O goiabal da Santa e o dia da caça

Por Nonato Reis*

Imagem ilustrativa

A Fazenda da Santa, ou Fazenda Bacazinho, foi palco das melhores lembranças dos meus tempos de menino. Ali estudei as primeiras letras, brinquei, namorei. A maior parte das festas e outros eventos do Ibacazinho, povoado à beira do rio Maracu, a quatro quilômetros da sede do município de Viana, ocorriam nos domínios da fazenda – uma casa de alvenaria em dois pavimentos, erguida sobre um oitão, ao lado de um velho tamarindeiro, e de frente para uma planície verde que se estendia a perder de vista.

No inverno, as águas do Maracu transbordavam e avançam para os campos e matas de vegetação baixa, transformando a paisagem num imenso lençol líquido, margeado por uma estreita faixa de terra, onde se localizavam as casas. A fazenda ficava praticamente isolada, e mesmo o caminho de chão batido, que dava acesso ao lugar, se tornava intransitável, coberto de lama e de água.

No primeiro piso da fazenda havia um salão com mesa grande retangular, usada para a ceia dos vaqueiros no período de ferra (evento festivo em que o gado, recolhido aos currais, era contado, ferrado e vacinado, além de sorteadas as reses que seriam dadas em pagamento ao responsável por cuidar da criação). A mesa também servia à escola de alfabetização, destinada às crianças da comunidade.

Alguns metros além dos limites da casa grande, havia um enorme poço, que abastecia a fazenda por meio de um sistema de bombeamento. A cacimba e o tamarindeiro, conforme relato dos mais velhos, seriam herança dos jesuítas, que ali se estabeleceram em meado do século XVIII e implantaram a Missão de Conceição do Maracu, marco inicial da colonização de Viana.

Um pouco mais à frente do pé de tamarindo estendia-se o goiabal, local preferido da meninada, durante o recreio.

Eram tantos os pés de goiaba que formavam um entrelaçamento de galhos e davam um sentido de unidade, como se houvesse um único pé da árvore, o que possibilitava aos alunos percorrerem toda a extensão daquela floresta, movimentando-se pelos galhos das plantas.

Em determinada época do ano, repleto de frutos dourados, o goiabal se convertia em ótima fonte de nutrição, ainda mais considerando o estado de carência da comunidade.

Porém, ávida por vadiagem, a molecada não apenas se alimentava dos frutos maduros, como fazia-os de bolas de pingue-pongue, atiradas uns contra os outros. Era uma gritaria ensurdecedora quando a goiaba madura espatifava na blusa alvinha de farda de um colega, provocando uma enorme mancha vermelha, para o desencanto das mães, obrigadas a trabalho dobrado para reabilitar os uniformes.

As brincadeiras assumiam um tom de drama, quando a goiaba arremessada acertava, indevidamente, um órgão da criança, como o estômago, por exemplo. Eu passei por situação difícil, quando um primo meu atirou-me um fruto ainda verde. A goiaba acertou-me na altura do fígado, e por alguns minutos eu perdi a fala e a respiração.

Chamada às pressas, a professora Ceciliana, por coincidência minha madrinha, tirou-me daquela agonia e “premiou” o agressor com meia dúzia de bolos. Além disso, proibiu o acesso às goiabeiras por uma semana.

Mas nem os filhos dela escapavam das presepadas no goiabal. Silvana era morena clara, traços delicados e os cabelos secos, fartos, do tipo fogoió. Adorava jogar as goiabas contra os colegas e, ótima arqueira, quase sempre se saía melhor nos arremessos.

Acontece que nem sempre o caçador se dá bem e uma hora ele vira caça. O dia de Silvana chegaria, e ela, de tão atingida pelas goiabas, ficou parecendo um mostrengo – a farda toda ensopada de vermelho, como se do próprio corpo escorresse sangue, e os cabelos numa espécie de sopa de beterraba. Minha madrinha, que não era de passar a mão na cabeça de transgressores, disciplinou gregos e troianos, e Silvana, mesmo a contragosto, teve que acertar as contas com a palmatória.

*Jornalista

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