A fazenda do Ibacazinho

Por Nonato Reis*

Muitos anos depois ainda jurava ouvir o ruído dos ventos entrando pelas frestas das janelas, inundando o refeitório com aquele som agudo, intermitente, como se tentasse estabelecer uma comunicação (sabe-se lá de onde) com os ocupantes do casarão envelhecido. A fazenda de Nossa Senhora da Conceição, ou simplesmente Fazenda do Ibacazinho, fora erguida sobre uma elevação, de frente para a planície verdejante que se estendia a perder de vista.

Amava aquele lugar que parecia remeter a uma época remota da minha existência e me tocava a consciência apenas de forma tangencial, por meio de sensações e sinais abstratos. A casa tinha dois pavimentos. O térreo, em paredes e colunas de tijolos, compreendia um salão grande, onde funcionava uma escola de ensino primário e era servida a refeição dos visitantes em tempos de vaquejada; uma pequena sala de espera, dois banheiros e um terraço com uma escada que dava para o andar superior. Na verdade, eram duas as ligações com a parte de cima, uma pela saída dos fundos e outra pela parte de entrada.

No alto, após a escada da frente, havia uma varanda ligando as duas extremidades da casa, que propiciava uma visão magnífica dos campos ao redor e se podia ver as barragens das Colheireiras como manchas cinzentas no horizonte. No meio da varanda, surgia um corredor que dava acesso aos quartos de um lado e de outro. No final do corredor ficava a cozinha rústica, com os fogões a lenha e a mesa para as refeições da família e de convidados especiais.

Era um lugar deslumbrante, que de tão belo e mágico projetava uma aura de mistério. No quintal a 30 metros dos fundos havia uma enorme cacimba, alicerçada em tijolos, que por meio de um dispositivo mecânico, abastecia a casa. Ali, ao redor do poço, corriam histórias, parte delas envolvendo aparições de espírito.

Um enorme tamarineiro, provavelmente secular, guarnecia a frente da fazenda. Guardo-o com devoção, porque sobre suas raízes conquistei uma namorada que me parecia um sonho impossível. Foi em meio a uma festa de São Gonçalo, mas isso aconteceu muito tempo depois, quando os moradores iniciais já não estavam ali.

Na minha memória revejo o meu padrinho Sebastião Furtado, com seu ar imponente e voz grave, distribuindo ordens e cobrando atitudes dos empregados e dos filhos. “Paulo, abre a porteira do curral, assim você mata o gado de sede!”. “Raimundo, e o conserto da cerca dos fundos?”. “Gente, cadê a Bertulina. Cadê Celina, Silvana, Teresa? O povo da casa sumiu?”.

O povo da casa, a que se referia, estava provavelmente trepado no goiabal que se estendia a leste da fazenda. Ali, no horário do recreio da escola, a diversão corria solta. No alto das goiabeiras, sobre galhos frágeis que balançavam ao ritmo do vento, devorávamos os frutos adocicados e depois os arremessávamos uns contra os outros, manchando de vermelho os uniformes escolares, reduzidos a uma sujeira só, para o desespero e irritação de nossas mães, obrigadas a duras sessões de lavagem para reabilitá-los.

Depois do goiabal começava a floresta de arbustos e árvores medianas, cortada ao meio por uma trilha que conduzia até o povoado, às margens do rio Maracu. No meio do caminho havia uma tapera (lugar onde um dia fora habitado), demarcada por pés de manga e jaca, palmeiras de babaçu e jatobás. Diziam que o lugar era assombrado. Os mais velhos contavam que tarde da noite um vulto todo de branco assumia o papel de sentinela no meio do caminho, interrompendo o curso dos viajantes.

Um dia, após uma visita noturna à fazenda dos padrinhos, fazia a trajetória de volta para casa. Passava da meia-noite e eu seguia montado em um cavalo catraio que o meu pai tratava como a um filho. Não era noite de lua. O céu parecia avermelhado com nuvens carregadas. De repente, já na entrada da tapera o cavalo estancou e levantou a cabeça bruscamente como se tivesse sido golpeado de frente. Tentei avançar e ele deu um salto para cima, relinchando e resfolegando, quase me jogando no chão.

Por conta própria o animal deu um giro sobre si e fugiu comigo em disparada na direção do rio, destruindo arbustos e cipós atravessados no caminho. Eu nada podia fazer, além de tentar me segurar sobre a montaria. Veloz feito um raio alcançou a beira do rio Maracu e saltou em suas águas, arremessando-me para frente que, como uma flecha, mergulhei na lâmina d’água. Tudo escureceu e eu não vi mais nada até flutuar já próximo a um campo de futebol. Alcancei a barreira e joguei-me sobre a relva, o coração preste a explodir.

Longe ouvi um galope, que parecia aproximar-se rápido e intrépido, igual tempestade. Inerte, esperei. Seria o catraio? Abri os olhos e vi um animal negro como a noite. Dos olhos saíam faíscas lançadas em jatos de fogo. Sobre ele um cavaleiro de terno e gravata brancos, chapéu de feltro clarinho. Nas mãos trazia um chicote escuro. Ficou ali parado a me observar sobre o cavalo que, irrequieto, relinchava e dava saltos, apoiando-se nas duas patas traseiras.

Após um tempo que não consegui precisar, deu voz de comando ao animal e afastou-se em trote, sem olhar para trás. Pela segunda vez abri os olhos e vi dois primos assustados, querendo saber que diabos eu fazia ali, dormindo à beira do rio, as águas lambendo o meu corpo. O calor era intenso. Parecia queimar-me as entranhas. Olhei para o céu. O sol ia alto. Que horas seriam?

*Jornalista/Escritor | Crônica escrita em 24/01/2015

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