A Fazenda Marimar e o baú de ouro

Nonato Reis*

Ilustrativa

A Fazenda Marimar encantava o visitante, em parte pela topografia em que se assentava e também por suas ligações com a origem de Viana, que dava ao lugar uma aparência mítica. No passado a casa da fazenda era uma típica residência agrícola em paredes de taipa, colunas de tijolos e cobertura de telhas de barro. Uma varanda em “L” servia de vista frontal para a planície verdejante, de onde se podia contemplar o Lago de Viana e a Igreja Matriz ao longe. A varanda demarcava os aposentos pessoais e a cozinha, localizada nos limites ao fundo.

Ao redor da casa, estendia-se um extenso gramado, pontificado de árvores seculares, como criviris, mangueiras, coqueiros e jatobás. Para a esquerda, cerca de 100 metros à frente, havia um campo de futebol, onde aos domingos ocorriam jogos entre equipes de povoados vizinhos (Icabazinho, Juncal, Palmela, Silva, Muricituba, Vinagre, Mucambira, Itans e até mesmo da cidade).

Do lado direito, destacava-se um belo exemplar de Jacama em cujas raízes, segundo relatos de descendentes da família, o patriarca do clã, Mariano Mendonça, o “Nhonhô”, enterrava suas economias, para fugir do assédio de ciganos, que de tempos em tempos apareciam na região quebrando a rotina dos vilarejos. Após a morte de Nhonhô, a propriedade foi passando de filhos para netos e destes para bisnetos até chegar aos dias atuais. Porém no lugar da construção original foi erguida uma casa moderna, para veraneio.

Em que pese o valor histórico do Marinar, em seus primórdios habitados por índios, negros e padres jesuítas, o que mais despertava a atenção do lugar eram as ocorrências de coisas estranhas e as especulações de que as terras da fazenda constituíam um repositório de riquezas dos tempos coloniais. Conta-se que muito tempo atrás uma pessoa da família começou a “receber a visita” em sonho do espírito de um índio, informando sobre a existência de um baú de ouro, enterrado ao pé de um velho limoeiro.

No sonho o espectro indicava a localização exata do tesouro, fácil de descobrir porque na superfície havia um círculo do tamanho de um bueiro de tubulação de esgoto, liso, sem vegetação de qualquer espécie. Dizia-lhe o espírito: “Não tenha medo. Vai lá à meia-noite e retira o baú, que é pesado, mas eu te ajudo”. A estória do sonho foi passada adiante, até que alguém mais corajoso decidiu “tirar a prova dos nove” e ver o que havia de fato além daquele círculo ao pé do limoeiro.

Com enxada e foice iniciou a escavação, mas não conseguiu avançar; primeiro porque o solo enrijeceu feito concreto e as ferramentas empregadas sequer arranhavam a superfície; e depois porque a certa altura surgiu um vulto embranquecido, como se envolto em um lençol, e a pessoa deixou o local amedrontada. Nunca mais ninguém se atreveu a fazer escavações ali, mas dizem que o círculo sem vegetação permanece até os dias atuais.

Virgínia Mendonça, que quando criança tinha pavor de passar perto do limoeiro, esteve no Marinar no final do ano passado, para comemorar a vitória do seu candidato a prefeito de Viana, Magrado Barros. Ao olhar a mancha na terra no lugar onde havia o limoeiro, sentiu calafrio e teve que sair de lá às pressas, o coração quase paralisado. Voltar lá? “Só se for contigo, primo!”. Eu, gato escaldado, dou de ombros: “é complicado, prima”.

E havia ainda a estória de um gritador, que dava berros medonhos tarde da noite para os lados do Poço da Malhada. O poço era uma cacimba colonial, provavelmente aberta à época dos jesuítas, revestido em tijolos e cimento. A água límpida e potável servia não apenas à Fazenda Marimar, como também aos moradores das redondezas, que ali tomavam banho, lavavam roupas e abasteciam seus depósitos para consumo próprio e preparo dos alimentos. Durante o dia, nada havia que indicasse qualquer anormalidade. Porém à noite ninguém se atrevia a passar por lá, porque os berros rompiam o silêncio das horas, rasgavam as entranhas da terra, ecoavam pelo ar afora. Não podiam ser coisa deste mundo.

*Jornalista

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