A melancia gigante, as sementes e o curel

Foto ilustrativa

Por Nonato Reis*

Edite Silva e Gracinha Magalhães marcaram época como professoras em Viana. O tempo, que é o arquiteto da história, juntou as duas e me ofereceu de presente no curso ginasial. Uma já beirando os 70 anos no limiar da aposentadoria. A outra novinha, saída da adolescência, mal terminado o curso Normal.

Dona Edite era calma, risonha, educada; tinha uma aura divina. Ganhou notoriedade pelo gênio inovador. Professora de Geografia, dava aulas desenhando na lousa mapas das diversas regiões do País. Seu traço era tão preciso que se tinha a impressão de visualizar ao vivo e em cores os acidentes geográficos.

Gracinha, ao contrário, e mesmo sendo tão jovem, era disciplinadora implacável. O aluno que se metesse a besta com ela teria que se explicar com o diretor da escola e não raro pegava ao menos uma semana de suspensão.

Geraldo, meu primo, um dia pediu para ir ao banheiro. Ela disse: “vai, mas é só essa vez!”. Uma hora depois, reformulou o convite. Gracinha negou. “Vai não, senhor”. “Então vou mijar aqui mesmo”, ameaçou. E ela: “mija, se tu for homem”. Ele abriu a braguilha e cumpriu a palavra. Quase foi expulso do colégio.

No Ginásio Antônio Lopes, onde as duas davam aulas, havia um quinteto de alunos endiabrados, que de tão subversivos ganharam o apelido de “a turma do mal”: Ailton Aires, Murilo Muniz (meu primo), José Mauro Carvalho, José Arnoldson e Expedido Moraes. Ailton se tornaria juiz de direito, José Mauro, médico; Murilo, funcionário público; Arnoldson e Expedito, eu não sei o que foi feito deles.

Um belo dia Dona Edite e Gracinha Magalhães ganharam de presente de um pai de aluno uma melancia imensa, que pesava mais de 15 quilos. Por ser tão grande, Dona Edite e Gracinha, que adoravam a fruta, decidiram guardá-la na sala da diretoria, para ao final da aula saborearem o presente ali mesmo junto com os demais professores.

Ailton, considerado o cabeça do grupo, chamou os parceiros e propôs a missão: “Vamos roubar a melancia!”. A turma rechaçou. “Não tem como carregar um bicho daquele”. Ailton fincou o pé. “Tem sim, e eu sei como fazer”.

Zé Mauro andava em um jipe sem capota, que pertencia a Dulcídio, pai dele. Ailton então formulou a estratégia. “Zé Mauro, tu pega o jipe e estaciona rente à janela da diretoria, que dá para a rua do Grêmio. O resto da turma carrega a melancia e faz ela passar pela janela e cair dentro do jipe”

Operação concluída com sucesso, o grupo rumou no jipe até a Gurgueia, uma área de brejo na entrada da cidade e pontificada por pés de algodão. Ali deram cabo da melancia. Terminado o serviço, o grupo já se preparava para subir no jipe, e Ailton os chamou de volta. “Calma, que o trabalho ainda não terminou”.

Pegaram as cascas da melancia junto com as sementes e embrulharam em papel bruto, formando uma embalagem. Depois Ailton destacou uma folha do caderno que trazia consigo e rabiscou uma quadrinha, que colaram em cima do pacote e depositaram na sala da diretoria. O poema era mais ou menos assim:

“Comemos a melancia

Porque a gente tava com apetite

Os caroços ficam com a Gracinha

E o curel, com a Dona Edite”.

*Jornalista e Escritor

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