Ozimo de Carvalho, uma lenda vianense

Por Nonato Reis*

Viana deve a Ozimo de Carvalho mais que a colocação de um busto em praça pública e o batismo de logradouros com o seu nome. Farmacêutico de formação, foi na prática o médico de toda uma vasta região, numa época em que médico era coisa rara. Com a sua apurada técnica de manipulação de remédios, a partir do aproveitamento de ervas, folhas e raízes medicinais, curou enfermidades e salvou a vida de meio mundo.

Como esquecer o Amargo Digestivo, de difícil ingestão, mas obrigatório para os males do estômago e do fígado? Ou ainda o intragável Necatol, porém indispensável para vermes e demais parasitas? De tão onipresente, Ozimo era quase uma figura divina. Suas fórmulas tinham uma credibilidade que extrapolavam o campo do conhecimento e alcançam o universo místico. Mesmo quando havia médicos na cidade, situação quase surreal, as receitas que prescreviam tinham que passar pelo crivo do farmacêutico, sem o qual o paciente não as aceitava.

Ai daquele que Ozimo despachasse! Equivalia a um atestado de óbito. Eu fui um desses desafortunados, porém sortudo, por desafiar o seu diagnóstico. Castigado por impaludismo, meu fígado vivia aos pandarecos. Minha mãe já havia visitado o laboratório do farmacêutico um sem-número de vezes e comprado dezenas de remédios, que eu tomava como se fosse placebo. Nada fazia efeito. Até que Ozimo, já farto daquele ritual, resolveu dar um basta. Fitou minha mãe com ar grave e declarou. “Não tenho mais o que receitar para o seu filho. Procure um médico em São Luís. Aqui ele não fica bom”.

Minha mãe perdeu o chão. Em prantos reuniu a família e comunicou a sua decisão. “Vou lutar pela vida do meu filho até o fim. Levo-o para São Luís. Farei o que puder para salvá-lo”. E assim foi. Escapei da morte, mas não da presença do farmacêutico. Eu tinha pavor de injeção. Um dia, castigado por uma ferida no calcanhar que não sarava de jeito nenhum, meu pai me levou até a sua Fharmácia Brasil. Antes teve o cuidado de me prometer que eu não tomaria injeção de jeito nenhum. “Meu filho, fica tranqüilo, seu Ozimo vai só passar uma pomada. Não vai ter injeção. Eu garanto”.

Entre desconfiado e nervoso, me vi diante daquele velhinho corcunda, levemente inclinado para frente, camisa de mangas compridas abotoadas nos punhos, cabelos impecavelmente penteados e divididos ao meio. Ozimo falava manso e pausadamente, como se ditasse uma ordem. As pálpebras, em face do peso dos anos, caiam-lhe sobre os olhos, fazendo com que ele fitasse o interlocutor como quem procura localizar um objeto minúsculo.

Ele ouviu pacientemente o relato do meu pai e, por fim, fez a pergunta que eu temia ouvir. “Ele já tomou injeção?”. Diante da negativa do meu pai, calou-se e deu meia volta na direção do laboratório, que ficava no andar superior do sobrado Canto Grande, suntuoso casarão, em cujos salões Duque de Caxias fora homenageado no século anterior, e que servia agora de estabelecimento comercial e de residência do farmacêutico.

Vendo a minha aflição, e tentando minimizar a situação, meu pai falou-me ao ouvido: “Meu filho, é só uma injeçãozinha de nada, não vai doer. Prometo!”. Eu não disse uma palavra. Entendi que se quisesse salvar a minha pele tinha que agir rápido. Então retirei as sandálias dos pés e, num instante de relaxamento da vigilância paterna, saí em disparada no rumo da Gurgueia, um imenso brejo situado na saída da cidade, formado de pés de algodão, salsas e orelhas de veado. Dois moleques foram escalados para me agarrar, mas eu sumi rápido entre os arbustos, não dando qualquer chance de resgate.

O pai só foi me encontrar horas depois, quando já me encontrava em casa, refeito do susto. Então me contou que, ao saber do espetáculo patrocinado por mim, seu Ozimo sorriu baixinho, e comentou, a voz quase sumindo. “Mas quem disse que eu ia aplicar injeção?” Depois entregou uma latinha de pomada de uso tópico, cujo nome não me recordo, para que fosse aplicada na lesão três vezes ao dia, após a assepsia do local. Como se diz no interior, foi tiro e queda.

Sobre Ozimo de Carvalho corriam muitas estórias, algumas engraçadas. Como a que envolve os comprimidos Melhoral, um dos mais antigos medicamentos, ainda fabricados nos dias atuais. Seu lançamento, no final dos anos 40, foi acompanhado de ampla campanha publicitária, cujo jingle dizia o seguinte: “Melhoral, melhoral, é melhor e não faz mal”. A propaganda, veiculada maciçamente no rádio, caiu no gosto popular. Quase todo mundo a conhecia. Um sujeito da zona rural chegou na Fharmácia Brasil, para comprar o remédio, mas não se lembrava do nome. Então assoviou a música da propaganda do remédio no ouvido do seu Ozimo, que, imediatamente, identificou o produto. “Já sei. O senhor quer é o Melhoral!”.

Durante a sua existência, Ozimo de Carvalho esteve por trás das iniciativas mais brilhantes para a cidade de Viana. Foi vereador por diversas legislaturas, tornou-se prefeito por duas vezes, criou as condições para a implantação da primeira biblioteca pública do município, articulou a criação da Associação Comercial, Agrícola e Industrial de Viana. Também fundou o semanário A Época que, por dois anos, manteve informada a sociedade vianense dos acontecimentos políticos e econômicos do Maranhão e do País. No bicentenário de transformação da Aldeia de Maracu em Vila de Viana, em 1957, presenteou a cidade com o livro “Retrato de um Município”, uma das obras mais importantes sobre Viana.

Personagens como Ozimo de Carvalho, pela sua dimensão social e humana, merecem mais que a simples inscrição do nome em logradouros públicos. Devem ser estudados na grade curricular da educação básica, discutidos em fóruns acadêmicos, para que as novas gerações compreendam o seu legado à história e ao desenvolvimento da terra que lhes serviu de berço. Ozimo não foi apenas farmacêutico, político e visionário, porém o arquiteto de uma época que marcou a imagem da cidade como berço de inteligência e conhecimento.

*Jornalista, escritor

Crônica publicada no Jornal Pequeno, em 2013.

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