Fumou maconha e ficou doido

Nonato Reis

Ilustrativa

O cérebro humano se baseia em signos para armazenar e selecionar eventos. Uma mesma palavra-chave pode provocar diferentes reações entre pessoas, dependendo das situações e das circunstâncias que cada uma viveu, envolvendo aquele signo. Que critérios a mente utiliza para memorizar ou descartar é um enigma que a ciência até hoje não conseguiu decifrar. Cigarro, bebida e bolinha de gude, por exemplo, me fazem lembrar de histórias engraçadas, algumas exóticas até.

Criança, adorava brincar com bolinhas de gude. Achava-as lindas naquele vidro transparente e de manhas diversas em contraste. Tinha coleção delas, de todos os tamanhos e cores. Uma prima levada da breca amava-as de tal forma que achou que podia engoli-las como se fosse pitomba.

Por sorte a bolinha passou no esôfago e foi parar nos intestinos dela, mas teve que tomar laxante para se ver livre da incômoda penetra. Até hoje me lembro do ruído da esfera de vidro batendo no fundo do penico, para o alívio de todos.

Comecei a fumar ainda menino, de tanto ver o meu pai às voltas com cigarros. Ele era um viciado contumaz, que acordava às 4 da manhã e já preparava o canudo de fumo e abade. Além disso em nossa casa havia uma bodega que comercializava o produto. Eu dormia e acordava inalando fumaça de cigarro, isso numa época em que fumar significava charme, beleza, elegância. Nos próprios filmes e novelas era comum ver os galãs dando grossas baforadas.

Eu fumava escondido, porque se descoberto era surra na certa, com talos de goiaba ou tamarindo que, ao contato com a pele, provocavam marcas vermelhas e até queimaduras. A certa altura eu já era tão viciado que, não tendo dinheiro para comprar cigarros, apanhava as tinchas (restos de cigarros usados) e fumava-as.

Em férias em São Luís, na casa dos avós, fui até o comércio mais próximo e comprei dois “Gaivotas”, um cigarro horroroso, porém o mais barato, preferido do meu avô.

Achando que ninguém me conhecia ali, fui para o meio da rua e, todo compenetrado, ao  primeiro casal que passou por mim fumando pedi ao cidadão que me fizesse o obséquio de acender o cigarro, ao que a mulher respondeu: “Nonato, tu já fumas"!? Vou dizer para a tua tia”. Levei um duro sermão e fui ameaçado de ter as férias na cidade interrompidas.

Quem se lembra de Jurubeba Indiana? Era uma bebida em forma de vinho, que tinha uma coloração escura e o sabor adocicado. Um dia eu e Zeca, meu primo, entornamos quatro garrafas da beberagem e vimos o mundo girar. Depois ele tirou dois cigarros de palha do bolso, me ofereceu um e depois falou: “vamos fazer a cabeça!”. Eu disse “o que é isso?” Ele explicou: “ é assim (…)". Então acendeu o cigarro, deu uma longa tragada e depois, sem expelir a fumaça, tapou o nariz com uma das mãos e com a outra começou a dar batitinhas na cabeça.

Não demorou e Zeca, os olhos vermelhos feito brasa e como se pisasse em nuvens de algodão, começou a delirar. Disse que possuía um palácio todo iluminado na Mutuca, canal que no inverno ligava o Rio Maracu aos campos inundados do Tamataí, e dentro do palácio uma princesa que emergia das águas.

Depois foi até a Praia Grande, comprou duas dúzias de Tapiacas (a popular Branquinha), voltou para casa e pediu à mãe que preparasse os peixes imediatamente, pois fora acometido de uma fome louca.

A mulher começou a abrir os peixes, Zeca entendeu que não daria tempo de esperar cozinhá-los. Pegou uma cuia com farinha de mandioca e se postou a um plano inferior ao jirau, onde a mãe preparava os peixes. As vísceras que ela arremessava do alto ele as apanhava no ar com a boca, igual cachorro, e as comia com farinha.

O velho Marcondes, pai de Zeca, vendo aquele espetáculo grotesco, ralhou: “esse patife fumou maconha!”. Tirou o cinturão da calça e acertou duas lapadas na costa de Zeca, que fugiu em disparada, desaparecendo no matagal que cercava a casa.

No final do dia Zeca reapareceu, triste e debilitado. A mãe já aflita com o seu sumiço abraçou-lhe aos prantos. “Meu filho, o que aconteceu contigo? Está pálido e magrinho.

Parece um aracu desovado”. E Zeca, o olhar espetado no chão: “Desovado, não, que eu não sou peixe. Mas sem os bofes, sim, que eu já botei tudo pra fora”.

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