O Rio Maracu e suas águas místicas

Por Nonato Reis*

O rio Maracu não é um rio qualquer, não é um rio normal, pelo menos não na definição convencional de um curso natural de água doce. É como se em um mesmo canal coexistissem dois rios – um que se estende à vista de todos, como uma ponte fluvial entre os lagos do Aquiri e de Cajari; e o outro metafísico, que só a alguns é dado conhecer, que nasce nas entranhas da imaginação e deságua num estuário de medo e misticismo.

Falar do primeiro rio é simples e, afora a beleza geográfica do lugar, não há nada que desperte o olhar de admiração do leitor. Hoje, massacrado pela ação irracional do homem e a omissão descarada do poder público, o Maracu agoniza e, a permanecer o descaso, pode desaparecer do mapa aquático do Maranhão dentro de poucos anos. Existem passagens de terras em vários pontos do seu leito e a mata ciliar que protegia suas margens praticamente desapareceu.

Feito esse registro que se impõe como um imperativo de consciência, passo a me ocupar com o outro Maracu, o sobrenatural, palco de histórias escabrosas ocorridas à sombra da noite, desde tempos imemoriais. Como se sabe, as margens do rio, na altura do Ibacazinho, eram habitadas nos primórdios por tribos indígenas, que viviam da pesca e da agricultura rudimentar. Com a chegada dos jesuítas, atraídos para a região pelos relatos da existência de minas de pedras preciosas ao longo do bacia do Turiaçu, foi edificada a fazenda São Bonifácio do Maracu, marco da colonização de Viana.

Ao contrário do que muitos imaginam, os jesuítas não tiveram vida fácil na missão de Conceição do Maracu. Especialmente, pela revolta de colonos diante dos privilégios que os missionários recebiam da Coroa Portuguesa, na forma de isenções fiscais e no controle da utilização de mão de obra indígena. Os colonos, escaldados com o alto preço cobrado pela aquisição de negros, tentavam escravizar os índios, no que enfrentavam a dura resistência da batina.

Os jesuítas usavam de dois pesos e duas medidas. Para os colonos, impunham severas restrições para a utilização dos índios como mão de obra, mas eles próprios os escravizavam, a pretexto de catequizá-los. Isso acabou gerando enormes conflitos na relação de padres, colonos, negros e índios.

Não raro cometiam assassinatos de emboscadas e os corpos eram atirados no leito do rio, para evitar a sua elucidação. Isso deu a energia quântica para a transformação do rio em palco de aparições de espíritos e registros apavorantes, o mais famoso deles o de um gritador que infernizava o povoado na calada da noite.

Os mais velhos contam que, antigamente, toda sexta-feira de lua cheia, ouviam berros agonizantes das profundezas da terra. Poucos se atreviam a cruzar o rio após a meia-noite e esses que, por descuido ou necessidade, quebravam a regra, contavam histórias tenebrosas. Como a do vaqueiro que, tarde da noite, precisou ir à cidade à procura de um remédio para a mulher, picada por uma serpente venenosa.

Na volta, ao aproximar-se do rio, foi surpreendido com gritos medonhos, que pareciam vir da direção da Palmela. Sentiu que aquilo não era deste mundo, não podia ser. Escondeu-se atrás de um pé de algodão, rente à linha da água. Os berros se aproximavam rapidamente e ele notou que ao invés de um eram dois gritadores, como se duelassem entre si. Uma ventania varreu as margens do rio, arrancando árvores e arbustos, provocando ondas enormes que se debatiam contra os barrancos.

De repente dois touros com chavelhos em brasa surgiram na boca do rio, numa luta sanguinária, um devorando o outro, rasgando a carne, mastigando os ossos, o sangue jorrando em profusão. Atracados, os animais caíram na água e desapareceram formando um redemoinho gigante, que espalhou água a metros de altura. No silêncio que se seguiu uma voz agonizante ecoou do fundo do rio, num espasmo de dor, que pareceu explodir os miolos do vaqueiro: “Não me mata, seu desgraçado!!!”.

*Jornalista

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