Coronavírus: relato de sobreviventes

Nonato Reis*

O coronavírus entrou na minha vida, certo e estruturado, como um roteiro de cinema. Foi no dia 22 de abril, quatro dias após o falecimento da minha mãe, Dona Eulina. Como um inimigo oportunista que aguarda o momento certo para agir, deixou que o meu organismo atingisse o nível crítico de fragilidade, para facilitar o seu ingresso e a sua disseminação na cadeia molecular.

E onde está a previsibilidade? No óbvio. Minha mãe faleceu em casa, conforme o seu desejo. Precisei ir ao hospital pegar a declaração de óbito com o médico que a atendera nas duas vezes em que esteve internada. Ali me deparei com uma multidão de doentes que aguardavam atendimento, a maioria tossindo e com sinais de falta de ar. Desses, muitos sequer portavam máscaras. Achei que entrara numa espécie de corredor da morte.

Sabia que o contágio do vírus ocorre, predominantemente, entre o quarto e o quinto dias. Assim marquei os dias 22 e 23 como cruciais. O vírus nem se deu ao trabalho de brincar de esconde-esconde comigo. Eu me encontrava sozinho em casa. Após o almoço que eu mesmo preparara, deitei-me no sofá da sala, para a habitual sesta. Ao despertar, cerca de meia hora depois, sentia um desconforto nas costas, como quem dorme de mau jeito, e um desânimo inexplicável.

Travei ali uma luta entre a apatia e a necessidade de reagir, e apenas a custo consegui levantar e tomar banho. Me achava esquisito. Sentia arrepios no corpo e uma necessidade premente de repouso. Com as mãos tateei meu corpo. Estaria com febre? Pela temperatura, não. Pela indisposição, sim.

O curioso dessa história é que, apesar dos sintomas iniciais e de ter certeza de que o vírus chegaria em mim, eu não desconfiei de que poderia estar infectado. Afinal, apenas sentia o corpo febril e dor lombar, uma espécie de tendinite, que se projetava da altura dos rins até as pernas, um desconforto terrível que só controlava com analgésicos.

No meu caso, tendinite é uma coisa recorrente, e acho que tem a ver com a má postura na prática de exercícios físicos. Assim, o vírus conseguiu me ludibriar por sete dias, quando, afinal, “acordei” e vi que estava diante de algo mais grave. Não era possível que aquela dor e aquele estado febril permanecessem por uma semana. No oitavo dia decidi agir. Fui a um serviço médico e fiz uma tomografia. O resultado indicou infiltração viral no pulmão ao redor de 25%, característica de Covid-19.

A essa altura tentei fazer isolamento dentro de casa, no que Josy, minha mulher, rechaçou. Ela também já apresentava sintomas e achou que aquilo não fazia mais sentido. Ficamos assim os dois confinados e indefesos. Ao completar 12 dias, quando imaginava ter entrado na fase de recuperação, enfrentamos o pior momento na luta contra a doença.

Era manhã, bem cedinho. Josy fora ao banheiro. De repente pediu socorro. “Reis, me ajuda”. Corri ao banheiro e a encontrei no chão. Tentei erguê-la, mas as forças me faltaram. Com esforço supremo, consegui sentá-la no chão do banheiro. Quando a fitei, vi que seus olhos haviam perdido o brilho. Ela simplesmente não tinha qualquer sinal vital. E foi aí que a Covid se manifestou em toda a sua crueldade. Não podia sequer gritar por socorro, porque o ar me faltara e eu entendi que morreria junto com ela.

Fiquei nesse estado de perplexidade por uns 15 segundos, após os quais ela deu um suspiro e voltou a si, completamente desorientada.

Horas depois outra crise, mas desta vez sem perder os sentidos. A pressão caiu a 4X4. Nível de saturação: 90. Corremos ao hospital, e lá encontramos uma multidão aguardando atendimento. Não tinha como permanecer ali. Voltamos para casa e enfrentamos uma noite de agonia: Josy com taquicardia não conseguia dormir. Eu tentava de tudo para dar a ela um pouco de sossego: chás, remédios, massagens. Já madrugada, ela, vencida pelo cansaço, adormeceu, e eu também.

No dia seguinte eu parecia um autômato, agindo quase que maquinalmente, abatido por uma fadiga que me impedia até de lavar a louça. Com a ajuda de uma amiga enfermeira, Rai Mendonça, fomos ao posto de saúde do município no Turu, e lá, para a minha surpresa, fomos atendidos dignamente.

A doutora Luzi, ao me ver naquele estado lastimável, se sentiu comovida e não conteve um comentário pessoal. Disse: “meu amigo, se eu pudesse, eu sairia desta mesa e lhe daria um abraço”. Mal sabia ela que mesmo a distância eu senti o seu abraço e aquilo foi como operar em mim um milagre.

Daquele dia em diante ainda passaríamos sufoco – Josy dormiu mal por três noites seguidas, e eu, exausto, passava mais tempo deitado do que de pé -, mas a forma carinhosa como formos tratados no posto de saúde seria determinante para a nossa recuperação.

Também não posso deixar de citar o zelo e a dedicação que recebemos de amigos e pessoas do nosso convívio social, sem os quais eu não sei se estaria escrevendo este texto.

Os vizinhos de apartamento, compadecidos, preparavam a nossa própria comida e a deixavam à porta. Outros faziam compras de supermercados, conseguiam remédios, mandavam mensagens de ânimo. E ainda aqueles mais distantes que, mesmo não tendo como ajudar, se ofereciam para, no que fosse possível, tentar de alguma forma aliviar a nossa dor. Nunca me senti tão querido, e a eles devoto toda gratidão.

Hoje estou no vigésimo quinto dia; Josy, por volta do décimo sétimo – ela não sabe ao certo quando a doença se manifestou – e, afora uma tosse que aparece geralmente pela manhã e pela noite, não temos mais sintomas da doença. Só as forças ainda não recuperamos inteiramente, mas sabemos que isso é um processo e, se Deus quiser, logo estaremos livres desse martírio.

Não fosse pelas vidas – algumas tão próximas e caras – que já se perderam pelo caminho e projetam uma atmosfera tão carregada, teria motivos para sorrir e me sentir vitorioso. Porém a tristeza de perder tantos entes queridos, sem o direito de ao menos me despedir deles, faz de mim apenas um sobrevivente, que luta para retomar a estrada e seguir pela vida, até quando Deus quiser.

*Jornalista e escritor Vianense

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