Cajari e a cidade desaparecida

Arquivo google

por Nonato Reis*

A Baixada Maranhense em seus primórdios foi habitada por tribos de índios, que não apenas desbravaram a região, estabelecendo as trilhas de comunicação entre os diversos povos, como também ergueram vilarejos e até cidades. Em Viana no século XVIII, por exemplo, havia a Aldeia do Maracu, um núcleo organizado com ruas e casas, habitado por índios tupinambás, destruído depois no rastro da catequese. Penalva foi reduto dos Gamela, posteriormente dominado pelos jesuítas.

Em Cajari, a poucos quilômetros de Viana, há sinais físicos de uma civilização muito mais recuada no tempo, anterior ao próprio Descobrimento do Brasil, talvez pré-histórica. O vianense Raimundo Lopes, respeitado dentro e fora do Brasil por sua atuação na área de antropogeografia, realizou estudos iniciais no leito do Lago de Cajari e concluiu que as ruínas do lugar representam os restos de uma cidade lacustre, densamente povoada e organizada.

Durante o verão, quando as águas do rio Cajari (curso natural que serve de ligação entre os lagos de Viana e Cajari) abaixam de forma significativa, era possível, décadas atrás, observar as colunas verticais de madeira encadeadas numa extensão de quase dois quilômetros, a partir das nascentes do rio até o lugar conhecido como Urubuquissáua.

Urubuquissáua, aliás, concentra enorme quantidade de objetos (de arte e utensílios domésticos) em cerâmica e pedra. Em seu livro “História de um menino pobre”, editado pela primeira vez em 1963, o médico e escritor Sálvio Mendonça avalia o estado desses objetos como “extremo desgaste”, mas assinala que “os esteios (tocos em cima dos quais se erguiam as casas sobre as águas) mantêm a verticalidade, indicando que foram suportes de habitações, cuja superestrutura desapareceu através de milênios, em pleno lago”.

Na pesquisa feita por Raimundo Lopes em 1919, aproveitando a seca rigorosa daquele ano que pôs a descoberto o conjunto de fundações da cidade desaparecida, foram encontrados amuletos que lembram as peças usadas por tribos pré-colombianas. Lopes, à época, disse que “a estearia apresentava-se toda visível, com os seus milhares de esteios numa perspectiva belíssima, impressionante, esponteando com os seus troncos negros, como se fosse imensa floresta, a face argentada das águas”.

Para Sálvio Mendonça, em seu livro, as ruínas de Cajari indicam a existência no local de uma civilização especial, contemporânea da Marajó, na Amazônia, do México e da Centro-América, no Peru, “talvez do ramo das tribos vindas da Ásia (…), evoluindo no México para a destacada civilização Azteca, e no Peru, para os Incas”.

É de causar espécie que mesmo diante de sinais claros da existência de uma antiga civilização em Cajari o poder público e a iniciativa privada não tenham demonstrado interesse concreto de promover estudos de natureza arqueológica no local, para levantar a origem dessas ruínas e informações sobre que povos se estabeleceram ali, como viviam e que contribuições tenham dado para a colonização posterior.

A Universidade Federal do Maranhão patrocinou recentemente uma expedição científica na Baixada Maranhense, para identificar sítios arqueológicos ao longo da Bacia do rio Turiaçu, na região de Santa Helena. Os cientistas encontraram estearias semelhantes à de Cajari, com enorme quantidade de louças e cerâmicas. Os estudos revelaram traços idênticos com a cultura marajoara na Amazônia e as tribos da América Central e do Norte.

Porém, na matéria produzida pela TV Mirante não há informação de que o trabalho tenha incluído as ruínas de Cajari. Era de imaginar que, em face da importância do tema, organizações arqueológicas e científicas atuassem em conjunto ou isoladamente, para uma melhor compreensão sobre o que se passou em Cajari em tempos remotos.

Parafraseando Hamlet, personagem de William Shakespeare, há mais mistérios na Baixada Maranhense do que possa supor a nossa vã filosofia. Hoje, quem sabe, com os diversos organismos sociais implantados na região – com especial destaque para o Fórum em Defesa da Baixada – abra-se uma janela para o futuro e se possa melhor enxergar o que ocorreu na região, no passado.

*Jornalista

2 comentários em “Cajari e a cidade desaparecida

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *