As filhas de Sebastião Furtado

Ilustrativa

Nonato Reis*

Ceciliana e Sebastião Furtado, inquilinos da Fazenda Bacazinho por quase três décadas – ela como professora e referência para a comunidade e ele como vaqueiro da Santa e líder político – construíram uma história de vida digna de registro em livro.

Os dois, a quem tenho o privilégio de chamar de “padrinhos”, estavam sempre por trás das iniciativas importantes do lugar. Nada chegava ao Ibacazinho que não fosse por intermédio deles: escola, médicos, missionários, campanhas de saúde.

O Projeto João de Barros, por exemplo, que ajudaria a resgatar tanta gente das trevas da ignorância, aportou no Ibacazinho pelas mãos de Sebastião e Ceciliana. Eles organizaram a comunidade, fizeram mutirão, levantaram a escola em barro e taipa, matricularam os alunos. Dona Cici, como era conhecida, assumiu para si a tarefa de ensinar os adultos a ler e escrever. Parecia uma missão fácil. Não era.

Convencer aquela gente calejada de sol e trabalho duro de que ler e assinar o nome podia ser algo tão importante quanto ganhar o pão de cada dia, mais do que complicado constituía um desafio.

A madrinha ia de casa em casa, em visita às famílias, para falar das maravilhas do saber. Alguns até cediam no primeiro momento e concordavam em participar. Depois das primeiras aulas, voltavam atrás, desistiam, impondo novas rodadas de visitas e convencimento.

A semente lançada fecundaria. Ainda hoje, mais de 30 anos depois, o nome dos padrinhos são lembrados com um misto de admiração e reconhecimento, pelo muito que fizeram pelo Ibacazinho, numa época marcada pelo atraso e por necessidades de toda ordem.

Porém, gratidão é apenas uma face da moeda, quando se fala de Sebastião Furtado e Ceciliana. Eles ganharam inscrição no imaginário das pessoas também pelos frutos advindos dessa união.

Ao todo são dez filhos, nove mulheres e um homem. Pela ordem de nascimento: Teresa, Celina, Silvana, Gorete, Sílvia, Maria Amália Cláudia, Sebastião (Bazinho), Márcia e Dayane.

Tal como os padrinhos, os filhos parecem dotados de luz especial. No caso das meninas, todas herdaram na voz um traço peculiar da mãe, de falar como se lhe faltasse o ar, mas de um jeito sonoro e suave, o que dá um toque de magia ao conjunto da obra, tão bem delineada.

De Teresa a Maria Amália (Cláudia, Bazinho, Márcia e Dayane vieram por último e não cabem na narrativa temporal deste texto), a estética parecia linear, embora guardassem pouca semelhança física entre si, mas tinham atributos que as colocavam no mesmo patamar de beleza umas das outras.

Teresa, por ser a mais velha, atingiu primeiro a fase adolescente e colecionava admiradores. Herdara as linhas físicas do padrinho e a delicadeza da madrinha. O corpo parecia obra de um artista italiano da renascença. Do Ibacazinho a Viana, era cortejada abertamente, como a cereja do bolo. O universo masculino em peso se “matava” para cair nas graças de Teresa.

Coube a Ademir Zenni, um menino magrinho e inteligente, que dividia comigo o ambiente escolar, ganhar a primeira batalha pelo olhar dela. Por pouco tempo. Logo o deixou para atrás, impelida pela necessidade de conhecer o mundo.

Na sequência daquela árvore frondosa, foram surgindo para a vida Celina, de corpo escultural; Silvana, com traços aristocráticos; Gorete, única morena do clã e envolta numa aura de mistério; Sílvia, a mais parecida com a madrinha; e Maria Amália, que também lembrava as linhas delicadas da mãe.

Eu via aquela família como a extensão da minha. Criei-me no ambiente da fazenda, brincando e estudando, fazendo planos e peraltices. As filhas dos padrinhos eram tão de mim próximas que beiravam à irmandade.

Digo “beiravam” porque, da minha parte, havia um misto de fraternidade e também de interesse velado. Talvez Gorete tenha sido aquela com quem estive mais próximo de um flerte, o que não se consumou, em parte pela minha timidez aguda e também pela quase neutralidade dela.

Nas festinhas de radiola, era o meu par exclusivo, único mesmo. Dançávamos da primeira à última música, sem trocar uma única palavra. Claro que aquilo não ia dar em nada, afinal quem vai saber o que mudo quer.

Celina me faz lembrar um episódio engraçado. Havia uma brincadeira de “cair no poço”, que se fazia com fileiras de homem e mulher. Uma vez caído no poço, havia-se de ser resgatado com afagos, que iam de simples aperto de mão até beijo nos lábios. Certa vez, coube a Celina trazer-me à lume com um aperto de mão. Só que na hora do cumprimento ela me ofereceu um pedaço de arame farpado no lugar da mão. Eu considerei o gesto um insulto e me recusei a recebê-lo.

O mal-estar se estendeu por meses, até que ela, vencida em seu orgulho, resolveu dar um basta àquela bobagem. “Nonato, me desculpa. Foi só uma brincadeira; eu não quis te ofender”.

Agora, pelos laços do espírito e por algo que não consigo explicar, sempre me senti mais ligado a Sílvia, alguns anos mais nova do que eu e com quem, apesar de ainda menina, conversava sobre a vida e os planos para o futuro.

Um dia, ela já mocinha, e vindo para São Luís, eu a acompanhei em cima de um Pau de Arara até a Cachoeira, onde pegaria o ônibus até a cidade. Na despedida, e depois de eu atravessar o rio de volta para casa, ficamos a bater com a mão um para o outro até o veículo sumir na estrada. Uma cena, aparentemente, comum, mas que pela própria singeleza ficou-me gravada na memória.

No dia do lançamento do romance “Lipe e Juliana”, na Livraria AMEI, foi grande a minha emoção ao ver Teresa, Gorete, Márcia e Dayane, acompanhadas do pai, na fila de autógrafos. Então fiquei ali a pensar nos mistérios da vida, de como os gestos simples têm a capacidade de se eternizarem.

Os sentimentos nada têm de complexos. O ser humano, com sua mania de querer esquadrinhar a lógica das coisas, é que complica a leitura. Um único aperto de mão, um olhar, um sorriso pode salvar uma vida.

*Jornalista, escritor

Do livro “A Fazenda Bacazinho”, previsto para julho/2018.

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