Por que os edifícios caem!?

Prédio desaba em Fortaleza (15/10) e faz uma vítima fatal – Arquivo Google

Por: Luiz Carlos Pinheiro Gomes **

Quando o renomado professor Aderson Moreira da Rocha esteve aqui no Maranhão pela última vez pelos idos da década de noventa para ministrar a engenheiros o seu festejado Curso de Concreto Armado nas dependências do Hotel La Ravardière, regozijei-me com a sua respeitada presença e tive ali, no particular, a grata oportunidade de indagá-lo sobre diversos temas relacionados ao metier cálculo de estruturas de concreto armado, em especial perguntei-lhe: “Por que os edifícios caem!? ”

Essa é uma pergunta que vem sendo repetida e vale a pena tentar respondê-la para esclarecer equívocos.

Os edifícios caem pela mesma razão que caem os aviões, que afundam os transatlânticos e que explodem as espaçonaves. A razão está na aleatoriedade de todos os fenômenos físicos cujos múltiplos fatores de influência podem assumir conjugações extremamente desfavoráveis capazes de conduzir os viadutos, as pontes, os edifícios, os aviões, os transatlânticos ou as espaçonaves a colapsos indesejados.

Imaginar que projetos corretamente elaborados, construções primorosamente executadas e utilizações irretocáveis serão capazes de evitar inteiramente o risco de ocorrência desses colapsos é desconhecer sua natureza aleatória. Como dizem, sobreviver é superar riscos!

Todas as pessoas ao embarcarem nos aviões, por exemplo, implicitamente sabem que não importa o modelo, o projeto e a empresa aérea, elas estarão a correr riscos de acidentes fatais. Existem aqueles que se recusam a aceitar esses riscos e não embarcam nos aviões de maneira alguma, por exemplo. Mas, existirão sempre situações em que o benefício a ser auferido parece compensar os riscos a ser assumidos.

Não há como garantir a certeza absoluta de que um avião não venha a cair ou que um edifício, mesmo com alguns poucos anos construído não tenha risco de entrar em colapso. De fato, segurança não significa certeza, mas, sim, confiança. Os riscos não podem ser inteiramente eliminados, mas podem ser limitados em níveis de probabilidade aceitáveis pela sociedade. Se os aviões caem ou os prédios desabam — mesmo por absoluta falta de conservação das estruturas, a sociedade reclama e a Engenharia deve rever seus protocolos técnicos.

Hoje a maioria dos bons softwares que ajudam o engenheiro calculista na tarefa de elaborar projetos estruturais de edifícios, fazem análise e dimensionamento pelo consagrado “método dos elementos finitos” e trabalham com até bilhões de equações simultâneas! Isso mesmo, bilhões de equações, coisa humanamente impossível até há poucos anos atrás! E inúmeros fatores condicionantes para buscar uma melhor estabilidade das estruturas. Hoje também os síndicos dispõem (os que não dispõem deveriam dispor) de um Plano de Manutenção dos Edifícios, tudo de acordo com normas preconizadas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

O saudoso Doutor Aderson já nos falava das probabilidades de um edifício em concreto armado entrar em colapso por imprecisão de consideração de carga, posto que os coeficientes de segurança para o cálculo de concreto armado foram adotados via de regra na probabilidade 1:10.000. Isto significa dizer que para cada 10.000 estruturas calculadas 1 (uma) poderá entrar em ruína por erros expressivos de carga, diga-se expressivos. O que é evidentemente uma situação bem remota tendo em vista os meios de cálculos adotados hodiernamente pelos poderosos softwares modernos.

A nosso ver, os engenheiros devem convencer-se, pois, da realidade de que nenhuma construção, por melhor projetada, construída e regularmente conservada estará a salvo de infortúnios porque sua probabilidade de ocorrência, apesar de bem pequena, não será nula jamais! A sociedade necessita também convencer-se de fazer a sua parte e de que o risco está associado a todas as atividades humanas, inclusive a de transpor por cima de um viaduto avariado ou de morar em um edifício malconservado.

Entendo, pois, que a Engenharia de Estruturas age equivocadamente quando, através de seus representantes autorizados, passa à sociedade a convicção de que os colapsos podem ser inteiramente evitados pela competência profissional e que, por esse motivo, sua ocorrência é inaceitável.

** (Eng.º Civil/Titular da Market – Planejamento, Engenharia e Construções Ltda)

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