A Quinta do Maracu e o poço assombrado

Ilustrativa

Nonato Reis*

O lugar era deslumbrante, repleto de verde ao redor e alhures, com o Igarapé do Engenho de frente, preguiçoso e sereno, que se estendia como uma estrada líquida a perder de vista, entre os povoados erguido a suas margens. Delimitava-se a oeste com o Lago do Aquiri, a leste com Viana, a norte com o Ibacazino, e a sul com Itans.

A casa principal em estilo campestre fora erguida sobre um oitão, para resistir ao período invernoso, quando as águas cresciam abundantes e avançavam sobre os terrenos inundáveis, engolindo os campos verdejantes, reduzindo os territórios a uma nesga de terra firme. 

A Quinta do Maracu fora construída em taipa, colunas de tijolos e telha de barro. Quatro janelas guarneciam a frente da casa, com mais duas em cada lateral. Na entrada, uma escada em tijolos e cimento armado dava acesso ao salão principal, onde Marcos Muniz e Mendoca, os donos da propriedade, recebiam as visitas e contemplavam a belíssima vista do rio.

No fundo da sala ficavam os quartos, que seguiam um corredor até a varanda, onde havia uma mesa grande usada nas refeições. A cozinha em pedra e tijolos localizava-se após a varanda, em um plano inferior.

Marcos era conservador, metido a moralista, mas tinha um senso de humor aguçado e adorava contar suas peripécias de rapaz com o sexo oposto, muito mais para provocar o ciúme de Mendoca, do que levado por um sentimento de vaidade ou machismo.

Eu gostava de ouvir suas histórias e ele, percebendo o meu interesse, não se fazia de rogado. Havia o lance de uma festa que participara no Teso (campos de pastoreio) em que a mulherada se engraçara por seus dotes físicos e fazia fila para dançar com ele (minha mãe diz que ele dançava muito ruim), para o infortúnio dos concorrentes, que ficavam a ver navios.

De outra feita, namorara duas irmãs e ainda ficara com a caçula, dez anos mais nova, que se apaixonara por ele perdidamente e não houve sentimento de pecado que a fizesse esquecê-lo, sem antes experimentar o tal fruto proibido. Eu o admirava como a um pai e tinha por ele um respeito quase divino. Da mesma forma, ele gostava de mim e, mesmo sem jamais ter dito uma palavra reveladora, creio que me via como um entre os tantos filhos que teve.

Porém nem sempre a nossa relação foi um “mar de rosas”. Pelo contrário, no início ele não queria me ver nem pintado. É que, injustamente, puseram-me um selo de namorador. Diziam que eu “ficava” com todas as primas, o que para ele, moralista até a alma, soava como pouca vergonha. Pior: numa festinha de radiola, encharcado de álcool até a tampa, dancei com uma menina e “perdi os modos”. Os comentários se propagaram rápido e chegaram aos ouvidos dele, que reagiu com indignação: “um patife desse não ouse dançar com filha minha”.

Foi como receber um soco no estômago. Eu caía de amores por uma de suas filhas e não sabia mais o que fazer para conquistar a menina, que obedecia ao pai cegamente. Eu, porém, tinha os meus truques, e um deles foi alugar-lhe os ouvidos a suas estórias. Depois, já menos arisco, acompanhou-me a uma viagem a São Luís, para onde me mudara por força dos estudos. 

Cumpria então o meu primeiro emprego numa clínica de urgência veterinária. Eu assimilei rápido o serviço e em pouco tempo tornara-me o assistente preferido do médico, que era também o dono da clínica. Assim, todos os procedimentos externos, como vacinar e aplicar vermífugos e visitar animais em tratamento, ficavam sob minha responsabilidade.

Marcos, que passara a vida cuidando de gado e de plantações, ficou encantado com o meu trabalho e, nos dias que passou em São Luís, acompanhava-me em todas as incursões fora da clínica, tornando-se assim uma espécie de assistente do assistente. Ali nascera a amizade que duraria até o fim da vida dele. Quando punha os pés no Ibacazinho em períodos de férias, eu passava em casa só para deixar a mochila e já ia direto para a Quinta, e ali passava horas a ouvir suas histórias que, de tão repetidas eu já as sabia de cor. 
Na companhia de Marcos, Mendoca e os filhos, o tempo parecia não existir. Almoçava, jantava, entrava pela noite. Na hora de voltar para casa, Marcos dizia, “rapaz, dorme logo aqui! Mendoca ainda nem fez o café da noite”. Nessas horas eu resistia bravamente. Não porque preferisse dormir em casa, mas por causa da cisterna que abastecia a Quinta, localizada a alguns metros da escada de entrada.

Era um lugar assombrado e eu tinha pavor de passar por ali, mesmo de dia. Diziam que havia uma “mãe d’água” no fundo do poço, que à noite puxava o balde de quem se atrevesse pegar água ali. Um ladrão de galinhas, após “deitar e rolar” no galinheiro da casa, achou de banhar tarde da noite e acabou no fundo do poço, por milagre resgatado com vida na manhã seguinte. 

O poço, revestido em tijolos antigos e cimento, tinha uns três metros de diâmetro por uns 30 metros de profundidade e contam os mais velhos que fora aberto pelos jesuítas da Missão de Conceição do Maracu. Sua água era salobra e só usada para lavar e tomar banho. 

Uma noite criei coragem e acabei dormindo na Quinta. Sonhei que deixava a rede, armada na sala, e caminhava até o beiral do poço, para tomar banho. Ao arremessar o balde (preso por uma corda) na água, senti um arrepio na espinha e um sopro gelado no ouvido. 

De repente uma força descomunal empurrou-me para dentro das águas e mergulhei até o fundo lodoso, onde dei de cara com um padre barbudo, vestido a caráter. 

Sobressaltado acordei e me vi à beira do poço, o balde do lado, noite fria de doer e escura que nem breu. Dei um berro tão medonho que até os cupins interromperam o sono sagrado para me socorrerem. 

De repente cercado de rostos conhecidos e aflitos, que me cobravam explicações para aquela cena patética, desconversei. 

Disse que, sem conseguir pegar no sono, resolvera dar uma volta da casa e, distraído ao redor do poço, fora atacado, de repente, por uma raposa que, diante do meu berro medonho, fugira assustada para dentro do mato. 

Marcos, como que sondando-me a alma, advertiu-me. “Da próxima vez toma mais cuidado, porque tarde da noite raposas se transformam em qualquer coisa, até mesmo em padres de batina”

*Jornalista/escritor – Esta crônica integra o livro “A Fazenda Bacazinho”, previsto para este ano.

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