Conceição, a Santa Fazendeira

Por Nonato Reis*

Quem imaginaria uma santa como proprietária de gado? Em Viana, terra de prodígios e coisas exóticas, havia uma, riquíssima. Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município, tinha casa de fazenda, vaqueiros e, o que é mais importante: gado. Chegou a dispor de um patrimônio de duas mil cabeças, constituindo-se, se não a maior, uma das mais importantes fazendeiras da região.

Cabia ao bispo de Viana administrar o patrimônio da Padroeira. Ele indicava um preposto com a missão de cuidar dos animais e zelar pela Fazenda Ibacazinho, sede do negócio. O primeiro vaqueiro designado para essa função foi Mariano Mendonça (o Nhonhô), que se manteve à frente do serviço por 30 anos. Depois dele vieram Antoninho Furtado e na sequência o seu filho, Sebastião Furtado. Por má gestão da igreja, a fazenda entrou em declínio a partir dos anos 80, até culminar com o seu desaparecimento.

A origem da fazenda é incerta e sobre ela paira uma aura de lenda. Numa das secas mais rigorosas, os vaqueiros de diversas fazendas, reunidos, transportavam o gado dos campos de Viana para os do Mearim, em melhor situação. O calor era intenso, o trabalho, cansativo. Um dos vaqueiros, à beira do desespero, prometeu a Nossa Senhora da Conceição que, fizesse chover naquele dia, daria a ela metade do seu rebanho.

De repente o céu escureceu em nuvens negras e a chuva caiu pesada, torrencial, sobre o solo, inundando os campos e selando o fim da estiagem.

O vaqueiro, porém, por acreditar que aquilo fora uma simples coincidência, ao invés de cumprir o trato com a santa, deu-lhe apenas uma rês, no que foi severamente castigado. Em pouco tempo, todo o gado de sua propriedade morreu, vitimado por um mal desconhecido.

A partir de então, em cada “ferra” (evento que reúne o gado de um proprietário para dar a “sorte” aos vaqueiros e regularizar as crias), o fazendeiro, por temor de castigo, mandava ferrar uma novilha ou um bezerro com a marca “N” de Nossa Senhora. Todos seguiam esse ritual e em pouco tempo o rebanho da santa tornou-se um dos maiores da região, dispondo de estrutura física de apoio e de pessoal para manejo.

A Fazenda Ibacazinho, nos anos que marcaram o seu esplendor, teve um papel importantíssimo no desenvolvimento do vilarejo, oferecendo escolas para jovens e adultos e promovendo iniciativas com vistas ao atendimento de suas necessidades.

Ceciliana Furtado, minha madrinha e esposa de Sebastião, organizava eventos, distribuía alimentos, orientava sobre saúde preventiva. Tudo passava pelo seu crivo: iniciação religiosa, missas, festas de Dia das Mães e de Natal, quadrilhas, bumba-meu-boi, piqueniques. Toda a infância passei ali, entre livros e diversão.

Fonte de pesquisa: “História de um menino pobre”, de Sálvio Mendonça.

*Jornalista

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