E chamou a devota de vaca em plena Missa da Matriz

Por Nonato Reis*

Conta-se que na primeira década do século XX, a Igreja Matriz de Viana (ou Nossa Senhora da Conceição), foi dirigida por um padre francês de nome Rolin, brabo que só a peste. A qualquer sinal de contrariedade o pároco ficava vermelho e explodia em crises de raiva, soltando palavrões a três por quatro, mesmo diante da imagem sagrada de Nossa Senhora, a Virgem Santíssima. Os fiéis, já sabedores do gênio ruim do padre, faziam de tudo para não estressá-lo.

Muitos já haviam sido expulsos da igreja sob a mira de uma arma de fogo, que o religioso portava por baixo da batina, procedimento considerado impróprio para alguém que se dizia representante na Terra de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que o Vaticano fazia “vistas grossas”, considerando o passado belicoso da Igreja Católica.

Se em outras épocas a batina servira de salvo-conduto para matar, saquear e até queimar vivo na fogueira da inquisição, por que fazer “tempestade em copo d’água”, por conta do porte de um simples bacamarte?

Sexta-feira da paixão, o padre Rolin ocupava o púlpito pregando o Sermão das Lágrimas de São Pedro, do Padre Antônio Vieira, num português arrastado. E lembrava a metáfora do olho, que contém dois canais: um de dentro, que se ilumina com a visão do mundo; outro de fora, que se alimenta das lágrimas. Uma mulher, esposa de influente político da cidade, com um filho pequeno nos braços, acompanhava atentamente a pregação do padre, mas a criança danou-se a chorar.

Rolin advertia: “É precisa terrr cuidador com os coisas mundanas (…)”, no que era interrompido pelo berreiro do menino. O nariz do padre começou a ficar vermelho, os olhos incharam e principiaram a lacrimejar. E tome berro da criança. Rolin, o catarro já escorrendo pelo nariz, não se conteve. “Meu senhorra, cale esta menino ou se vá emborra! Onde já se viô berrar dentro de casa do Pai!”.

A criança juntou todo o ar dos pulmões e berrou ainda mais forte. O padre jogou o livro de lado e, os olhos esbugalhados, gritou, com a mão espalmada. “Sai daqui, seu vaca!”.

Foi um pandemônio dentro da igreja. O marido, inconformado com o que considerou uma ofensa absurda, arregimentou correligionários para surrar o padre e mandá-lo aos cafundós do judas. O padre porém não se intimidou com a trama e saiu da igreja de revólver em punho, pronto para revidar na bala a agressão, que acabou não se consumando.

O político então fez gestões em São Luís e conseguiu mandar o padre boca suja para outra paróquia, distante léguas de Viana. Na despedida do religioso, que tomou um vapor com destino a São Luís, houve protestos e vaias. Parte da população, armada de latas velhas e serrotes, acompanhou a embarcação até o meio do lago a bordo de canoas, com assovios e salvas de foguetes, ao que o padre, do convés, respondia dando “bananas” com os braços. O gesto do padre gerava mais revolta da turba, que bradava alto e bom som: “vai pros quintos dos infernos, seu padre endemonhado”.

*Jornalista | Escritor

Crônica escrita com o auxílio do livro “Histórias de um menino pobre”, do médico e escritor Sálvio Mendonça. Integra o livro “De Ibacazinho a Viana”, previsto para 2021.

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