A Coivara do Maracu – alegria e medo

Ilustrativa

Nonato Reis*

Mais do que fonte de sustento para os moradores do Ibacazinho, lugarejo a 40 minutos a pé da cidade, a Coivara, em pleno leito do Igarapé do Engenho, era um palco de vadiagem. Fosse dia ruim para a pesca e os peixes, enfastiados, ignorassem os anzóis, logo os garotos tiravam a roupa, mergulhavam na água, danavam-se a bater com os remos na borda das canoas, faziam um escarcéu dos diabos. Como que despertos da letargia, piranhas e piaus começavam a morder as iscas. Em pouco tempo o almoço estava garantido.

Quem não gostava nada desse circo eram os mais velhos, que também procuravam a Coivara para abastecer com pescado as suas famílias. Começava a algazarra e eles iam deixando o local, um após outro, resmungando baixo, soltando palavrões, ao que a turma revidava com mais alarido e provocações.

Urinavam na água, alagavam embarcações, cortavam galhos de árvores e os arremessavam uns aos outros. Transformavam aquele trecho do rio num imenso teatro ao ar livre.

A Coivara, é bom que se explique, era uma imensa árvore mergulhada sobre o rio, com seus galhos projetados em direção ao leito, alguns submersos e outros acima da lâmina d’água, formando corredores à semelhança de labirintos, onde os pescadores ancoravam as canoas, para arremessar seus anzóis.

A árvore, que devia medir mais de vinte metros de comprimento, cedera à força das tempestades. Foi se inclinando em direção à água até mergulhar, para enfim descansar da longa peleja com as forças da natureza.

Os peixes logo viram em seus galhos refúgio e proteção contra a pressão da correnteza e a perseguição de seus predadores. Mas os pescadores, com seus faros apurados, perceberam que o mapa da mina estava ali. Não demorou e a Coivara se transformou em pesqueiro coletivo e ponto de encontro da vadiagem.

Lá as brincadeiras corriam soltas e quase sempre abordavam um aspecto obsceno. Tinha um sujeito brabo, chamado João de Loura, já beirando os 60 anos, que trazia a cara sempre enfezada. Os moleques não se atreviam a brincar com ele, de medo que levassem uma surra de caniço. Havia apenas um, e esse era quase da idade dele, que quebrava a cortina de silêncio e o provocava da forma mais cínica, para o deleite geral. Dizia: “João, eu tô aí?”, ao que ele respondia: “Tá, hum ghum, de cabeça pra baixo”.

Se alguém fisgava um peixe de valor, digno do olhar de todos, logo se tornava alvo de provocações, do tipo: “Me dá o rabo?” E o outro revidava: “Dou! Aí quando eu mexer com a cabeça tu mexe com o rabo!”. Nem tudo, porém, acabava em riso. Às vezes a situação saía do controle e era preciso alguém intervir, sob pena de acontecer algo muito sério.

Cícero, um menino sempre risonho, espécie de líder dos garotos, viveu na pele um drama de arrepiar. Foi com um rapaz pelo menos cinco anos mais velho, a quem chamavam de “Paturi-torou”, numa alusão a um detalhe da sua anatomia. Havia nascido sem o prepúcio que recobre a cabeça do pênis. Só que não tolerava o apelido e ameaçava castrar quem ousasse provocá-lo.

Longe de imaginar que a questão pudesse resultar em algo tão sério, um dia, ao vê-lo remando em direção à outra margem do rio, Cícero não se conteve e o chamou pelo apelido. Na mesma hora, Paturi remou em direção ao garoto. Com um tapa o derrubou no fundo da canoa, arrancou o seu calção encardido e o amarrou em pés e mãos, com os braços para atrás.

– Seu patife, agora tu vai ver quem é “paturi-torou”!

Depois sacou a navalha do cós do calção e amolou a lâmina num pedaço de laje, jogado a esmo, os olhos faiscando de prazer pelo antegozo da vingança.

Lívido de medo, o garoto tentou gritar por socorro, mas a voz se perdeu sufocada na garganta. Paturi já havia agarrado os seus testículos e se preparava para cortá-los ao meio, quando um remo salvador brandiu na cabeça dele, jogando-o de lado, atordoado. “Tu ficou doido, seu moleque! Onde já se viu castrar uma pessoa só por causa de um apelido?”, trovejou a voz do seu Honorato, pai de Paturi, para salvar Cícero daquela situação macabra.

Depois, virando-se para o garoto, ainda branco feito cera, o velho ordenou: “Vá para casa, que depois quero ter uma conversa com o teu pai. E que isso te sirva de lição, para aprender a respeitar os outros”.

Foi santo remédio. Sempre que encontrava Paturi pescando na Coivara, Cícero fazia questão de cumprimentá-lo com toda cerimônia. Dizia: “Como vai, seu José de Ribamar Ferreira? O senhor está bem?”. E anunciava: “A diversão por hoje está suspensa. Temos visita ilustre. Merece o nosso respeito”.

*Jornalista e escritor – Do livro “A Fazenda Bacazinho”, com lançamento marcado para julho/2018.

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