A Camboa encantada do Rio Maracu

Ilustrativa – google

Por Nonato Reis*

De todas as modalidades de pesca, a Camboa era a que mais me atraía, não porque fosse, necessariamente, eficiente, mas por ser feita de forma coletiva, o que propiciava brincadeiras e vadiagens. Consistia em percorrer a bordo de canoas uma extensão delimitada do rio Maracu, com as embarcações em fila de uma margem e de outra, até formar um círculo, sobre o qual eram lançadas as redes a um só tempo, de tal modo que todos os espaços da água fossem ocupados pelas armadilhas.

Na Camboa existem os ponteiros, em número de dois – um para cada lado – que servem de guias, determinando a direção a ser percorrida e também a velocidade do comboio. Cabe ainda aos guias manobrarem as canoas no tempo certo, para a formação do círculo, onde se presume haver a maior concentração de peixes.

Eu adorava servir de guia, porque era a função mais importante na pescaria, e também por me permitir fazer demonstrações de habilidade com a vara ou com o remo, instrumentos utilizados para impulsionar as canoas.

A propósito, em Viana na época da Ascensão de Cristo, no mês de maio, havia torneios de remo e vara e aos ganhadores eram concedidas medalhas de primeiro, segundo, e terceiro lugares, e também de troféus de honra ao mérito para os participantes.

À época em que vivi no Ibacazinho, dois canoeiros eram considerados imbatíveis: Zé Brito e Raimundo da Palmela. Ambos ganhavam a vida como vaqueiros, mas também transportando gente e mercadoria em canoas do Ibacazinho para Viana e vice-versa. Não raro, sem concorrentes à altura, eles próprios disputavam entre si corridas do povoado e à cidade, num percurso de quatro quilômetros sobre as águas, para o deleite dos expectadores.

A Camboa dava a oportunidade de conviver com todos e partilhar as delícias da pescaria. Essa modalidade de pesca foi herdada das tribos de índios que habitavam as margens do Maracu, conhecidos como exímios pescadores. O costume foi transmitido de geração a geração e alcançou a segunda metade do século XX envolto numa mescla de misticismo.

A estória que corria no povoado é que havia uma Camboa noturna sobrenatural, que percorria o Maracu na lua nova, quando o rio ficava às escuras. No inverno a lua nova era o período propício para a pesca em anzol do bagrinho, um peixe de couro que mede não mais do que 20 centímetros, muito apreciado pelos ribeirinhos.

A Camboa do Além, como era chamada, cruzava o rio após a meia-noite, e assim, para fugir dela, os pescadores tratavam de lançar as redes e os anzóis logo à boca da noite e recolherem-se antes da meia-noite. De casa, deitado em uma rede, muitas vezes ouvi aquele som característico do atrito das tarrafas sobre a água, todas lançadas ao mesmo tempo. Com o corpo arrepiado, eu me benzia, rezava um Pai-Nosso, e tratava de esquecer aquilo.

Um dia, porém, algo escapou do roteiro. Eu e um primo havíamos ancorado a canoa no Pesqueiro do Seu Romualdo, que ficava na margem oposta do rio, ao lado da casa de Raimundo Muniz, irmão de Marcos. Devia ser umas 8 da noite, mal apagara a lamparina e déramos início à pesca do bagrinho, fomos despertados com o barulho de remos e varas empurrando canoas.

Prestei atenção e vi que se aproximava de nós uma Camboa gigante com dezenas de embarcações. Quando chegaram em frente ao pesqueiro, os guias manobraram um ao encontro do outro, fechando o círculo. Ato contínuo, gritaram “arreia”! (que era o sinal característico) e todos lançaram as redes num barulho ensurdecedor.

Imaginando tratar-se de gente do povoado, icei a canoa para o meio do rio, ao encontro dos prováveis parceiros de pescas, mas, para o espanto meu e do primo, as águas do Maracu estavam límpidas e serenas. Não havia qualquer sinal que indicasse ali a presença de quem quer que fosse.

Com os pelos do corpo eriçados, eu e meu primo olhamos para o céu estrelado sem lua: tudo era brilho e silêncio. Até que uma estrela cadente riscou o espaço negro e caiu rente à popa da canoa. Remei decidido para a outra margem. Ao alcançá-la, tarrafas atrás de mim foram arremessadas outra vez, todas a um só tempo. Olhei em volta: o rio parecia dormir o sono dos justos.

*Jornalista

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