“Cutagem”: coisas de Viana!

  “Se gostas de afetação e pompas de palavra e estilo que chamam culto, não me leias” (Padre Antônio Vieira)

Por Ezequiel Gomes*

A nossa Viana, como a maioria das cidades interioranas, não foge à regra em ter suas peculiaridades, seus costumes e pessoas “folclóricas”, que marcam ou marcaram o cotidiano do município. Desde o modo de falar, o cidadão vianense diverge dos demais.

Como um bom observador e atento a essas particularidades, algo me chama atenção desde os tempos de juventude. Uma frase ou afirmação: “Cuta, tu tá na cutagem, hein?!”. Por conhecer algumas dezenas de cidades interioranas Brasil afora, confesso, nunca ouvi tal expressão. Isso me fez recorrer ao dicionário para ver se existia tal palavra e o significado dela. Para a minha surpresa, não existe tal referência da curiosa e engraçada citação.

Não desanimei em conhecer a origem e o significado da afirmação: “Tu tá na cutagem, hein?!”. Quando ouvia alguém falando, aguçava mais ainda a minha curiosidade.

Dessa vez, recorri a um fraterno amigo,  Nodson Cutrim, o Nodinho, sempre abuso da sua boa vontade por ser conhecedor profundo da histórias, casos e causos vianenses. Considero o mesmo uma verdadeira enciclopédia ambulante. Nodinho foi, nos idos de 1970, o primeiro secretário de Educação do município, nos sábados, entre um copo e outro de cerveja trocamos ideias sobre a história de Viana.

Ele me informou que essa palavra surgiu da criatividade dos vianenses, ávidos observadores dos inocentes amores platônicos do senhor Raimundo de Cuta. Quando este se apaixonava por uma moça, passava dias a fio a admirá-la a distância, de uma maneira respeitosa, sem sequer importuná-la. Na cabeça do sonhador, ele estava com namoro sério.

Quando questionado sobre o que ele fazia ali, parado, olhando para o nada, respondia: Eu estou namorando! Algumas damas entravam na brincadeira e usavam de sua inocência para a prestação de pequenos serviços domésticos, outras já não gostavam, jogavam água, penicos cheios, dentre outras coisas, na intenção de afastá-lo.

Mesmo com tudo isso, ele retornava nos dias seguintes para o seu romance utópico até se apaixonar pela próxima moça. Assim levou a vida, até o fim do seus dias. Seu Raimundo deixou a história de Viana marcada no cotidiano da cidade.

Hoje a expressão “cutagem” é muito usada para fazer alusão à quem vive de devaneios. Políticos que fizeram grandes feitos só na sua cabeça.

Outros que se consideram fortes lideranças só no seu mundo imaginário ou mesmo o cronista que vos fala. Será que a expressão “cutagem” não contaminou o imaginário de grande parte da população? Quantos vivem de ilusões? Estaria eu comentando uma “cutagem” escrevendo esta crônica? Ficam aqui os questionamentos ao querido leitor.

*Advogado e cidadão vianense.

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