O dia em que Tancinha dançou

Ilustrativa

Por Nonato Reis*

Pelo batismo chamava-se Maria Teresa, nome que ganhou do pároco da igrejinha local, em homenagem à Virgem Santíssima. Mas de santa Teresa carregava apenas o adereço e esse perdeu anos mais tarde em circunstâncias, digamos, exóticas. No lugarejo em que vivia, próximo ao Ibacazinho, ficou conhecida como Tancinha, depois do episódio que marcou a perda do selo de castidade. Era branquinha, mignon, as formas levemente arredondadas. Tinha seios pequenos e a bumba grandona, do tipo tanajura.

A virgindade, perdeu-a um tanto tardia, aos 28 anos. Não porque desejasse casar com aquele lacre ou tivesse feito promessa de castidade. O atraso se deu por medo mesmo. Sentia calafrio só em se imaginar sobre um estaleiro (ops, cama), refém daquela coisa intimidatória, que os homens carregam entre as pernas, como escudo de masculinidade.

Sexo não podia ser coisa de Deus, pensava. Não podia ser normal abrir as pernas e ser escalada feito peixe no espeto. Mas essa era uma regra da natureza, assim como a morte o é da existência.

O pai Felisberto, que construiu fama nos cabarés de Viana e espalhou filhos no mundo dentro e fora do casamento, vivia a alertar a filha sobre os perigos de retardar o ingresso no clube das ex-donzelas. “Esse negócio é como carne de piranha. Depois de certa idade enrijece, vira comida ruim”.

Não que o pai defendesse o fim da virgindade da filha, pura e simplesmente. Não, que ele não era um pai desnaturado. Queria que a coisa fosse feita dentro dos conformes, depois da sagrada cerimônia do altar, com o véu e a grinalda, “como mandam as leis do Senhor”. Assim vivia a arranjar pretendentes à empreitada conjugal para a filha, mas ela os rechaçava um a um, depois de um tempo de convivência, em que procurava espreitar os modos do rapaz e especialmente o documento secreto, que não podia se estender além dos limites do tolerável. Aliás, para ela, quanto mais esmirrado o dote, melhor.

Pelo perfil traçado por ela, o moço tinha que ser educado, fino, elegante, carinhoso – para levar a coisa com jeito e ter muita paciência, que ela não desejava se desfazer do lacre logo na primeira noite. Tinha que ser “devagar, miudinho”, como carro subindo a serra em primeira e segunda marchas, até atingir o topo.

A fila de pretendentes crescia e desaparecia ao passar em revista de Tancinha. Quando não eram algumas das qualidades da lista que faltavam, era o tamanho da coisa, que lhe parecia avantajado demais para os seus padrões. Se era grande, médio ou pequeno, ela aferia por uma fórmula transmitida dos seus antepassados. “Olha o pé do rapaz, minha filha. Pela extensão você saberá se o sujeito é de tudo ou de nada”, orientava-lhe o pai, sempre metido a entendido na matéria.

Tancinha começou a sentir na pele as marcas do tempo e nada de encontrar o par ideal. Até que um dia topou com um caixeiro viajante para lá de viajado, que lhe fez a corte à primeira batida de olhos e de cara a premiou com um botão de rosa. O sinal verde piscou na hora e depois iluminou-lhe a face, quando olhou o pé do rapaz e viu suas dimensões minúsculas. “É ele!”, fechou questão. Apolinário da Silva, o Popó.

Tancinha planejava perder a virgindade durante as núpcias, porém mal começou o namoro e o caixeiro tentou logo se apossar do seu bem maior. Com muito esforço tentava controlar o ímpeto de Popó, mas ele conhecia como poucos o traçado até o tesouro e a carne, ela descobriu logo, era fraca demais. Já se daria por feliz, se conseguisse chegar virgem ao noivado, mas acabou abatida em pleno voo.

Foi durante uma exibição da Esquadrilha da Fumaça. Toda a cidade acorreu para ver o espetáculo. A família de Tancinha também. Menos o casal, que ficou a tomar conta da casa. Popó, que não era bobo nem nada, não perdeu tempo, que esse andava muito escasso. Quase que atropelando os móveis da sala, arrastou-a para a cama dos futuros sogros, livrou-se das roupas dele e dela e preparou o golpe, sem qualquer preliminar. Ela respirou fundo e fechou os olhos, quando ele encostou aquela coisa dura que nem aço entre suas pernas e deu o primeiro impulso, forte, violento a estremecer as entranhas.

Em sequência desferiu o segundo, o terceiro e o quarto golpes. A cada estocada Tancinha dava um berro e pedia ajuda aos céus, mas a sua caixa preta era mais rija que a própria coisa.

Então se lembrou das conversas com o pai, Felisberto, sobre a piranha que vira comida, depois que envelhece. “Olha, eu já comi muita carne ruim nesta vida, mas esta é pior do que perniguim”, ralhou o caixeiro, afastando com os dedos o suor da testa. “É a piranha!”, gemeu Tancinha aos prantos. “Que piranha, menina? De que diabo você está falando?”, berrou o homem quase transtornado, sem entender bulhufas. Tancinha calou-se, vencida.

Então, já exausto com aquele ritual inútil, o caixeiro sacou o coelho que trazia na cartola (ou melhor, na boca). “Olha, eu nem gosto de fazer isso, sei que é repugnante, mas não tem jeito, quando o negócio não amolece”, disse como a exibir um álibi, para então lançar uma bola de cuspe sobre a piranha de Tancinha. Ao sentir aquela gosma colada em sua pele, o estômago embrulhou e ela vomitou até perder os sentidos.

Ao despertar, deu com Apolinário deitado ao seu lado, banhado e fumando um cigarro. “O serviço está feito. A piranha morreu aqui, ó!”, e deu três batidinhas carinhosas no autor da façanha, que já começava a se preparar para nova jornada. Tancinha acompanhou a mão de Popó com o olhar e levou um susto ao ver aquela coisa imensa, quase duas vezes maior que o pé dele. Então suspirou, fechou os olhos e balbuciou: “céus!”.

*Jornalista

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