Charles Broxa, o Rei da Bicharada

Nonato Reis*

Charles Broxa era um típico “bargado” (em Viana, diz-se da pessoa desconfiada), esperto e matreiro. Parecia andar sempre com um pé atrás com todo mundo, mas inteligente o suficiente para se sair com desenvoltura de qualquer impasse ou situação complexa.

Mesmo sem jamais ter sentado em um banco de escola, comunicava-se muito bem, sabia defender seus pontos de vista e dificilmente alguém o derrotava em uma discussão.
Também era bom de cálculo. Com dinheiro então, nem se fala. Se engenheiro fosse e ainda mais investidor de finanças, seria um profissional realizado. Um dia eu quis experimentá-lo e apliquei com ele o famoso teste dos “vinte mil réis”, imortalizado na canção do Rei do Baião, Luiz Gonzaga. “Broxa, vamos ver se você é bom mesmo com os números. Supondo que eu te dê 20.000 cruzeiros para pagar uma conta de 3.300, quanto você me dará de troco?”. 
Ele sequer se deu ao trabalho de pensar. “Ora, ora, é moleza! O teu troco é 16.700 cruzeiros”. Eu contestei. “Errado! Você teria que me voltar 17.700”, ao que ele cortou com um raciocínio categórico. “Vamos trabalhar só com os inteiros e deixemos a fração de lado. Se você tem 20 e deve 3, ficará com 17, certo?”, eu disse “certo”. “Agora, pega o inteiro e retira a fração: 17 menos 700, vai sobrar 16.300 cruzeiros”.
Eu fiquei abismado com tamanha lucidez. “Charles, você parece saber tudo. Tem alguma coisa que você não consegue dominar?”. Tinha! 
Ele me fitou de um jeito embaraçado, depois aproximou-se e falou em tom de confidência. “O meu problema são as mulheres!”. Eu não entendi e ele explicou. “Tenho uma dificuldade danada. Não consigo terminar… nem começar”.

Aquilo soava estranho porque eu conhecia Charles dos tempos de adolescência. Foi o maior pegador de animais com quem convivi. Naquele época na zona rural, de sexo rarefeito com mulheres fora dos puteiros, a zoofilia era uma prática recorrente, especialmente entre meninos na fase da puberdade. 
Charles acabou com a criação de galinhas dos pais, só de transar com as aves que, pela delicadeza da genitália, acabavam morrendo após a cópula.
Ele pegava o que atravessasse em seu caminho: galinha, porco, cabrita, cadela, jumenta (e até os bichos do sexo masculino). Nada escapava da sua sanha devoradora. 
Chegou a manter por anos um caso de amor com a vaquinha “Jurema”, animal de estimação da família dele, criada na mamadeira com zelo maternal. 
O envolvimento de Jurema com Charles deu panos para as mangas, porque ele, louco de paixão, fazia declarações para o animal à vista de todos, sem se importar com o falatório, e só não casou com ela porque não não houve um meio legal de sacramentar a relação.

– Charles, mas como é isso? Você deixou de gostar ‘da fruta’? Quis saber, ao que prontamente respondeu que não, muito pelo contrário.
– Até hoje continuo guloso, mas só funciona com animais.
Porém, entre quatro paredes com uma mulher não tinha santo nem ladainha que dessem jeito. Era antena morta.

Eu, compadecido com a situação do amigo, que considerava um legítimo representante da espécie macho, ofereci-me para ajudá-lo. Lembrei-me de Gaby, uma morena grandalhona que conheci em Imperatriz, e que agora se encontrava em Viana, batendo ponto no cabaré da “Luz da Serra”. Gaby tinha uma longa folha corrida com homens em situações sexuais vexatórias. Para todos sempre trazia na cartola uma solução prática infalível. 
Fui até ela e relatei o problema de Broxa. “Gaby, acho que a coisa está relacionada ao excesso de sexo com animais. Ele desenvolveu uma espécie de bloqueio psicológico com mulheres e agora está à mercê de um milagre”. 
Gaby deu de ombros. “Fica tranquilo, meu filho, que o milagre dele está entre minhas coxas”. E assim, Charles Broxa foi conduzido ao quarto para uma terapia de seis horas corridas entre as pernas de Gaby. 
Ao final da sessão deixou a cama de Gaby pior do que houvera entrado, porque além de não funcionar, saíra gemendo e mancando. Fui ter com a mulher. “Gaby, o que aconteceu?”. Ela mostrou-me os dedos médios das mãos. “Estão vermelhos só de tocar piano e fazer ‘terra’ no traseiro do safado. É veado encubado, meu filho. Solta o bicho na malhada, que esse aí não nasceu pra pegar mulher”.

*Jornalista/Escritor
Do livro “A Fazenda Bacazinho”, em processo de edição.

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