Os tesos da Amazônia e as marcas da história

Lago de Viana – Foto: Simone Rego

Por Nonato Reis*

Quem caminha pelos campos de Viana e, de resto, da Baixada Maranhense, já deve estar acostumado com aquelas ondulações que pontificam a planície verde a perder de vista. Mesmo na época das cheias, quando a água invade os territórios alagadiços, formando extensos lençóis líquidos, é possível notar a protuberância dessas elevações, como se fossem mini ilhas. 
São os chamados tesos, geralmente utilizados para fazer o manejo do gado, em face do inverno rigoroso. O que muitos não sabem é que esses pequenos montes não surgiram do nada, ou, para ser mais justo com a natureza, como resultado de um processo espontâneo de readequação do solo.

Estudos arqueológicos na região da Amazônia apontam uma conexão deles com a pré-história. Povos nativos da Ilha de Marajó, os chamados marajoaras, movidos por um imperativo de sobrevivência, mas também de cunho religioso, construíam espécies de açudes, fazendo escavações no fundo das lagoas temporárias de água doce, que se formavam no período da estiagem. 
A lama retirada era jogada cuidadosamente em áreas próximas às lagoas, dando origem às elevações de terra. Com os açudes os marajoaras garantiam fartura de peixe o ano todo, sem precisarem se deslocar para o leito dos rios, nem sempre próximo das habitações. 
Os tesos tinham múltiplas funções. Podiam abrigar vilarejos e servir de base para a fabricação de cerâmicas e objetos de arte. 
Porém a sua função primordial era de ordem fúnebre. 
As escavações na Ilha de Marajó mostraram que essas elevações artificiais eram usadas especialmente como cemitérios dos povos nativos, seguindo um critério de estratificação social. O tamanho e a altura do teso indicavam a relevância do indivíduo. Havia tesos de até dez metros de altura e quase um quilômetro de extensão.
As classes situadas no topo da pirâmide do poder possuíam tesos maiores, reduzindo sucessivamente de tamanho até chegar aos de menor dimensão, usados pelos habitantes mais simples. Tal como as pirâmides do Egito, os tesos guardavam urnas funerárias e eram palco de representações pictográficas do ambiente em que viveram as populações do Brasil pré-Descobrimento.
Tomando-se a Amazônia como um imenso território, além-floresta, com forte influência na Baixada Maranhense – o clima, o relevo e as precipitações pluviais da Ilha de Marajó são muito semelhantes aos da região ocidental maranhense – pode-se inferir, pela lógica, que os tesos tupiniquins foram construídos pelos nativos daqui com iguais finalidades.

Não por acaso, em Cajari, onde se pode observar algumas dessas ondulações, existiu em épocas remotas, um imenso vilarejo pré-colombiano, com hábitos e costumes típicos da cultura marajoara. A estearia, formada de pau a pique, sobre a qual eram construídas as habitações, ainda pode ser vista nos dias atuais, no período de estiagem, quando os estoques de água doce se reduzem drasticamente, deixando a descoberto boa parte do território do município.

*Jornalista
Fonte de apoio: “1499 – o Brasil antes de Cabral”

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