Tomou a vacina amarrado que nem gado contra aftosa

 

Imagem ilustrativa/O Globo

Por Nonato Reis*

As cenas de pessoas vociferando contra vacinas anti-Covid-19 e até maluquices como achar que, recebendo o seu princípio ativo no organismo, o sujeito pode sofrer mutações, a ponto de se transformar em réptil, remetem, inevitavelmente, a um tempo distante no Brasil, quando os moradores eram vacinados à força.

Isso aconteceu em 1904, no Rio de Janeiro, com a primeira campanha de vacinação em massa no país, para combater a varíola, que grassava na cidade. O episódio, considerado épico pelo seu ineditismo, fora patrocinado por agentes sanitários, que invadiam as casas e vacinavam as pessoas que nem gado.

Culpa do governo federal que não teve o cuidado de preparar a população, informando-a devidamente sobre a vacina e a sua importância no combate à epidemia. Boa parte da população não sabia do que se tratava e temia ser infectado pelo vírus da doença a partir da injeção, e essa desinformação acabou por provocar uma grande reação popular, que entrou para a história como a “Revolta da Vacina”.

A origem das vacinas remete ao século 10, na China, quando surgem os primeiros vestígios do uso de imunizantes, com a introdução de versões atenuadas de vírus no corpo humano. Só que a técnica aplicada nem de longe lembrava os métodos atuais. Os chineses trituravam cascas de feridas provocadas pela varíola e assopravam o pó, com o vírus morto, sobre o rosto das pessoas.

O termo “vacina” surgiu pela primeira vez, em 1798, a partir de uma experiência do médico e cientista inglês Edward Jenner. Ele ouviu relatos de que trabalhadores da zona rural não pegavam varíola, por haverem contraído a versão bovina, de menor impacto no corpo humano. Então introduziu os dois vírus em um garoto de oito anos e percebeu que aquilo tinha de fato uma base científica. A palavra vacina deriva justamente de Variolae vaccinae, nome científico dado à varíola bovina.

O certo é que, apesar de comprovadamente eficazes, e de produzirem reações mínimas no organismo das pessoas, as vacinas, até hoje são recebidas com desconfiança por parcelas da sociedade. Só para se ter uma ideia do tamanho dessa resistência, uma pesquisa de 2014, feita a pedido do Ministério da Saúde, mostrou que a média de vacinação no país era de 81,4%, enquanto que entre os mais ricos ficava em 76,3%.

 Se nas grandes cidades há rejeição contra as vacinas, imagine-se nas localidades da zona rural de difícil acesso. No Ibacazinho dos anos dominados pela luz do querosene, tomar vacina era um drama. Eu mesmo atravessei toda a infância sem receber um soro imunizante, sequer. Não por que temesse algum efeito colateral, mas por sentir pavor de injeção. Só de olhar uma seringa com agulha eu tremia feito vara verde.

Lembro de uma campanha de vacinação contra sarampo levada a efeito no início dos anos 70. Os moleques eram resgatados de dentro do mato, como se fossem rês desgarradas do rebanho. Sebastião Xoxota, personagem do romance “A Saga de Amaralinda”, deu show. Quando os agentes chegaram na casa dos pais dele com aquelas caixas de isopor a tiracolo. Tião fugiu por uma das janelas e desapareceu no mato. O pai, esbravejando, ordenou para os outros filhos: “peguem esse moleque”. Os irmãos se lançaram em perseguição a Tião, rasgando a floresta de cipó e cauaçu, que guarnecia a entrada da casa.

Tião acabou capturado em pleno Cemitério dos Anjos, quando tentou escapulir do cerco pulando entre duas sepulturas, escorregou e caiu. Os irmãos, tendo à frente “Cajueiro, o Grande”, amarraram os pés e as mãos dele com corda de prender garrote e o levaram até a presença dos agentes, que, assim, puderam vaciná-lo. Concluída a operação, um dos técnicos quis saber se a picada doera, ao que Tião reagiu, os olhos faiscando. “Meta um ferrão desse na bunda e o senhor vai ver se dói”.

*Jornalista | Escritor

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