DR. HADADE – Conheça a história do médico vianense que dá nome ao novo hospital estadual do município

ANTONIO HADADE

Competência e dedicação ao desenvolvimento da Medicina no Maranhão

Por Luiz Alexandre Raposo*

Em julho de 2014 – último ano do seu segundo mandato-, a então governadora Roseana Sarney Murad recebeu uma comitiva da Academia Vianense de Letras. Previamente agendado pelo prefeito Francisco Gomes, o encontro tinha como finalidade apresentar à governadora uma sugestão de nome para o novo hospital estadual a ser construído na cidade.

Fachada do Hospital Antonio Hadade – Viana-MA, no bairro Vila Zizi. A obra recebe os últimos retoques, equipamentos e deve ser inaugurado no próximo mês, pelo governador Flávio Dino (PC do B).

Sempre voltada à preservação da memória vianense, o que inclui obviamente o reconhecimento público de homens e mulheres que ajudaram a escrever a história da cidade, a AVL indicou o nome do médico Antonio Hadade para ser homenageado com tal distinção.

Falecido em 1988, o vianense Antonio Hadade foi um dos grandes responsáveis pelo avanço e aperfeiçoamento da Medicina no Maranhão. Graduado em 1952 pela antiga Faculdade de Medicina da Bahia, antes de fixar residência definitiva em São Luís, Antonio Hadade retornou a Viana, onde prestou assistência médica à população local durante cinco anos.

A governadora, que conheceu pessoalmente o Dr. Antônio Hadade, prometeu encaminhar a sugestão da AVL para votação no plenário da Assembleia Legislativa, por intermédio do deputado estadual Max Barros. 

Uma história de vida que começa em Viana

Filho de família libanesa radicada em Viana, ele nasceu em 21 de dezembro de 1925. Era o segundo entre quatro irmãos. Seus pais, Felippe Hadade e Affife Brahs Hadade, haviam chegado à cidade alguns anos antes, assim como aconteceu com outros libaneses que migraram para o Brasil na época. 

O médico Antônio Hadade quando ainda trabalhava em Viana com sua equipe: Senhor Penha, Helmar Bacelar, Santinha Neves, Chico Travassos, Enedina Raposo e Salu Serra.

E foi por intermédio de outro filho de libaneses também residentes em Viana, o então acadêmico de Medicina (e futuro sacerdote) João Mohana, que o adolescente Antonio Hadade iniciou os estudos preparativos para ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia. Desse modo, em 1947, aos 21 anos de idade, conseguiu ser aprovado na seleção para aquela tradicional instituição de ensino superior.

Enquanto estudante, em uma de suas férias de fim de ano no Maranhão, Antonio assistiu à morte do pai, vítima de uma fatalidade ocorrida na Santa Casa de Misericórdia. Ao receber a transfusão de um plasma estragado, quando já se preparava para receber alta do hospital, Felippe Hadade teve óbito quase instantâneo, traumatizando para sempre a vida do filho que nada pôde fazer para reverter a situação.

Início da profissão

Após graduar-se, em 1952, o novo médico retornou a Viana no começo do ano seguinte para prestar serviços à população de sua cidade natal. Cumpria dessa maneira a promessa feita ao pai de, quando formado, trabalhar por alguns anos em benefício de seus conterrâneos, principalmente dos mais desvalidos.

Tal decisão, no entanto, não deixaria de lhe custar renúncias e até sacrifícios pessoais.

Foto de formatura do jovem médico

Ao partir da capital baiana, deixava ali uma noiva à sua espera, depois de recusar três propostas de emprego conseguidas pelo futuro sogro. Além disso, sem falar nas boas oportunidades perdidas para um profissional em início de carreira, as condições de trabalho em Viana nem se comparavam àquelas oferecidas em Salvador.

Na metade do século passado, prestar assistência médica no interior do Estado, principalmente numa região então de difícil acesso como a Baixada Maranhense, era realmente um desafio gigantesco. Nada, porém, que pudesse arrefecer o destemor e o idealismo do jovem médico de apenas 27 anos.

Por outro lado, para uma cidade que carecia de assistência médica permanente, a chegada do médico filho da terra trazia conforto e otimismo a seus habitantes. Recebido com carinho pelos conterrâneos, Antonio Hadade não mediu esforços para socorrer aqueles que necessitavam de sua ajuda. Para isso contava com o apoio de uma equipe de enfermeiros locais, composta por Chico Travassos, Enedina Raposo, Santinha Neves, Helmar Bacelar, Salú Serra e Senhor Penha (entre outros).

A atuação do Dr. Antonio Hadade estendia-se ainda a mais seis municípios circunvizinhos a Viana, conforme exigia o contrato de trabalho assinado com o Governo do Estado. Assim, fora os chamados de emergências, eram comuns as viagens periódicas a Penalva, Matinha, Monção, Cajari e redondezas.

O matrimônio

Passados três anos de trabalhos ininterruptos, quando enfim conseguiu suporte financeiro para arcar com a responsabilidade de manter uma família, Antonio Hadade retornou a Salvador em dezembro de 1955, para se casar com a jovem baiana Ruth Simões.

Casamento com Ruth Simões em Salvador

Enquanto trabalhava a milhas de distância, o médico manteve correspondência contínua com a noiva na Bahia, dando continuidade ao romance iniciado tempos atrás. O casal havia combinado residir em Viana por mais alguns anos. Antes disso, viajariam em lua de mel pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.

Ao desembarcarem em Viana, dois meses depois, um problema inesperado: a casa alugada pelo noivo, antes do casamento, havia sido ocupada nesse meio tempo por um homem que sofria de hanseníase. Para complicar a situação, os recém-casados não estavam sozinhos, mas acompanhados da mãe da noiva que viera para ajudar a montar a nova residência da filha.

Os três foram socorridos pelo pároco local, padre Manoel Arouche, que lhes ofereceu hospedagem temporária no Palácio Episcopal, enquanto procurariam uma nova morada. A questão é que o prédio ainda estava sem janelas e não dispunha de água. Realmente a recepção à esposa e à sogra do médico, em Viana, não foi nada agradável.

A mudança para São Luís

Antonio e Ruth residiram em Viana por pouco tempo, algo em torno de sete meses. Ao perceberem os sintomas que anunciavam a chegada do primeiro herdeiro, o casal decidiu que seria melhor contar com o acompanhamento pré-natal de um especialista em Salvador.

Desse modo, após o nascimento da primeira filha, D. Ruth retornou ao Maranhão, mas já acertado que ficaria em São Luís, enquanto o marido continuaria trabalhando em Viana por mais algum tempo. Um ano e meio depois, conseguida a transferência, o casal se reuniu novamente na capital, onde então começaria uma nova e profícua etapa na vida profissional do médico Antonio Hadade.

Entre os conterrâneos vianenses já cativados pela sua simpatia e capacidade de conquistar novos amigos, o médico deixaria não apenas a marca de sua competência, mas igualmente a gratidão e a admiração de todos pela sua disponibilidade em ajudar o próximo.

O reconhecimento e o prestígio na capital

Radicado definitivamente em São Luís, Antonio Hadade ganhou notoriedade como profissional da Medicina, o que o capacitaria a assumir os mais diversos cargos e atividades sociais.

Antonio Hadade ao presidir um evento do INAMPS em São Luís

Em pouco mais de três décadas de serviços prestados à população da capital (1957 a 1988), o médico concursado pelo antigo INPS exerceu diversas funções (veja quadro).

Como profissional voltado ao estudo, Antonio Hadade tornou-se membro da Associação Americana de Cirurgiões, proferiu inúmeras palestras e conferências sobre assuntos médicos, além de apresentar vários trabalhos científicos no Colégio Brasileiro de Cirurgiões, inclusive em simpósios realizados em Buenos Aires. Deve-se a ele, também, a implantação da residência médica no Maranhão.

Participação no 1 Encontro da Previdência e Assistência, em Brasília (1984)

O idealismo do biografado destacou-se, ainda, pela sua participação no ato de fundação da Faculdade de Ciências Médicas do Maranhão, e ao continuar ali prestando serviço como professor, até mesmo depois que a referida faculdade foi absorvida pela Fundação Universidade do Maranhão e, posteriormente, pela Universidade Federal do Maranhão, na década de 60.

Ao lado do então Ministro Jarbas Passarinho (1984)

Pelo resumido quadro do seu longo currículo, constata-se que Antonio Hadade não foi só um médico adstrito ao seu consultório, a um centro cirúrgico ou à sua mesa de gabinete. Sua competência expandiu-se em favor da medicina em todo o Estado do Maranhão, contribuindo para sua modernização e aprimoramento.

Falecido em 14 de abril de 1988, aos 62 anos de idade, o médico vianense deixou viúva D. Ruth Simões Hadade com quem teve quatro filhos: Maria Ângela, Maria Teresa, Maria Cristina e Luís Antonio.

Acompanhado dos então deputados Edison Lobão e Nan Sousa, durante a inauguração do Hospital Materno Infantil em São Luís

Ao pleitear ao Governo do Estado, portanto, uma digna homenagem a este médico que tanto trabalhou em prol da saúde dos maranhenses, a Academia Vianense de Letras tenta resgatar do esquecimento a figura deste homem que, pelos seus méritos e idealismo, merece realmente o reconhecimento e a perpetuação do seu nome na memória de seus conterrâneos.

O médico e a esposa Ruth Hadade no casamento do filho Luis Antonio

 

ANTONIO HADADE

• Secretário Regional de Medicina Social do INAMPS;

• Superintendente Regional substituto do INAMPS;

• Membro diretor da Santa Casa de Misericórdia do Maranhão;

• Professor fundador da Escola de Medicina do Maranhão (Faculdade de Ciências Médicas) e, posteriormente, professor de Clínica Cirúrgica do curso de Medicina, da Universidade Federal do Maranhão;

• Professor de Clínica Médica na Faculdade de Enfermagem;

• Professor da cadeira de Fisiologia da Faculdade de Farmácia;

• Secretário de Saúde do Estado do Maranhão;

• Secretário de Saúde e Assistência Social do município de São Luís;

• Diretor do Hospital Presidente Dutra;

• Presidente do Rotary Clube Praia Grande;

• Presidente do Sampaio Correia Futebol Clube.

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*Acadêmico da Academia Vianense de Letras (AVL)

Cadeira n 9 – Patrono: Dilú Melo

Publicado no jornal “O RENASCER VIANENSE” – Edição 43 – agosto de 2014.

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