Um banho de humanidade

José Ribamar d’Oliveira Costa Junior*

No início de uma bela tarde ensolarada, nos idos de 1974, na então pacata cidade de Viana-MA (meu torrão natal com muito orgulho), cidade histórica, cultural e de muita tradição, que se encontra encravada na baixada ocidental maranhense, constituindo-se em uma península banhada pelo majestoso Lago de Viana e do Aquiri, interligados pelo Rio Maracu, (daí a denominação de Cidade dos Lagos), no contexto maior do rosário de lagos do Maracu, deu-se um episódio que marcou profundamente a minha infância, dado o seu cunho humanitário.

O fato foi protagonizado pelo nosso saudoso irmão Messias Costa Neto, quarto filho de uma linhagem de dez do casal Zezico Costa (já falecido) e Terezinha Costa, que naquele período já demonstrava ser uma pessoa muito humilde e comprometida com as questões sociais. E teve início no interior da então loja de tecidos da família, situada na rua Cel. Campelo esquina com a Dom Hanleto de Ângelis, logo após reabrir as portas depois do almoço, como era de costume, quando lá adentrou um pobre menino de aproximadamente 12 anos de idade, compleição física bem franzina, que perambulava pelas ruas da cidade, e que por ser o mesmo averso ao asseio pessoal era conhecido pela alcunha de “cearensinho”. O apelido se dava, creio eu, devido a escassez de água no sertão cearense que, destarte, tornava difícil o banho naquelas paragens.

Naquele período o Messias era aluno secundarista do Liceu Maranhense, na capital do Estado, sendo que nas férias também se prestava a ajudar no comércio da família. Mas o fato é que ao se dar conta daquele menino sujo, maltrapilho e que exalava mau odor o nosso querido irmão não se conteve e o admoestou:

– Se você deixar eu te dar um banho, depois eu te dou uma merendinha: café com leite e pão com manteiga, tá vendo!!??

Apesar da tentadora proposta, o certo é que a princípio ainda houve hesitação por parte do admoestado, o que não desestimulou o proponente, que continuou a insistir no seu desiderato. No entanto, em face da tratativa inusitada que ali se verificava logo se aglomerou muitos meninos no recinto, alguns deles alunos da Escola São Sebastião (que funcionava em frente), por sinal, incrédulos com a possibilidade do “pequeno” vir a tomar banho, tamanha era a sua fama.

Enfim, com o entendimento das partes o Messias conduziu o menino pelo braço até o quintal da residência da família, que ficava apegada ao comércio, no que foram seguidos pela dileta plateia num clima de algazarra, que naquelas alturas ainda duvidavam do sucesso da nobre missão, surgindo inclusive apostas a esse respeito.

Acompanhando tudo ali bem de perto vi quando o meu irmão postou o indigitado à beira do poço, próximo a um tonel de água que lá havia, e com o uso de uma caneca passou a despejar água sobre a cabeça do menino desnudo, para em seguida enxaguar o corpo com uma bucha e sabão. Terminado o banho e recomposto o menino com as suas vestes eis que o Messias, cumprindo a sua parte no acordo, providenciou o prometido lanche ao esfomeado, que a tudo sorveu rapidamente sob os aplausos eufóricos da dileta plateia. Contudo, ressalte-se que nesse ínterim chegou ao local o nosso saudoso pai, um tanto quanto chateado pelo fato do Messias haver abandonado a loja, pondo fim à algazarra que se formou no quintal da casa.

Essa passagem serve para nos mostrar como a humildade é importante em nossas vidas, contribuindo, assim, de forma despretensiosa e sem interesses escusos para o engrandecimento do senso de humanidade. Pois, através de simples atitudes como essa narrada, pode-se estar fazendo algo em prol de alguém que muitas vezes se encontra perdido e precisa apenas de uma mão amiga e caridosa, e, assim, despertar para uma nova visão de vida.

Confesso que não sei dizer o destino tomado pelo menino carente, em todos os sentidos, que inclusive não era identificado pelo nome pessoal, que não se sabia, mas tão somente pelo apelido, muito embora fosse costumeiro se identificar as pessoas em Viana apenas dessa forma. Por outro lado, ressalte-se que o nosso irmão Messias continuou os estudos em São Luís do Maranhão, graduando-se em medicina pela UFMA, retornando em seguida para prestar relevantes serviços médicos em Viana e adjacências a todos que lhe acorriam, fazendo da medicina um verdadeiro sacerdócio. Depois elegeu-se Prefeito de Viana por dois mandatos
consecutivos, realizando considerado trabalho na área da saúde e educação, com uma atuação muito importante na zona rural, nunca se descurando do aspecto social e de cunho humanitário.

Com efeito, saliente-se que o Messias cumpriu a sua missão aqui na terra com humildade e dignidade, até quando teve a sua trajetória interrompida num trágico acidente automobilístico ocorrido na MA-012 na periferia de Viana, no dia 11 de julho de 2006, quando veio a óbito ocasionando uma grande comoção social. No seu cortejo fúnebre, milhares de pessoas de todos os matizes sociais espremiam-se nas estreitas ruas de Viana rendendo-lhes as últimas homenagens, embalados pela bela e marcante canção de Geraldo Vandré: pra não dizer que não falei das flores!!!

* Juiz de Direito da Comarca de São Luís-MA. Membro da Academia Vianense de Letras – AVL.

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