As três palmeiras e o disco voador

Ilustrativa

Nonato Reis*

Eu as chamava de “As três marias”, pelo alinhamento delas, uma após a outra, como as estrelas da constelação de Orion, que se mostram brilhantes em noite de céu limpo. Surgiram no cenário do nosso sítio no Ibacazinho, após a decisão do meu pai de roçar a densa floresta, que se estendia a oeste da propriedade, seguindo a margem direita do Igarapé do Engenho, na direção da Fazenda Bacazinho, que se localizava cento e cinquenta metros adiante.

Trago na memória as labaredas consumindo o matagal, elevando-se sobre as palmeiras, como imensas línguas de fogo a tocar o céu, em meio a espessas nuvens de fumaça negra. Sobreviveram ao incêndio por milagre, e a partir de então passaram a fazer parte do cotidiano da família, especialmente do meu e de Marília, minha irmã, com quem partilhava as brincadeiras e os sonhos de criança.

A cada palmeira demos um epíteto, que remetia a uma singularidade. A primeira árvore, um pouco mais baixa do que as outras, era chamada de Palmeira Tapiua – o termo tem a ver com um tipo de maribondo terrível, que ao picar deixa na pele um círculo avermelhado, não raro causando febre e dor de cabeça. Na copa da árvore havia enormes casas desses bichos, o que impunha cautela, ao derrubar seus frutos, pequenos e alaranjados.

A segunda palmeira, um pouco mais alta do que a Tapiua, era chamada simplesmente de “Palmeira do Meio”, por causa da sua localização, a meio caminho das outras. Afora o seu coco enorme, que parecia um mamão, nela nada havia de especial. Mas eu a admirava, pela superação. Das três fora a mais castigada pelo fogo, e para sempre ostentaria o caule negro, como testemunha da calcinação sofrida.

A terceira árvore era a “Palmeira Altona” que, como o próprio nome sugere, era a mais alta e esguia do trio. Elevava-se aos céus como uma flecha, com o seu caule reto e longilíneo, as folhas curtas e inclinadas para cima. Eu penava para derrubar seus frutos, pequenos e arredondados. E para isso só havia um meio: arremessar pedras, que nem sempre alcançavam o alvo, retornando para o chão, antes de atingir a altura adequada.

Mais do que palmeiras de estimação, as Três Marias tornaram-se “humanizadas” por mim e Marília, alçadas à condição de “cúmplices e confidentes” de nossas peripécias. Cada um tinha a sua palmeira preferida. A minha era a Tapiua; a de Marília, a Altona. A “Do Meio” fazia uma espécie de ponte entre uma e outra, cumprindo o papel de mediadora do grupo. Não havia um dia que não a visitássemos: seja para um simples cumprimento de “bom dia”, seja para colher seus frutos, ou ainda para contar-lhes alguma traquinagem própria da idade.

Além das Três Marias havia uma quarta palmeira, e sobre essa pesava um silêncio perturbador, uma cortina de mistério que eu não ousava transpor. Ficava localizada uns 30 metros após a Palmeira Altona, mas desta não dava para visualizá-la, porque entre uma e outra estendia-se uma floresta de cipós e árvores medianas. Eu a apelidara de “A palmeira de Punina” (Punina era uma tia-avó, que morava em nossa casa, espécie de segunda mãe, e o batizado da palmeira com o nome dela se deu porque um dia a vira colhendo cocos ao pé da árvore).

Eu a conhecia antes mesmo do advento de “As três Marias” e cheguei a manter com ela uma certa convivência. Até o dia em que, ao redor do seu pé, viveria uma experiência surreal. Era finalzinho de tarde, a noite já caindo sobre a floresta com suas manchas acinzeladas. Havia muito coco no chão e eu, entretido com a coleta dos frutos, perdera a noção de tempo..

De repente um ruído vindo do alto, como se fosse uma chuva grossa se aproximando, despertou-me a atenção. Olhei para o céu e vi um feixe de luzes incandescentes (nos mais diversos tons), muito próximo da copa da árvore. Apurei melhor a visão e aquilo pareceu tomar a forma de um imenso prato giratório que, como um relâmpago, desceu e pousou poucos metros adiante de onde eu me encontrava.

Perplexo, vi quando um jato de luz em tom violeta se projetou da nave e tocou-me na altura do coração. Foi como se aquilo me tivesse injetado um poderoso anestésico, e na mesma hora apaguei. Despertei horas depois, entre pés de tucuns, o meu pai tentando me resgatar daquele cipoal de espinhos. “O que houve, meu filho?”. Expliquei-lhe, mas pedi que não contasse aquilo para ninguém. “Por quê?”, indagou-me. “Porque vão dizer que endoidei”. Ele acedeu com a cabeça. Até eu, quando relembro o episódio, desconfio de mim.

*Jornalista e escritor – Esta crônica integra o livro “A Fazenda Bacazinho”, previsto para junho/2018.

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