se despedir do morto, mas o objetivo mesmo era se divertir e falar mal da vida alheia.

Velório bom tinha que ter contadores de causos, como Zé Branquinho, que passava a noite inteira desfilando estórias do arco da velha, para o delírio da numerosa plateia formada ao redor dele.

Eu não perdia velórios. Não por que tivesse, necessariamente, vínculos afetivos com o morto, mas pelo prazer de encontrar os amigos, tomar birita e até, com alguma sorte, namorar ou mesmo engatar um “casinho” para passar a noite.

Lembro-me até hoje de uma sentinela, na Palmela, do sogro de um primo meu, que ocorreu numa noite de chuva torrencial. Era tanta chuva, mas tanta chuva, que ninguém se atreveu a prestar “a última homenagem ao falecido”, exceto eu e os familiares mais chegados, entre eles uma menina muito bonita, dona de um belo colo e de coxas roliças.

Lá pela meia-noite, chuva de doer, todo mundo num clima só de tristeza, a menina me convidou para jogar dominó no terraço da casa. Eu topei na hora, já prevendo o desfecho da história.

Até tentei me concentrar nas pedras, mas o meu olhar disperso só conseguia fitar o decote do vestido dela. Cansada de ganhar e adivinhando a minha intenção, desistiu do jogo e conduziu-me a mão àquele ponto cobiçado, entre as ondulações. Daí para a frente rezei muito, não para a alma do morto, mas para que a noite não se findasse jamais.

Algumas vezes o excesso de álcool acabava por criar um clima de constrangimento e até situações caóticas. Como o caso de uma senhora obesa, moradora do lugar chamado Telhas, cujo enterro se deu debaixo d’água, no sentido lato e figurado do termo. O céu se desmanchava em água e a cachaça corria de boca em boca no gargalo do litro. Debaixo do temporal, e já com o cheiro de matéria em decomposição a exalar pelo ambiente, decidiram fazer o descarte da morta. Só que o caixão de tão largo não conseguia entrar na cova. Tiveram que aumentar o diâmetro do buraco, mas a morta parecia não querer ser enterrada.

Na tentativa de empurrar o caixão para dentro, este bateu com força no fundo do buraco, arrebentou e o defunto estourou. Foi uma agonia danada, com gente correndo para todos os lados, tratando de escapar daquele ambiente tétrico. A custo os coveiros, encharcados de pinga e de chuva, conseguiram tapar o buraco, em meio à terra enlameada e o mau cheiro terrível.

Zé de Aniceto não perdia sentinelas por nada. Era um típico frequentador de velório, bom de pinga e de lábia. Às vezes até o convidavam para, na despedia do morto, dizer algumas palavras, ao que ele, aos tombos, a voz enrolada, atendia de bom agrado. No discurso de improviso, exortava as qualidades do morto, tanto as que possuíra, como as que agradariam aos familiares entregues à orfandade.

Aconteceu que um belo dia morrera um sujeito que em vida fora a personificação da bigamia. Sua fama de mulherengo se estendia por léguas de distância, num perímetro que contemplava do Ibacazinho à Itans e ao Mocambira. Diziam as más e também as boas línguas que chegara a deitar com mais de 100 mulheres, entre donzelas, casadas e raparigas (em Viana essa palavra designava prostitutas). Mesmo assim, casara de papel passado. Dona Dolores, a escolhida, deu à luz dez filhos varões, e dizia nada ter do que reclamar do trato conjugal, atribuindo a fama negativa do marido aos invejosos. Como chefe de família que se preza, conviveu com ela debaixo do mesmo teto até os últimos dias de vida.

Zé de Aniceto chegou para a cerimônia fúnebre, quando o padre já entoava o cântico final. Aos trambolhões, a voz arrastada e uma garrafa de cana numa das mãos, pediu passagem, como se fosse alguém importante, e subiu em uma cadeira, que teve de ser escorada para não desabar junto com ele. Então iniciou a falação de desagravo ao morto.

– Este homem foi um injustiçado. Dizem por aí que deitou com muita puta e donzela, mulher casada também. Mas é mentira. Mentira das grossas. E aí está a viúva, pobre coitada em prantos, para atestar o que digo. Este homem, por conta das injúrias e da retidão de caráter, vai adentrar o reino da glória e sentar ao lado de pai celestial. É um santo!!”.

Nisso o corpo de Zé de Aniceto tombou para frente e ele desabou com garrafa e tudo em cima do caixão que, não resistindo ao baque, rolou para o chão com o defunto por cima do bêbado. Foi um alarido dos diabos; gente tentando ganhar o mato, para fugir dali. Outros procuravam, em vão, resgatar o morto das costas de Zé de Aniceto, que berrava apavorado. “Tirem este filho da puta de cima de mim, que ele já comeu mais de 100 e vai acabar comendo o meu (…) também”.

*Jornalista

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